Ouvi uma respiração sustida no interior daquele quarto escuro, bafiento…
Passos largos rodopiavam em redor dum qualquer objectivo inatingível. A respiração era agora pausada contudo ansiosa. Como eu conhecia essa respiração…
Passos largos rodopiavam em redor dum qualquer objectivo inatingível. A respiração era agora pausada contudo ansiosa. Como eu conhecia essa respiração…
_ Que queres daqui? – Gritei, num sufoco da solidão.
_ Nada, apenas espiar-te!
_ Porquê? Não levaste já tudo o que querias? Levaste a alma, os sentidos, o pensamento e tudo o que tinha de bom.
_ Talvez só queira observar-te, tocar-te.
Como é que ele se atrevia.
_ Não podes. Não quero.
Os seus passos eram agora na minha direcção.
_ Isto não é correcto. Recua…Deixa-me aqui.
_ E queres ficar aqui porquê? O que te prende aqui? Um passado endoidecido por marcas que não saram? Uma prisão de recordações que só fazem sentido na tua cabeça?
_ Cala-te! Deixei de ter de te ouvir quando te deixei, naquela esplanada colorida, cheia de casais apaixonados. Ficaste entregue a um dos teus cigarros lânguidos…Como eu te odeio.
Gritava estas palavras cheias de raivas, cheias de odores que só faziam sentido no meu olfacto, cheias de rumores que só acicatavam os meus tímpanos.
_ Sim, foste tu que me deixaste. E arrependes-te, não é?
_ Como podes ser tão presunçoso?
_ Sou só realista.
_ Tu também não me consegues esquecer. Por que raio ainda hoje me procuras, tendo esse teu lar feito de palha, que facilmente arde ou é soprado para bem longe?
Estagnaste em silêncio. A coragem nunca fora o teu forte. Também a ti as verdades eram dolorosas. Sempre tivemos esse problema, sempre foi algo com que não conseguimos lidar, as verdades. Tu, porque as construías na tua mente, eu, porque não suportava ouvi-las com sabor de mentiras.
Afinal de contas, somos iguais; eu, duma maneira, tu, de outra; ambos não passamos de egoístas preguiçosos, que somente pretendem mudar e que, todavia, não param de pensar na merda do passado.
_ Pelo menos eu entreguei-me a algo que não envolve mais falsidade. Adoras glorificar-te por isso, por ser eu quem não construiu um lar. Mas eu não quero um lar cheio de intrigas, cheio de dor, cheio de coisas que não são genuínas… Lembras-te que comigo eras genuíno? O que é feito disso agora? Continuas a ser genuíno quando aqui vens, mas fora desta sala não passas duma marioneta, desvairada por sexo perverso, embrenhada em loucuras sombrias, envolvida numa vida enigmática e estranha…
_ Tu não sabes nada, Isabel.
_ O teu velho argumento, Gonçalo.
Caramba, este gajo ainda me conseguia fazer saltar a tampa.
Foi então que, debaixo do primeiro raio de sol da manhã que ousava difundir-se para aquele quarto, tu me enlaçaste com os teus braços fortes e me beijaste. Beijaste-me a face, o pescoço, os seios, os braços…Beijavas-me devoradoramente
O teu corpo pedia o meu; os teus braços gemiam pelos meus; a tua boca secava pela minha... Ia ser sempre assim, até ao dia em que tu chegasses ao meu refúgio escuro, despido e inóspito e te deparasses com um local flamante, defendido e habitado por alguém melhor do que tu, que não vivesse uma mentira.
Nós dois nunca passaríamos duma mentira, dum produto da minha mente, duma fantasia reprovável que viveria em silêncio, dum desejo insensato que não conseguias controlar…
Só eu poderei fazer chegar o fim que egoisticamente adio, que manifestamente temo. Só tu poderás ajudar a remediar os erros que cometeste, o sofrimento que causaste e a saudade que sempre irá ficar.