terça-feira, 18 de dezembro de 2007

É em ti que vou ficar




O medo nunca matou.

Eu não sei onde tem andado o medo, algures numa cavidade cheia de mucos inseguros, que fica dentro de mim, num sítio onde ninguém sabe onde a luz penetra.

As noites são duras, frias, flageladoras e deixam cicatrizes para mais tarde recordar, num VHS tão velho, que acumula o pó, numa prateleira duma estante aparentemente nova.

Podia ver muito em ti, como canta a voz no rádio, que ritma o bater dos dedos nas teclas do companheiro que me ilumina o quarto frio…Devia ser quente, está cheio de objectos, passos, momentos e sentimentos, mas está frio, quase tão frio como lá fora, como a água que escorre pelos vidros da janela que dá para o exterior.

Um telefone toca e eu nem sei quem é…Não és tu, nunca podias ser… Não te lembras do meu silêncio nem da minha ausência.

Também não te lembras da noite em que ficaste entregue ao teu copo a meio, enquanto eu ficava numa sala tão cheia de gente…tanta gente, que me confunde…

Ainda sinto a tua presença, és tu…Abraço-te! Amo-te!...O sangue corre pelas artérias ensurdecedoramente, sinto o pulsar do teu peito junto ao meio, enquanto nos enlaçamos e a música acompanha os nossos movimentos despreocupados, porque não há mundo…

A música pára e afastas-me o cabelo dos olhos, que abro lenta e despreocupadamente…Uns olhos azuis brilhantes sorriem-me…Não são os teus!

Não sei onde estás agora, nem onde estiveste…Lá fora, ninguém sabe o que o escuro pode fazer, porque só conseguiram ver o que estava na clareza das luzes intermitentes, que eu nem notei e que tu ignoraste.

Foste arrastado, novamente, para o teu lugar e eu voltei também para o meu.

Queria desvendar o teu e o meu mundo, mas agora permaneço no meu abrigo e não desvendo tudo o que é tão novo e amplo…Nunca vi como é que a tempestade penetra em ti, nunca vi tudo o que escondes aí dentro, enquanto um dilúvio se acerca de mim.

Já é noite…Aqui tudo é mais fácil, habitual e meu…

Quero voltar a nós, seja para fazer, refazer ou desfazer aquilo que um qualquer medo um dia construiu e nunca mais derrubou…

terça-feira, 27 de novembro de 2007


Animadamente conversamos, enquanto os meus olhos percorrem a tua face; já alguma vez te disse como és bonito?

Não, tu não sabes que eu te observo, que me embebo nas tuas palavras, que te recordo na solidão do meu quarto verde-alface, no final de mais um dia em que não te encontrei.

Por onde andas? O que sentes? A tua solidez é como os teus passos, cheios de certeza e confiança? Fazes o mesmo sentido nos teus pensamentos e nos meus?

Quero embeber-me mais em ti, quero conhecer-te ao som duma música que ambos já escutámos mas que nunca prestámos atenção…Quero fazer parte desse teu mundo tão secreto, que eu tanto desconheço…Quero descortinar-te e descrever-te sucintamente, de olhos fechados, como se a tua imagem exterior e interior fossem uma só, perceptíveis e claras.

Será que, dentro, és tão bonito quanto eu penso?

Será que, dentro, também te consigo descrever, depois de te estudar e compreender?

Será que, dentro, terás uma porta em que eu possa ser a detentora das únicas chaves douradas, pequenas e brilhantes?

Será que, dentro, és quem eu sempre pensei que encontraria?

Não te sei, nem me sei. Não sei mesmo se um dia me saberás e nos saberemos.

Para já, fico-me com o sabor do teu olhar doce, das tuas palavras esporadicamente animadoras, das nossas conversas…

Para já, fica-me a ansiedade de voltar a ver-te um dia, talvez amanhã, ou daqui a uma semana, à beira do último degrau das escadas que pesadamente vou descendo, até ver o teu sorriso a abrir-se e a tua mão a envolver a minha cintura, com um “Bom Dia” a saber a tudo o que sei, e àquilo a que ainda não sei, mas que hei-de conhecer.

Até ao dia em que te disser “Boa Noite”, espero continuar a ver-te amanhecer.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007


E eis-me aqui, finalmente sentada num carro gigante, que corre rápido, numa auto-estrada escura e sem fim. As suas rodas giram vorazmente, na pressa de cumprir um muito nobre horário.

Ah! Cumpre-o e leva-me para o sítio que me reconforta o corpo, descompressa a mente e me deixa cerrar com fervor as pálpebras, fechando as cortinas das janelas inseridas na complexa cavidade orbitária.

Não sei a cor do meu carro (sim, já me apoderei dele, visto que estamos numa sintonia perfeita; ele esperou-me e eu corri para poder usufruir da sua viagem inesperada); mas não importa a sua cor, nem quem mais vai dentro dele. Só interessam as placas que vou avistando e que rápido desaparecem; só interessam os milhares de postes de fontes luminosas que vão ficando para trás; só interessam as dezenas de carros em que lançamos os fumos das pressas e ultrapassagens.

Recosto-me e fecho os olhos.

Por entre frontais, etmóides, esfenóides, ciclos de histerese, Leis de Lambert-Beer, comportamentos de vinculação…PÁRO!!!!

Volto a abrir os olhos e sorrio; parecem todos mais inofensivos, agora que começo a recarregar a minha energia (cinética e química!).

A música que me ressoa nos ouvidos sabe a final do dia, a final da semana; mais uma semana do meu sonho cansativo; mais uma semana da minha estadia por estas paisagens terrenas; mais uma semana das primeiras do resto da minha vida.

E o carro gigante continua a comer asfalto.

Adormeci nos pensamentos e embalada pelas músicas da minha vida…

Volto a abrir os olhos e é de dia, o sol brilha, a luz ofusca-me e agrada-me.

CHEGÁMOS!

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Conselhos de Esculápio




Porque a nova fase se iniciou, numa nobre instituição, com caríssimos colegas, sapientíssimos instrutores e sublimes conselheiros, que nos mostram um lado diferente, nos guiam e nos mostram gentilmente caminhos e textos peculiares, como este…

Porque, afinal de contas, os padrinhos e madrinhas não têm só a função de nos encher de apontamentos e dizer qual a festa “mais in”…

Aqui fica o meu agradecimento à Helena Gouveia (melhor madrinha da muy nobre FCML) pelo texto, e por “tudi tudi tudi”…

Aqui fica a parte com a qual me identifico, e espero sempre identificar, na minha nova vida e que mais sentido faz para me (re)iniciar nesta recôndita parte…Mesmo quando a saudade espicaça, e me procuro de novo, no passado que estará sempre por perto…

Bem-vindos, e Bem-vinda, eu!


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"Queres ser médico, meu filho? Essa aspiração é digna de uma alma generosa, de um espírito ávido pela ciência. Desejas que os homens te considerem um Deus que alivia seus males e lhes afugenta o medo. Mas, pensaste no que se transformará a tua vida?

Terás que renunciar à vida privada: enquanto a maioria dos cidadãos pode, terminado o trabalho, distanciar-se dos importunos, a tua porta estará sempre aberta a todos. A qualquer hora do dia e da noite virão perturbar o teu descanso, o teu lazer, a tua meditação; já não terás hora para dedicar à família, aos amigos, ao estudo... Já não te pertencerás.

Os pobres, acostumados a sofrer, chamar-te-ão só em caso de urgência. Mas os ricos tratar-te-ão como escravo encarregado de remediar os seus excessos; seja porque têm uma simples indigestão, seja porque estão resfriados; farão com que te despertes e venhas a toda a pressa, logo que sintam alguma moléstia. Terás que te mostrar interessado pelos detalhes mais comuns da sua existência; terás que lhes dizer se devem comer carne de boi ou peito de galinha, se lhes convém andar deste ou daquele modo. Não poderás ir ao teatro nem ficar doente: terás que estar sempre pronto a acudir, quando chamado.

Eras rígido na escolha de teus amigos. Procuravas o convívio de homens de talento, de almas delicadas e de bons conversadores. Agora não poderás descartar os chatos, os pouco inteligentes, os presunçosos, os desprezíveis. O mal feitor terá tanto direito à tua assistência como o homem honrado: prolongarás vidas nefastas e o sigilo da tua profissão proibir-te-á impedir ou denunciar acções indignas das quais serás testemunha. Acreditas firmemente que com o trabalho honrado e o estudo atento poderás conquistar uma reputação: tem presente que te julgarão, não pela tua ciência, mas pela casualidade do destino, pelo corte da tua roupa, pela aparência da tua casa, pelo número dos teus criados pela atenção que dedicas às conversas informais e aos gostos dos teus clientes. Haverá os que desconfiarão de ti se não usas barba, outros se não procedes da Ásia; outros se acreditas nos deuses; outros se és ateu.

Gostas da simplicidade: terás que adoptar a atitude de um profeta. És activo, sabes quanto vale o tempo. Não poderás demonstrar cansaço ou impaciência: terás que escutar relatos que procedem do começo dos tempos, quando apenas se quer explicar a história de uma prisão de ventre. Os ociosos virão ver-te pelo simples prazer de conversar: servirás de escoamento para as suas mínimas vaidades. Embora a medicina seja uma ciência incerta, que graças aos esforços de seus discípulos vai adquirindo pouco a pouco, um certo grau de certeza, não te será permitido duvidar , sob pena de perderes a confiança que em ti depositam. Se não afirmas que conheces a natureza da enfermidade, que possuis o remédio para curá-la, o povo te trocará pelos charlatães que vendem a mentira que eles necessitam.

Não contes com o agradecimento de teus enfermos. Quando se curam, terá sido por sua própria robustez; se morrem fostes tu o culpado. Enquanto estão em perigo, tratam-te como a um deus: suplicam-te, exaltam-te, enchem-te de elogios. Apenas começam a convalescer, já os estorvas. Quando se lhes fala dos honorários, aborrecem-se e denigrem-te. Quanto mais egoístas são os homens mais solicitude exigem.

Não penses que esta profissão tão dura te tornará um homem rico. Asseguro-te: é um sacerdócio, e não seria decente que tivesses os ganhos de um comerciante de azeite ou de um político.

Compadeço-me de ti se te atrai o belo: verás o mais feio e repugnante que existe na espécie humana. Todos os teus sentidos serão maltratados. Terás que encostar o ouvido em peitos suados e sujos, respirar o odor das pobres favelas, os fortes perfumes das prostitutas; terás que palpar tumores, tratar de chagas verdes de pus, examinar urina, remexer em escarros, fixar o olhar e o olfacto em imundícies, colocar o dedo em muitos lugares.

Quantas vezes, num belo dia ensolarado, ao sair de uma representação de Sófocles, te chamarão para atender alguém acometido de cólicas abdominais, que te apresentará um urinol nauseabundo, dizendo satisfeito: “ainda bem que tive a precaução de não jogar fora”. Recordas então que terás que agradecer e mostrar todo o teu interesse por aquela dejecção.

Até a própria beleza das mulheres, consolo dos homens, se desvanecerá para ti. As verás pelas manhãs, desgrenhadas, desprovidas de maquilhagem, com parte dos seus atractivos espalhados pelos móveis do quarto. Deixarão de ser deusas para se converterem em seres afligidos pela miséria, sem graça. Só sentirás por elas compaixão.

O mundo parecer-te-á um grande hospital, uma assembleia de seres que se queixam. A tua vida transcorrerá à sombra da morte, entre a dor dos corpos e das almas, assistindo algumas vezes ao luto de quem está destroçado por haver perdido o pai, e outras vezes, a hipocrisia daquele que, à cabeceira do agonizante, faz cálculos sobre a sua herança.

Pensa bem enquanto há tempo. Mas se, indiferente à fortuna, aos prazeres, à ingratidão e, sabendo que te verás, muitas vezes, só entre feras humanas, ainda tens a alma estóica o bastante para encontrar satisfação no dever cumprido; se te julgas suficientemente recompensado com a felicidade de uma mãe que acaba de dar a luz, com um rosto que sorri porque a dor passou, com a paz de um moribundo que acompanhaste até ao final; se anseias conhecer o Homem e penetrar na trágica grandeza de seu destino, então, torna-te médico, meu filho."

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Dramatismo

Entrei no nosso café e dirigi-me à mesa habitual. Estava vazia.

Esvaziaram os cinzeiros que deixámos lá ontem à noite, limparam minuciosamente a mesa que sujámos, lavaram o chão onde abandonámos as nossas malas, casacos e afins. Parecia que nem tínhamos passado ali a noite, a partilhar histórias, confissões, confusões e piadas cruéis, que sempre disparávamos na direcção uns dos outros, sem sequer nos importarmos se faziam mossa.

Sentei-me e pedi o meu café e o habitual copo com água, enquanto sorria e falava com a rapariga que estava lá sempre, como nós.

Estava um sol muito brilhante, um dia quente de Verão, como tantos outros. Olhei pela janela, esperando algo que não viria. Olhei o visor invulgarmente desocupado do telemóvel e sorri. Sim, estupidamente sorri, como que num ímpeto de intelectualidade, em que me ouvia a sussurrar-me “tens razão”.

Tinha razão, e de que serviria? Vocês também tinham razão, de que vos serviria?

O sol incomodava-me agora, tal como o calor. Paguei o meu café e saí. Hoje já não vos achei lá, talvez amanhã também não vá encontrar porque, afinal, aquele já não era o meu café nem a minha mesa, aquela já não era eu, nem os tipos da mesa ao lado eram vocês.

Vou ter saudades vossas…

(E não sei bem como vos dizer que já tenho.)

quinta-feira, 16 de agosto de 2007




Procuro-te por entre um suspiro e uma música que já tocou demasiadas vezes na rádio, mas que toda a gente esqueceu…

Eu ainda me recordo dela e de ti, mesmo sabendo que a adrenalina do início, o desejo de um começo, a sensação de ouvirmos pela primeira vez a música perfeita já se esvaiu por entre lufadas de ar fresco que nos assolam.

Continuo a amar-te como no primeiro dia que te vi; a maneira como os teus olhos sorriem para mim quando falas de qualquer coisa que te deslumbra, o teu tique nervoso, para manter os óculos no nariz, o teu sorriso delicioso, continuo a amá-los também, sem que tu saibas, sem que tu pressintas, sem que eu deixe que isso influencie a maneira como te vejo, a maneira como comunico contigo…

Contigo aprendi que há coisas tão perfeitas que se quisermos apelidá-las, materializá-las, as acabamos por estragar, por denegrir…Tu és isso! Disse que te amava, mas talvez SÓ sinta algo que tu nem pressintas mas que dentro de mim é tão arrebatador, tão forte, quase lendário, que eu pretendo que se torne imperceptível aos olhos de todos.

Todavia, que maneira tenho eu de esconder algo tão fundo, só pelo medo de ser relativizado? Não sei…Sei que, por mim, tenho de fazê-lo, por agora, para que um dia te possa mostrar tudo, sem que mo peças, sem que me retribuas, sem que te sintas obrigado a aceitar a minha caixinha, com um laço fino azul, onde se encontrará a pureza do que havia sentido, sentia, sinto e sentirei.

Vejo a tua silhueta por entre um nevoeiro convidativo de uma manhã fresca de Primavera. Trazes uma caixa com um laço, não lhe sei distinguir a cor…Vens a assobiar e trazes um sorriso nos lábios carnudos, que deixam ver os perfeitos dentes brancos, que não vislumbro mas não me privo de imaginar…

Ainda não foi a vez da minha caixa…Alguém se terá adiantado e disputado esse lugar…

Talvez a minha caixa seja maior, ainda não acabei de construí-la.


sexta-feira, 13 de julho de 2007


Não me entendo…Também não sei se quero!..

As lágrimas percorrem-me as faces, num acto compulsivo e desesperado, enquanto lá fora soam gargalhadas sonoras, cobertas de nuvens cor-de-rosa, doces, felizes e delicadas.

Não me entendo…

A felicidade exterior dever-me-ia contagiar…

Por que festejam eles? Disseram-me que era por mim e eu sinto somente um medo do tamanho de um Adamastor, com longas barbas e com relâmpagos e trovões assustadores, numa tempestade atordoante, como paisagem fantasmagórica e paradoxal.

Não me entendo…

Quero ser contagiada e aparentemente sou…

Transformo-me num pássaro feliz que chilreia durante o dia, por entre céus azuis e limpos, flores variadas e tão belas, borboletas esvoaçantes e coloridas…

Durante a noite, lá vem o Adamastor que me faculta dilúvios domésticos, com a almofada como ponto de desaguamento, enquanto a máscara cai, sem que ninguém saiba.

Não me entendo, não quero, nem deixo que alguém o faça…

Seco as lágrimas…a hora negra e lunar já passou.

As cortinas brancas bailam ao sabor do vento, livres e leves, apesar de há muito pedirem uma mudança, sem que façam muita questão disso…

Ah! Como eu as compreendo…sem fazer muita questão disso!

Acho que a mudança está prestes a chegar e a última lágrima seca.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Uma Luz


A luz acorda de repente o corpo que jazia no chão, cansado, entorpecido, esquecido…

Esquecera o que era sentir a luz do dia.

Esquecera o que era respirar ar puro.

Esquecera a comunhão com a Natureza.

Esquecera a essência e o mais simples.

Não se questionava agora, mas tentava lembrar-se do antes.

Soergueu-se cautelosamente, visto nada recordar do antes, quando as quatro paredes que limitavam aquele espaço escuro não estavam amarelecidas e a luz entrava livremente, e não por frestas minúsculas.

O corpo reconhecia agora o chão que pisava e o caminho para a janela. Precisava de ver toda aquela luz, de respirar todo o ar puro, de sentir o exterior a entrar por aquela janela, durante tanto tempo cerrada, enclausurando-a.

Um casal de pássaros chilreava no cimo da antena do vizinho da frente; parecia feliz, tal como as pessoas que passavam na rua, sem a pressa de fugir do sol radiante, que chicoteava o seu corpo, os seus braços, a sua face.

A sensação que a inundava agora não lhe era estranha, reconhecia-a algures numa existência que tivera. Não sabia o que fazer-lhe, não sabia se havia de amarrotá-la e deitá-la para bem longe, ou se havia de encará-la, ou se havia de alimentá-la…Simplesmente não sabia.

Acendeu um cigarro, reconhecendo-o como amigo de longa data, sem sequer saber que ele existia, no fundo da sua mala coberta de pó, pela falta de uso. Bafejou-o, procurando conselhos e caminhos, que deveria palmilhar. Não obteve respostas.

Fechou a janela, vestiu a roupa que se encontrava incrivelmente engomada e arrumada numa das suas gavetas que costumavam estar desordenadas, agarrou nas chaves e saiu, em busca do que lhe provocava a estranheza de sensações mas que, em simultâneo, lhe era familiar.

Simplesmente não sabia e esquecera, mas achava que nunca era tarde para voltar a descobrir…

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Horas

As horas passam impunes por entre as rugas da testa que se franze perante livros empilhados, uns sobre os outros. A noção de tempo surge nublada e difusa, sem que seja denotada a sua presença.
Sentada à sua secretária lascada pelo tempo, ela não sabe que as horas a espreitam por entre as vidraças, sussurrando, minuto a minuto, doces palavras que, contudo, não a fazem sequer erguer o olhar e pousá-lo no sol que se põe mais uma vez, no horizonte mesclado de cor-de-rosa.
Quantos sóis terão passado desde a última vez que as suas mãos se enlaçaram e os seus olhos se regozijaram com um tímido sol de Outono, despedindo-se no horizonte? Ela não sabe, nem pensa nisso… Talvez creia que isso foi ontem, que foi só ontem que a perfeição a abandonou, com a desculpa de uma viagem qualquer, para um lugar distante, onde os sóis se põem de hora em hora, e onde as horas se tocam descoordenadamente, sem a preocupação de fazerem sentido.
Já não faz sentido querer descodificar pensamentos do momento, que surgem num segundo e, no outro, se desvanecem porque alguém pergunta “Tem horas?”. Ninguém sabia que ela não costumava trazer as horas na algibeira, pois guardava-as preciosamente na caixinha do tempo, cuidadosamente bordada por uma mão delicada e sem pressa.
Agora, as horas tinham fugido da caixinha e espreitavam-na do lado de fora, da janela do tempo, a quem ela já não permitia entrada e recusava visitas sem motivos plausíveis.
Agora, já nada importava e o visor circular com dois ponteiros não tinha nexo.
Agora, ela só queria pousar o lápis amarelecido pelo seu companheiro de outrora, fechar os olhos e embrenhar-se num sonho nítido e limpo, em que a perfeição não seria ultrapassada por um tic-tac imaginário, que ousasse interromper o sono.
Antes de se recostar na cadeira e depois de pousar o lápis, olhou a vidraça; lá fora ainda estava escuro, solitário e silencioso.
Ainda não nascera um outro sol…

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Um sol muito brilhante despertou no horizonte, tímido e sorrateiro, acautelando-se, para que ninguém se assuste com a sua aparição.

Ah, mas eu observava-o… Seguia-lhe o rasto, enquanto as casas, as ruas, as estradas, os edifícios, ainda se encontravam
adormecidos, repousando as suas mentes em grandes travesseiros cor-de-rosa.

Todavia, eu há muito que não repousava em travesseiros de qualquer espécie…A mudança chicoteava-me o corpo, arregalava-me as pálpebras, fazia-me divagar por entre estrelas distantes, sóis desconhecidos e planetas camuflados; a mudança…A necessidade impulsiva e tresloucada da mudança, o desejo inexperiente e tosco de mudar, a ânsia de cerrar os dentes e agarrar uma nova forma de algo...

Uma forma de algo proibido e desconhecido, era isso a mudança. Uma forma subtil de abandonar o que jaz obsoleto, num chão de madeira lascada pelo tempo, é isso a mudança. Uma forma heróica de admitir que o antigo não satisfaz, o presente não sacia e só o futuro acalma, será isso a minha mudança.

Não sei porque quero mudar, nem sei se é por mim, se é para mim…

Porém, necessito somente de mudar, de alinhar os cabelos desgrenhados pelo vento dos dias secos e poluídos, de consertar os objectos esquecidos na cave escura das memórias, de sussurrar palavras ternas no ouvido que só tem escutado injúrias, de gritar orgulhosamente o que sempre prendi dentro das quatro paredes do músculo cardíaco…Necessito somente de inovar, de me libertar, de querer com a força das marés, com a persistência de uma criança teimosa e com a saudável ambição que sempre me guiou.

Os cabelos desgrenhados alinham-se agora, numa simetria perfeita e quase desconhecida, por detrás das duas orelhas escondidas e atentas, tocando casualmente as faces estreitas e os olhos vulgares.

O início da mudança custou e demorou, no entanto, surgiu, cheio de vontades aferrolhadas num frasco de vidro, qual Blimunda reemergindo, durante uma madrugada primaveril, despontadora de paixões impossíveis e imprevisíveis e vontades inexplicáveis e ousadas.

Ainda há tanto para mudar…

terça-feira, 10 de abril de 2007

Acordo a meio da noite, regelada do banho de perguntas que me assolam, sempre que procuro o calor do leito.
Miserável sensação de impotência, indubitável ardor de incertezas, doloroso frio de sentimentos ardentes e ofuscantes, teimosia dolente que apazigua os impulsos…É tudo isso, e tanto mais que nada, sempre desautorizado no começo e consentido depois.
Já soube, mas já não sei o que procurar, nem tão pouco o que poderia alcançar. Tudo é um “não sei” resplandecente, pintado com letras garridas, que me ilumina e atordoa, com os primeiros raios de Sol da manhã, e me adormece com o chicotear de um luar tímido e sereno.
No meio de tudo, ou de nada (nem sei!), os números conversam animadamente com as letras; as letras trocam-se perversamente com as notas das partituras de músicas de uma vida, não da minha, nem da de ninguém, simplesmente de uma vida sozinha, melancólica, confusa e misteriosa.
Porque tudo parte do grandioso mistério do ser, em que não se sabe nada, mas tudo se sabe; tudo o que provocas e parte de ti continua difuso, tudo o que sinto e de mim parte permanece obscuro e secreto…
Ah…aquela brisa outra vez que clareia e esclarece tanto! Passou e de resto tudo ficou, menos para ti, que ouviste, sentiste, inspiraste e te perfumaste com o segredo eminente que ninguém ouvira antes; menos para mim, que falei de coisas sentidas, expirei e te banhei com a brisa nocturna de mais uma noite sem dormir, em que o medo corrompe as artérias e o ser, que, no entanto, nada é…

Obrigada por me dispensares breves momentos, em que me descubro e fico descoberta.

segunda-feira, 19 de março de 2007

As nossas memórias incitam-nos a entrar em locais dos quais podemos ter fugido durante tempos infindáveis.

As nossas memórias têm uma fronteira entre o medo e o sucesso, a força e o insucesso, a alegria e a incerteza…Por vezes, um passo ilusório, um dia agressivo, uma desilusão absolutamente pérfida fazem-nos submergir, corrompendo essa fronteira tão ténue, tão incolor, tão oculta.

Não sei como posso salvar-me dessa fronteira, nem sei a que portos atracar, depois de percorrer tantos porões, tantas caves, tantos espaços inóspitos…

Já não vejo a tua mão, nem o sorriso; simplesmente já não te vejo por entre as janelas indiscretas em que não me identificavas. Já não vejo ninguém, nem vocês, nem eles; só vejo um mar tumultuoso que vai arrasando a costa, enquanto os braços se revelam inférteis na tentativa de salvamento do tanto que se havia construído.

A sucessão de dias vai arrasando tudo o que se construiu e eu, mera observadora, imagino-me também a mim a ser arrasada, essa personagem construtora a ser demolida pela força das ondas que rugiam; nem os vestígios do passado ficavam; nem os vestígios do que tinha feito; nem a força que o proporcionou…
Ficava o nada, o vazio…

E assim fico, com o queixo repousando no antebraço, com a chuva a furar as vidraças que me fizeram aceder às memórias…

Estou num dos lados da fronteira, perdida e só. Recuo e avanço, numa indecisão afogueada pela incerteza de como será o amanhã…

O meu suspiro é parado por um sorriso teu…É a tua maneira de me salvar, sem o saberes.

quarta-feira, 7 de março de 2007

A brisa acaricia-me suavemente o corpo nu, relembrando o teu odor desconhecido. Ainda sinto o fôlego da tua respiração, a percorrer-me o pescoço; as tuas palavras sussurradas ao meu ouvido; a tua mão sobre a minha, incentivando-me a lutar pelo meu futuro…

Partes e já não sei onde ficarás, se ficarás...De ti só sei o nada, que de tanto, consegues ser.

O futuro…espero-te nele!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Nada

O teu olhar irradia pureza e docilidade; a tua voz ciciante alucina-me, enquanto mergulho por dentro das tuas palavras; os teus olhos serenos e convictos, emotivos e honestos elucidam-me de quão fácil pode ser lutar e não desistir, enfrentar os medos, procurar-me, desta vez, sem ter medo de ver o que não quero.

Não sei onde te fui encontrar, nem sei bem porquê, todavia lá estavas tu, numa das encruzilhadas que se nos apresentam sem pedir permissão, entre gravilhas soltas que pontapeei e alcatrão acabado de calcar. Afinal, até nas nossas batalhas emocionais surgem pontes entre caminhos alcantilados e estradas novas, sem sulcos provocados por um passado duvidoso…E talvez seja isso, um espelho que me fala, uma voz que me guia, um lápis que me contorna e desenha a próxima saída, um simples sorriso gentil que me fascina…Talvez seja só esse tão grande vestígio que provocarás, sem depravação decidida sem querer por sentimentos, tantas vezes chamados puros.

Nada é puro, nem a pureza que irradias tão galantemente, nem o traço do lápis que vai subtilmente deixando um rasto ao longo duma folha encrespada e branca, nem o espelho liso que reflecte um cenário transcendente, inatingível. Só o nada consegue ser puro, por exactamente ser nada…

É isso que afinal somos, para além de nada…Somos puros. Nada temos ainda a corromper e a perverter a pureza que assumimos num estado primordial, esse estado primordial tão fascinante e intenso, tão inútil e escondido, tão fraco, frágil e subtil.

No entanto, nada sabemos sobre um estado primordial que não encontramos, nada sabemos sobre o nada que somos, nada sabemos de sentimentos que corrompem a pureza, nada sabemos de nós…Nada sabemos sobre o nosso nada, visto que sobre ti nada sei, sobre mim nada sabes, e sobre mim já nada quero saber.

Era aí que entravas, (ou foi aí que te coloquei?), na parte em que eu quereria saber algo sobre mim e tu ajudar-me-ias a descobrir sem ter medo. Só a ti te confessei o meu medo, quando cria que não existias a não ser nos meus ouvidos atentos, no meu olhar flamejante e em toda a minha anatomia distorcida e confusa que sempre reneguei conhecer interiormente.

Quantos terão sido já os que pisaram o meu dédalo, me ofertaram um breve sorriso, beberam o meu exterior, sem nunca sequer se acercarem do interior? Quantos terão sido os que foram tudo e tanto, pouco e muito, mas que jamais ousaram ser meramente nada, como tu, e fazerem tanto por nada serem?

Espero a brisa que me leve, enquanto vasculho um interior que desconhecia.

Espero o fado que me dite as quimeras que desde sempre me alimentam e que tu apoias, com essa gargalhada sonora, essa leveza inata e essa mão calma pousada sobre a minha.

Espero que de nada, passes a tudo, ou algo passe a tudo…Não tens de ser tu, nem tenho de ser eu…Não temos de ser nós! Não sei o que tem de ser, o que há para ser…

Gosto do nada que somos.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Hoje, o texto não é meu...
Hoje, dei direito a alguém que sente o que escreve...
Hoje, tenho o prazer de ceder o lugar de postagem à "minha Maluca"...
Hoje, a recôndita parte é dela...
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Este é o momento a partir do qual começo a magoar-te
Devagar, num suspiro a mais,
Num passo de magia que já não fazemos
Com medo de sair mal.
Este é o momento a partir do qual já só vês destruição
No que tenho para te dar.
Já não tenho mais os braços cheios de rosas
Nem vontade de tê-las para ti.
Há só o que fomos e o não saber o
Que fazer com isso.
Há as mãos atrapalhadas que num hábito repetido
Procuram as tuas, ainda que não haja
Nada mais para te dar. Nem sequer as mãos.
Este é o momento em que as linhas que nos sustentam
Começam a ceder a uma palavra fora do sítio.
Perdemos a capacidade de nos inventar,
E confundimos a filosofia com os sentimentos
Nas discussões acesas e repetidas.
O que tu és, tudo o que tu és, e eu não sou. Nem quero.
Tudo o que no principio não importava
Na rajada de vento forte que era ter alguém
A quem dar a mão.


Mariana Dias Pereira

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Acordei embrulhada em lençóis esfarrapados, antigos, sujos…No chão, roupa espalhada, calçado variado, sonhos rasgados por entre desejos vãos, num misto de tristeza e angústia ritmadas por uma música rouca de sucessivas repetições.

Ergui-me ressacada de uma tal tristeza que começava não sei onde, percorria-me todo o corpo e não acabava nem sei porquê.

Lá estavas tu, plantada numa sala escura e vazia, escondida de um mundo em que sempre havias serpenteado com tanta mestria, dignidade e vontade; contudo, agora, que eras tu naquela sala obsoleta? A vontade tinha sido deixada algures entre os destroços dos sonhos rasgados que varriam o chão, a mestria e a dignidade sempre as mantinhas mas, de tanta repetição, roucas como aquela música que me acordara, despegavam-se de ti e tu não te sentias tentada a segurá-las…Dizias que já não faziam sentido, que já não fazias sentido, que já nada fazia sentido.

Quantas vezes te aconchego os lençóis perfumados e macios ao rosto que, suavemente, te beijo, para que saibas que cheguei? Quantas vezes te demonstrei o meu carinho só por me sorrires?

Todavia, já nada disso conta; já nada disso te dá força para que voltes a agarrar a vontade; as tuas lágrimas dilaceram-me o coração por me ver ineficaz num beco com inúmeras saídas, mas que para ti só apresenta uma, hedionda e ridícula.

As pessoas conseguem ser ridículas.

Os sentimentos que te inflamam também conseguem ser ridículos.

A dor que todos os dias emano pelos sentimentos que te inflamam, devido a pessoas e causas ridículas é dilacerante, mas não menos ridícula.

Fecho os olhos e anseio um dia melhor. Nada mais posso fazer a não ser desejar que o tempo passe, que eu passe, que todos passemos…

Tenho aprendido a revoltar-me contra as minhas guerras interiores, autênticas batalhas heróicas, mas nunca me ensinaste como haveria de lutar contra as tuas…Choro, mas não é por mim; choro, por ti, por todos nós, que guerreamos e circuitamos caminhos tão íngremes e, em plenos planaltos, largamos a vontade e queremos desistir.

Nunca podes desistir…Tu não!