terça-feira, 11 de outubro de 2011

Anoiteceu e à varanda do costume, pouso o olhar nos prédios em frente. Uma vez mais, desejo que eles ali não estivessem, para que pudesse contemplar o céu estrelado, neste Verão já tão fora de horas.

Do meu interior brotam sentimentos desafogados, com mãos a tentarem apanhá-los e mentes a tentarem decifrá-los. Em vão, como sempre…

Não tenho de fazê-lo, não tenho de tentar arranjar uma explicação lógica e aceite universalmente para todas as atitudes que o corpo quis tomar nos últimos tempos. Ele dissociou-se da mente, sem me consultar. Olho-o e sinto que não controlo os seus ímpetos, as suas tentações, as suas taquicardias de emoções, embriagadas de desejos imperceptíveis.

Hoje quis entendê-lo. Não consigo.

Sinto que houve uma dissociação temporal entre o momento em que nos encontrámos e o momento em que devíamos tê-lo feito, para que a perfeição que nunca foi prometida, mas que foi levemente experimentada, fosse cumprida ad aeternum.

Era tão mais fácil se estivéssemos numa noite de Inverno frio, semelhante àquela em que surgiste, para que pudéssemos apartar-nos fisicamente, sem mais enlaces, como que num continuum de sonhos e despertares, dia após dia, com a sensação que preenche a alma, de algo expansivo, para todo o sempre.

São seis da manhã. Não consigo alinhar pensamentos lógicos acerca do que o corpo pediu.

No horizonte, o sol começa a despertar a medo. Conclusões? Essas continuam num sono profundo, desaparecidas, espelhando cada vez mais esta dissociação corpo-mente.

A mudança é boa. Eu sei. Eu sinto. Quero-a, mais que tudo, quero-a com o corpo e a mente. Mas…e as memórias? O hábito enraizado, com feixes tão grossos?

Tirem-me desta varanda, por favor. Construam novos arranha-céus aqui.

Os primeiros carros na cidade despertam. Esta floresta de betão cheia de poluição acorda sorrateiramente… Será que ela também não dormiu?

Continuo na mesma varanda. Novas flores surgem nos vasos pequeninos escarlates. Ainda não as tinha visto. Direcciono o olhar para o outro lado da rua, aquele lado da rua que sempre desconheci, e que só vislumbro pelas janelas sujas do tempo.

Passo calmo, concentrado, focado e confiante. Pose atraente. Porte atlético. Ar descontraído. Olha para cima e sorri-me. Queria apanhar aquele sorriso e prender-me naquele olhar azul que nunca tinha visto.

Quem és? O certo no meio dos errados? Mais um errado, no meio de certos que eu creio serem errados? Ou simplesmente mais um errado, na panóplia de tantos erros?

Vamos jogar às probabilidades?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Insónia Adormecida

As têmporas latejam.

Cerro os olhos.

Imagens correm sem parar, sem fazer sentido.

Concentro-me numa das partes do meu corpo cansado.

Quero parar de discorrer sobre o trivial do dia…

Sobre o parágrafo número duzentos e quarenta e sete que nunca reterei na memória…

Sobre aquele nome complicado em alemão ou em russo que eu nunca vou saber dizer…

Sobre aquela via manhosa que para mim é inatingível…

Respiro fundo, volto a cobrir-me com os lençóis, aconchego-os ao pescoço e enrolo-me em posição fetal, qual criança desprotegida e só.

E a mente não pára… Continua a deambular pelos recantos mais recônditos de dias que já passaram há muito tempo, de conversas que já foram há séculos, de momentos que parece que foram há milénios… Mas não terá sido tudo ontem? Outra memória surge sem me deixar localizar temporalmente.

De repente, surge o teu rosto. Será que adormeci? Será que estou já a sonhar? Uma gargalhada rouca e passos no andar de cima dizem-me que não… Também tu quiseste invadir os pensamentos efémeros desta noite… Como raio te fui buscar também a ti, agora, a estas horas?

A tentativa de me concentrar nos dedos dos pés esvanece-se, enfim… Tento agora os dedos das mãos.

Não, não, não… Sinto agora todo o meu corpo numa frequência cardíaca coordenada e rítmica, lenta, espaçada…

Sem pensamentos? Agora? E… aquele rosto? Eu conhecia aqueles olhos esverdeados… mas donde?

Concentro-me agora na pulsação carotídea…

Entre um turbilhão de dúvidas para o dia seguinte, a insegurança característica e pensamentos descoordenados, abro os olhos. Tenho menos duas horas para dormir… MERDA!

Levanto-me… dou um trago na água, sempre à cabeceira… O vizinho continua a rir-se. Odeio-o, também! Aposto que ele não tem pensamentos a percorrerem-lhe os vasos de todo o corpo!

Deito-me novamente, agora em decúbito dorsal.

Concentro-me na minha respiração.

Mais imagens…

Luto contra o tempo, o corpo está cada vez mais cansado mas as pálpebras agora decidiram não cerrar… Querem vislumbrar na escuridão, no meio do “tudo desfocado” e do “tudo escuro”.

Afinal, quem sou eu? De repente, ocorre-me… A ausência duma resposta imediata assusta-me. Respiro fundo… Começo a sentir o corpo a desligar da mente, mais pensamentos…cada vez mais longe… Num sítio não antes visitado naquela noite.

Um despertador irritante toca sem parar. Exige que me erga… Ai! Doem-me os membros… parece que passei as últimas horas a contraí-los.

A mente está suja e confusa… Tenho a sensação que passei a noite a sonhar acordada… ou a pensar adormecida.

Apetece-me voltar para a cama. Não posso. Mais um dia.

Olho para a roupa previamente escolhida no dia anterior. Tudo metodicamente preparado para representar quem sou e tentar mostrar que o meu raciocínio vale algo…que não vale.

Bom dia, eu!

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Passos à minha volta ecoam neste hall de entrada sujo, poeirento, movimentado e solitário, enquanto com o computador aberto e uma panóplia de livros tento dissolver os pensamentos fúteis e superficiais que me impedem a concentração.

Estou aqui e não tenho medo.

É algo vago que surgiu não sei donde nem como, de repente, sem que eu entendesse ou quisesse, envolveu-me pelos braços, pelo tronco, pelos membros… Penetrou no fundo de mim, mesmo naquele lado negro e lunar escondido e horripilante.

Afagou-me o cabelo, presenteou-me com olhares, tocou-me a pele cansada no final do dia, sorrio-me e recebeu-me com segredos indizíveis, que nem as paredes ouviriam.

Fui ao fundo de mim, procurar um motivo para rejeitar este estado aparentemente efémero. Deixei que entrasse em mim com desculpas esfarrapadas de pequenos momentos de regozijo e prazer meramente esporádicos que, com o tempo, se esvaneceriam, que, como o sol, se poriam ao final do dia.

Nunca esqueço a ausência de rótulos que sabe bem nos dias úteis sem consistência, quando o vazio e a solidão deixam um travo amargo pior que o dos dias-santos.

No começo, era uma estrada com um fim à vista e um bem camuflado e semi-emancipado. Tudo sabia bem e agora sabe mais…

A estrada foi-se bifurcando, vá lá saber-se porquê… O coração vai-se afundando em águas doces e salgadas, inconstantes e tentadoras, com ondas tenebrosas intercaladas com períodos de uma acalmia desesperante.

Ter medo de sentir? Não… Sentir, sentirmos… Sentirmo-nos…

Que interessa se é o fim de tudo ou o início do que for? Nunca houve promessas e expectativas trocadas, nunca houve tentativas de percepções inexplicáveis e quimeras ridículas…

Olha bem que mereces o melhor de mim…e tratar disso.

Entre palavras em fuga e gestos apressados, não me aflige saber que, no fim de tudo, ao som de mais uma música nova, se constroem novas estradas e novos caminhos que deixam sempre um final em aberto, ao mesmo tempo que os braços abertos fogem para os braços que os recebem.

Quero partilhar os dias cansativos e os entediantes.

Quero partilhar um sorriso.

Quero partilhar um olhar cúmplice.

Quero agarrar esse beijo perdido entre palavras fugazes.

Apenas quero sentir e viver, sem medos…

Porque no fim de tudo, já nada interessa…

E de que vale passar pelo dédalo de emoções, sentimentos, partilhas e experiências que a vida nos proporciona sem ter a ousadia de sentir?

Até ao próximo beijo de boa noite…

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Passos perdidos no corredor que liga o hall de entrada ao quarto. Vão a quatro e quatro, escondidos, tímidos, apressados, na ânsia que não sejam vistos. Sentem um arrepio a percorrer toda a região dorsal, a tocar na nuca, a soprar no pescoço…

O coração bate, bate para nada…

Podia ser tão perfeito, este momento parado e perdido no tempo, escondido nas paredes pintadas à pressa e já amarelecidas pelo tempo, se fosse tomado acefalamente, entre um trago de chá quente de maçã canela e um piscar de olhos enternecido pelo vislumbre de uns olhos doces.

Mas para ti, qualquer coisa seria melhor se fosse só teu, e tu, e a tua volta perdida, nos complexos pensamentos de sentimentos vividos pela metade, aprisionados pelo intelecto que não te deixa soltar. Afinal, tudo tem a ver com a razão.

O prazer estala com os movimentos das articulações ansiosas, expectantes, clamantes pelo desejo de um descompromisso enfaixado no segredo de um saber tão bem. Enlaçam-se braços e abraços, beijos que ficaram no caminho, no subir das escadas, no elevador a caminho de casa, num trocar de olhares envergonhado e culpado entre uma folha de papel branca e mais um parágrafo do livro do costume.

Ah! Esse ar superior que te mata… Esconde o tremelicar das pernas e o saber bem do segredo. Queria aprovar-te, agora sim, que me apetecia falar do que sinto, desta força, que vem daquilo que eu vejo, que és tu, numa pequena essência simples, que enche de aromas aquele cubículo fechado. Não sei quem és.

Afinal, tento ver, para além de olhar. Às vezes, esse castanho esverdeado brilhante dos teus olhos tenta soltar palavras que eu não compreendo. Que te falta dizer?

Ah! Não quero essa prisão, que nos tira a razão.

Ah! Não quero acordar e pensar que o dia despertou sem que eu visse mais um sorriso fechado e incompreensível.

No fim, tu e eu sabemos onde encontrar essas coisas que queremos destruir e não queremos conservar dentro de nós.

No fim, o despertador toca e, pelo caminho, fica o sol a entrar pela escuridão do quarto amarrotado e o aroma de uma noite anterior, com troca de sentimentos escondidos e amedrontados.

Sabes, não temos de mudar, nem querer quem nos quer mudar, pois quem nos quer bem, e nos quer conhecer, assim ficará, entregue à angústia do tempo a passar sem mais nada saber.

No rádio, toca uma música conhecida, enquanto caminho para o meu dia, vestida da roupa clássica do parecer bem, qual actriz de cinema… Fica a ecoar-me na mente até logo, quando a quatro e quatro entrarmos de novo:

“Hoje eu nem dormi a tentar entender entre o que eu sinto e o que eu te digo, o que é feito de nós e o que vai ser...”

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


X
Sobre mim cavalgas
cingindo-me os flancos
Colhes à passagem
a luz do instante
De dentes cerrados
ondulas avanças
retesas os braços
comprimes as ancas
Depois para a frente
inclinas-te olhando
o que entre dois ventres
ocorre entretanto
e o próprio galope
em que vais lançada
Que lua te empolga
Que sol te embriaga
Lua e sol tu és
enquanto cavalgas
amazona e égua
de espora cravada
no centro do corpo
Centauresa alada
com os seios soltos
como feitos de água

Queria bebê-los
quando mais te dobras
Os cabelos esses
sorvê-los agora
Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a língua
A de nos teus olhos
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu

David Mourão Ferreira
MÚSICA DE CAMA

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O som de uma fechadura a trancar ecoa num hall de entrada de uma casa desconhecida.

Os saltos altos de passos cansados arrastam-se pelo chão brilhante de mármore branco malhado de tons acinzentados.

Os sons de uma chave a ser pousada numa mesa e de uma pasta a ser atirada para o chão soam no silêncio de um apartamento escuro.

Janelas para o exterior, com prédios a rasgar o céu, luzes cintilantes e multicoloridas antevêem-se do lado de fora, naquela rua varrida pelo movimento urbano de um dia no quotidiano de muitos.

As luzes acendem-se e, demoradamente, visualiza-se, enfim, o espaço.

Languidamente ela olha em volta e sorri. Sinto que, algures, já a vi antes e que a identifico de há muito tempo atrás. Os seus gestos parecem-me tão próximos…

Dirige-se para os copos depositados numa prateleira reaproveitada numa estante preta em linhas modernas e enche metade de um deles com um vinho rosado em tons de uva preta madura; descalça os sapatos de bico e recosta-se no sofá branco, apoiando-se em almofadas pretas; deglute um gole do vinho e liga o televisor.

Estantes cobertas de livros imponentes com numerosas páginas forram a parede. Fotografias emolduradas estão espalhadas pelas paredes e estantes; são caras familiares, essas sim, reconheço-as!

Toca o telefone. Sorri e atende.

“Sim, está tudo bem, cheguei a casa agora, querida. E vocês, como estão?”

Uma voz fala do outro lado do telefone. Reconheço-a também.

“Oh…Deve estar enorme! Não sei quando volto, tenho tido imenso trabalho, mas vou tentar ver-vos este fim-de-semana, prometo.”

Aguarda resposta com um aperto no peito.

“Sim, tenho saudades vossas… Precisam que vos leve alguma coisa daqui?”

A voz tranquiliza-a.

“Óptimo! Ok…falamos depois então. Um beijinho grande. Manda beijinho ao pai!”

Desliga o telefone e um sorriso nostálgico toma-lhe os contornos da face com rugas de expressão e covinha na bochecha esquerda, cabelo desgrenhado e com vários tons de castanho, com gradações do claro ao escuro, e alguns brancos perdidos, olhos castanhos fundos, sobrancelhas carregadas e nariz pequeno, enquanto se aninha numa manta dobrada cuidadosamente.

Tira os brincos e as pulseiras. As mãos ficaram enrugadas com o tempo e estão despidas de anéis. Tem um ar feliz e de coração cheio. Gosto dela e não consigo explicar porquê.

O telefone toca novamente…

Não sei onde estás nem quem és. Mas sinto que te reconheço.

Será que…?