quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Dramatismo

Entrei no nosso café e dirigi-me à mesa habitual. Estava vazia.

Esvaziaram os cinzeiros que deixámos lá ontem à noite, limparam minuciosamente a mesa que sujámos, lavaram o chão onde abandonámos as nossas malas, casacos e afins. Parecia que nem tínhamos passado ali a noite, a partilhar histórias, confissões, confusões e piadas cruéis, que sempre disparávamos na direcção uns dos outros, sem sequer nos importarmos se faziam mossa.

Sentei-me e pedi o meu café e o habitual copo com água, enquanto sorria e falava com a rapariga que estava lá sempre, como nós.

Estava um sol muito brilhante, um dia quente de Verão, como tantos outros. Olhei pela janela, esperando algo que não viria. Olhei o visor invulgarmente desocupado do telemóvel e sorri. Sim, estupidamente sorri, como que num ímpeto de intelectualidade, em que me ouvia a sussurrar-me “tens razão”.

Tinha razão, e de que serviria? Vocês também tinham razão, de que vos serviria?

O sol incomodava-me agora, tal como o calor. Paguei o meu café e saí. Hoje já não vos achei lá, talvez amanhã também não vá encontrar porque, afinal, aquele já não era o meu café nem a minha mesa, aquela já não era eu, nem os tipos da mesa ao lado eram vocês.

Vou ter saudades vossas…

(E não sei bem como vos dizer que já tenho.)