sexta-feira, 18 de maio de 2007

Horas

As horas passam impunes por entre as rugas da testa que se franze perante livros empilhados, uns sobre os outros. A noção de tempo surge nublada e difusa, sem que seja denotada a sua presença.
Sentada à sua secretária lascada pelo tempo, ela não sabe que as horas a espreitam por entre as vidraças, sussurrando, minuto a minuto, doces palavras que, contudo, não a fazem sequer erguer o olhar e pousá-lo no sol que se põe mais uma vez, no horizonte mesclado de cor-de-rosa.
Quantos sóis terão passado desde a última vez que as suas mãos se enlaçaram e os seus olhos se regozijaram com um tímido sol de Outono, despedindo-se no horizonte? Ela não sabe, nem pensa nisso… Talvez creia que isso foi ontem, que foi só ontem que a perfeição a abandonou, com a desculpa de uma viagem qualquer, para um lugar distante, onde os sóis se põem de hora em hora, e onde as horas se tocam descoordenadamente, sem a preocupação de fazerem sentido.
Já não faz sentido querer descodificar pensamentos do momento, que surgem num segundo e, no outro, se desvanecem porque alguém pergunta “Tem horas?”. Ninguém sabia que ela não costumava trazer as horas na algibeira, pois guardava-as preciosamente na caixinha do tempo, cuidadosamente bordada por uma mão delicada e sem pressa.
Agora, as horas tinham fugido da caixinha e espreitavam-na do lado de fora, da janela do tempo, a quem ela já não permitia entrada e recusava visitas sem motivos plausíveis.
Agora, já nada importava e o visor circular com dois ponteiros não tinha nexo.
Agora, ela só queria pousar o lápis amarelecido pelo seu companheiro de outrora, fechar os olhos e embrenhar-se num sonho nítido e limpo, em que a perfeição não seria ultrapassada por um tic-tac imaginário, que ousasse interromper o sono.
Antes de se recostar na cadeira e depois de pousar o lápis, olhou a vidraça; lá fora ainda estava escuro, solitário e silencioso.
Ainda não nascera um outro sol…

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Um sol muito brilhante despertou no horizonte, tímido e sorrateiro, acautelando-se, para que ninguém se assuste com a sua aparição.

Ah, mas eu observava-o… Seguia-lhe o rasto, enquanto as casas, as ruas, as estradas, os edifícios, ainda se encontravam
adormecidos, repousando as suas mentes em grandes travesseiros cor-de-rosa.

Todavia, eu há muito que não repousava em travesseiros de qualquer espécie…A mudança chicoteava-me o corpo, arregalava-me as pálpebras, fazia-me divagar por entre estrelas distantes, sóis desconhecidos e planetas camuflados; a mudança…A necessidade impulsiva e tresloucada da mudança, o desejo inexperiente e tosco de mudar, a ânsia de cerrar os dentes e agarrar uma nova forma de algo...

Uma forma de algo proibido e desconhecido, era isso a mudança. Uma forma subtil de abandonar o que jaz obsoleto, num chão de madeira lascada pelo tempo, é isso a mudança. Uma forma heróica de admitir que o antigo não satisfaz, o presente não sacia e só o futuro acalma, será isso a minha mudança.

Não sei porque quero mudar, nem sei se é por mim, se é para mim…

Porém, necessito somente de mudar, de alinhar os cabelos desgrenhados pelo vento dos dias secos e poluídos, de consertar os objectos esquecidos na cave escura das memórias, de sussurrar palavras ternas no ouvido que só tem escutado injúrias, de gritar orgulhosamente o que sempre prendi dentro das quatro paredes do músculo cardíaco…Necessito somente de inovar, de me libertar, de querer com a força das marés, com a persistência de uma criança teimosa e com a saudável ambição que sempre me guiou.

Os cabelos desgrenhados alinham-se agora, numa simetria perfeita e quase desconhecida, por detrás das duas orelhas escondidas e atentas, tocando casualmente as faces estreitas e os olhos vulgares.

O início da mudança custou e demorou, no entanto, surgiu, cheio de vontades aferrolhadas num frasco de vidro, qual Blimunda reemergindo, durante uma madrugada primaveril, despontadora de paixões impossíveis e imprevisíveis e vontades inexplicáveis e ousadas.

Ainda há tanto para mudar…