sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Antes, há que referir que nem tudo tem de fazer sentido, nem tudo tem de ser sentido.
Dani, lagosta loira, obrigada pela banda sonora deste post!
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Lá estava você, uma vez mais… Passou-se quanto tempo? Dias? Meses? Anos, talvez?

Não a via, a sério que não. Já me habituara à sua ausência, à lacuna do seu sorriso desgrenhado e riso ruidoso, à falta desses olhos expressivos, bondosos, compreensivos, maternais, maliciosos e perversos. Já disse que me faz falta?

Seguia eu, nos meus passos largos e solitários, quando ouvi esse todo, esse tanto, adormecido na minha memória, ignorado pelo meu apelo interior, ensurdecedor…Não tive saudades suas, contudo senti a sua falta.

Não a conheço de todo, mas que interessa isso? Nada! Só interessa reconhecer o que conheço; só interessa declará-la uma musa, um ídolo; só interessa continuar a escutar esses episódios caricatos que só a si acontecem.

A noite estava escura, silenciada com as imensas vozes que me faziam sentir cada vez mais só. Tive medo. Os candeeiros apagados faziam-me sentir falta do sonho que perdera. Precisava daquela palavra que você sempre diz, querida. Aquela, lembra-se?

Não consigo.

Mas vislumbrei-a. Contou-me mais um episódio, mais uma aventura. Fez-me rir, não só a mim, dado que nunca fui detentora da sua exclusividade (de qualquer modo, se fosse, perder-se-ia todo o encanto; como de resto se sucede com todos os outros pequenos “quês” com que vou jogando àquele jogo, a vida).

Senti-me a transbordar de tudo.

Bastou ter sido tocada pelas palavras mágicas de quem sabe quão duro é viver, mas não desistiu. É por isso que a glorifico.

Continuo a transbordar. Não consigo.

Gostava de ter a sua destreza intelectual, a sua facilidade de expressão, a sua capacidade de actriz feliz e realizada; gostava de perceber tudo com um simples pestanejar; gostava de ter a sua ironia, querida;

Gostei de voltar a vê-la. Sei que amanhã vai lá estar outra vez, a espalhar essas partículas indescritíveis e inconfundíveis que só eu posso valorizar.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Vangloriava-se com o seu corpo robusto, escuro, quase que misterioso, sendo útil para tantos que ali se acercavam, nas suas raízes salientes… Aqueles dois braços, que parecia só eu conseguir observar e que me fascinavam, poderiam não ter qualquer outra utilidade, mas para mim eram bem diferentes...

Muitos chamavam-lhe inúmeros substantivos, enquanto que eu prescindia de lhe dar um nome, de agrupá-la numa espécie do Reino Animalia que, presumivelmente, seria algo do meu interesse. Eu só desejava mirá-la, serpentear, com os meus olhos, todas as fendas e saliências que exibia. Necessitava dela para metaforizar algo que não me abandonava e que, de outra forma, não conseguia expressar.

Os seus braços vigorosos podiam um dia ter-me abraçado e protegido; podiam um dia ter prometido ficar comigo para sempre; naqueles braços austeros eu podia um dia ter-me aninhado e repousado, depois duma noite emocionante ou deprimente.

Naqueles braços eu via nervuras infindáveis que denunciavam a sua já avançada idade, a sua longa vivência, a experiência que eu não tinha e desejava ardentemente ter, para te poder compreender…Por que é que adoravas adormecer-me, acariciar-me e depois desaparecer?

O vento chicoteava-me agora a pele nua… Tinha sempre a atrevimento de vislumbrar este monumento, de uma qualquer pátria longínqua, o mais confortável possível; só assim me conseguia concentrar, sem ser tomada pela sua beleza. As suas folhas esvoaçavam agora pelo céu, acabadas de ser arrancadas desprevenidamente…

Estava agora tão privada de tanto…

Eu própria também era apanhada desprevenidamente num turbilhão de sentimentos nublados, confusos e insólitos quando, recorrente e viciadamente, observava aquele ser tão comum para muitos, todavia tão espectacularmente especial para mim.

O ódio enlaçava-se com o amor e, juntos, beijavam a indiferença… O desejo, apanhado de surpresa por tal união, varria as paisagens áridas do sentimento e, como que numa grande esfera, cruzava-se, ora consciente ora inconscientemente, em lagos de desespero, fazendo ou não notar a sua presença angustiante ou prazenteira.

Incrível, tantas folhas que se cruzavam entre si e fingiam não se conhecer…As pessoas também fazem isso! Cruzam-se em avenidas, ruas, travessas, vielas e becos, mas não se importam. Nada importa, só os seus mundos regelados e sós.

Também a minha memória percorre a tua face e ignora-a; também as recordações dos teus braços vigorosos me chicoteiam e eu ignoro-as; também os meus olhos te avistam e já não me acicatam o desejo…És indiferente, és ignoto, és débil e frágil.

Já não és a imagem robusta, escura, quase que misteriosa; já não és tu que me assegura a calma que necessito para sobreviver. Já só és uma criatura desconhecida e ignorada, que não lamento um dia ter esquecido por me sobrevalorizar…

Olhei, de relance, para a árvore (consegui dotá-la de nome) … Parecia agora feia, sem significado, sem forma; era só uma árvore. Fechei a janela, as portadas, os cortinados e atirei-me para cima da cama, como um guerreiro que termina a sua batalha com a noção de dever cumprido.