quarta-feira, 13 de setembro de 2006

"Mentiras para viver"

Sinto que cedeste.

Dentro da tua mente arquitectas planos que julgas indolores e inofensivos só para poderes voar em liberdade. Afinal, que sabes tu sobre o valor da dor? Que sabes tu sobre sentimentos reprimidos? Que sabes tu sobre palavras omitidas? Que sabes tu sobre pormenores tão significantes e que temes mudarem tudo? Que sabes tu sobre o que é a perfeição e a pureza?

Olho-te e não te reconheço. Também tu és uma quimera que se formou no meu pensamento a partir duma espessa nuvem pequena, repleta de pequenos nadas? Questiono-me se algum dia vou conhecer-te, se algum dia me vais deixar de surpreender dessa maneira mórbida e insensata que não está de acordo com esse teu casaco e camisa, que, teimosamente, combinas com umas quaisquer calças que te fazem parecer adulta, solene e séria, quase intocável.

Construíste uma imagem sem a mais ténue possibilidade de manchar o quadro a que chamavas vida; pintava-lo com uma tal imaginação e perícia que me fazias crer ser real. Afinal, quem desconfiaria que a tua vida era um mero produto da tua imaginação? Quem ousaria desconfiar de ti?

Nesse dia em que cedeste, entrei na tua sala requintadamente decorada e depressa pontapeei caixas atulhadas de promessas que nunca cumpriste, de mentiras que sempre te engrandeceram e que faziam qualquer um idolatrar-te e construir-se à tua imagem e semelhança. No meio deste cenário horrífico, que sempre julguei ser impossível logo no teu refúgio, senti que nunca te tinha conhecido; só conhecia o que todos podiam observar…Nunca havia tacteado a poeira e desarrumação que te dotava de humanidade e te debotava a perfeição.

Ergui o rosto e afastei todas as caixas, prateleiras, caixotes, gavetas, malas que haviam desmoronado. Não te encontrava, contudo só poderias estar ali. Era ali que te íamos recomeçar a construir, desta vez munida de defeitos, de fraquezas, de dor, de imperfeição. Tu própria sabias-te incapaz de seres uma vez mais a tal actriz de sucesso.

Encontrei-te, enfim, no canto mais recôndito do teu lar. Estavas enrolada numas roupas que pensei jamais poderem ser tuas; suspiraste quando me vislumbraste no meio da tua vida real, junto às prateleiras que ostentavam o nome “mentiras para viver”.

Só aí te olhei e percebi. És tu, és eu, és ele e ela, és um todo e um nada, és nós, és vós, és eles e elas, és tanto e tão pouco. Fizeste-me nesse dia reflectir…Mentir pode sempre ser cruel, mas, por vezes, pode arruinar quem mente e dar pena a quem se mentiu.

Peguei na tua mão glacial e murmurei-te:
”_ Anda, só lá fora podes recomeçar.”