segunda-feira, 24 de março de 2008

Levas a cabeça encostada à janela e a face virada no sentido oposto ao do caminho, lá fora. Porquê? Nunca foste de esconderes frustrações debaixo dum qualquer sorriso colado à pressa, todos os dias, quando amanheces; nunca foste de camuflar lágrimas com umas lentes escuras, com que ainda não te vira, desde o dia em que nascemos.

Não sei como te fazer amarrotar essas frustrações; não sei como te depositar um beijo leve nas têmporas, um beijo que sintas, mas que não te entristeça pela tua fragilidade.

As minhas palavras grosseiras e rectas também já não são as ideais; o meu gesto sério e as minhas tentativas de relativizar os teus males já não têm resultados, nem mesmo te magoam, fazem pensar ou espevitam.

Transformaste-te numa pedra de cimento, virada para dentro, em que o bem e o mal não te tocam, em que perdes todo o teu tempo a ter pena de ti, a falares sozinha sobre os teus demónios interiores e frustrações que não se exteriorizam mas que te atulham.

Hoje decidi observar-te, enquanto inclinas a cabeça para trás e cerras lenta e delicadamente as pálpebras.

Envelheceste.
Emagreceste.
Enegreceste a pele.
Enrugaste a testa, cujos refegos de expressão, agora, te fazem parecer cansada.
Aprofundaste as olheiras que dantes, raramente, tinhas.

Voltaste a abrir os olhos e continuaste sem reparar que te observava.

Tens os olhos mais fundos e cansados.

A mão direita, cujos dedos estão amarelecidos pelo fumo do cigarro que te era, antigamente, esporádico, treme-te sobre o peito, enquanto inspiras silenciosamente.

Fazes todos os esforços para que não te vejam e afastas o contacto dos que te vêem e sentem. No fundo, são os poucos que te vêem que ainda te mantêm alguma chama, apesar dos que só te querem continuar a inferiorizar, como sempre.

Direccionas, finalmente, o teu olhar para mim e tentas sorrir-me com ele; passo-te a mão levemente pela face dorsal da tua, até te agarrar o pulso magro, e sorrir-te.

Os nossos olhos envolveram-se, abraçaram-se, confessaram-se e nos permanecemos em silêncio, porque tu já não sabes verbalizar os teus demónios e eu já não sei a língua que eles falam, pela multiplicidade de personalidades que eles vão tomando.

Disseste no teu tom mais casual:
_ Olha, está a cair finalmente a noite.

Era só nela que te sentias bem e, com ela, enlaçar-te-ias uma vez mais nuns braços desconhecidos, ou conhecidos, que já não te importavam na solidão e vazio interiores.

Não te respondi; sempre soubeste que te deixava um espaço aberto para que, se quisesses, nem que fosse por cinco minutos, mostrar-me a densidade para lá dos teus olhos e do teu sorriso.

_ És o meu anjo… e olha que eu não acredito muito que existas.

Sorri-te. Afinal de contas, nenhuma de nós sabia nada da outra e sabia, em simultâneo, tudo, como se fôssemos o reflexo uma da outra, a versão má e a versão boa da mesma pessoa, a cara e a coroa duma moeda, o início e o fim da história, o final feliz para os bons e o final fatídico para os maus…

Éramos uma só e eu não quero deixar-te ganhar-me.