sábado, 23 de fevereiro de 2013



Há partes de mim que doem sem que eu queira.

Um egocentrismo desmedido, talvez…

Um lado negro que grita mais alto que qualquer sorriso ou gargalhada, que qualquer gesto mais simpático ou acção mais amistosa.

Olho para dentro, na esperança de achar o que fui, o que sou e o que quero ser. Encontro-me, despida, fria, a tremer… Estou enrugada, enegrecida, desnutrida… No que me tornei? Será que sempre fui assim?

Uma desilusão enche-me as entranhas, que se revolvem sem que eu consiga impedi-lo.

Ao meu lado, vão convergindo e divergindo inúmeras linhas de comboio, que não sei para onde vão. Ao fundo, não consigo focar nada para além duma mancha nublada, onde começa a chover.

Ecoa-me na mente uma voz familiar que me diz “Nascemos para aquilo que nascemos e somos quem somos, não o podes mudar… Haverá sempre alguém melhor, em qualquer lado!”.

A perspectiva futura duma incerteza constante faz-me lembrar de como é assustador chegar a casa, ao final do dia, e não ouvir nada para além do silêncio, não ouvir nada para além da minha própria respiração, não ouvir nada para além da minha taquicardia constante.

Não entendo o porquê de toda esta estranheza e medo, já que até há meia dúzia de dias me fazia sentir tão bem, tão calma…

Tento novamente focar aquele ponto ao longe, onde a chuva já começou a desabar. É estranho aqui ainda estar tanto Sol, sem uma única nuvem a cobrir o céu. Há tanto tão estranho…

Tento, sem parar, sem que algo me consiga parar… Sempre tentei, estou habituada a perder as forças a fazê-lo. Não consigo, uma vez mais…

Só mais uma vez… É sempre só mais uma vez… Tornei-me na rainha do “só mais uma única vez”!

O coração pontapeia-me o tórax sem cessar. A cabeça lateja de dor. Os olhos, semicerrados, não param de arder. Todos os músculos estão fracos e cansados. As articulações não obedecem às ordens mais simples, de tão obstinadas e gastas estarem.

Quero deixar-me ficar aqui, perdida, sozinha e fria. Não consigo mover-me nem tentar só mais uma vez.

As minhas tentativas gastaram-se e restou-me ficar aqui, à espera que a nuvem desabe ou que o Sol persista…

Não vou conseguir continuar a correr e a tentar apanhar aquele ponto que de vez em quando consigo focar, aquela mão que parece querer entrelaçar-se na minha e fechar, aquele abraço que parece querer envolver-me e aquecer-me…

Hoje não quero continuar, não quero tentar, não quero ficar…

Hoje apenas quero sentir pena de mim, de ti, de nós e daquilo que eu gostava de ser.

Hoje não vou focar o ponto.

Hoje vou ignorar e deixar que a nuvem desabe ou o sol fique, porque nada importa… nada mais importa.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012



“Não sabes se vale a pena sentir, não é?”

Fora, os vidros gelam com a brisa da madrugada mais fria do último milénio. As tuas próprias lágrimas não vertem dos olhos secos porque têm também medo de ficar perdidas num qualquer esquecimento, exactamente da mesma maneira que tu julgas que as coisas acontecem.

“Quanto tempo terei de usar esta máscara de pateta feliz? Sorrir e acenar? Cumprimentar da forma mais cordial de sempre, com vontade de o abraçar e aquecer as mãos frias?”

Não o faças, querida! Há coisas cujo significado importa imenso, mas a forma como as dirás ou o que farás são cruciais.

“Hm…” – encolho os ombros, escondo a cara enquanto olho para o chão e, repentinamente, numa gargalhada sonora, interrompes-me e disparas.

“FRASE DE ENGATE PERFEITA!!! - Já alguma vez te disseram como esse nariz torto que ridicularizas te faz parecer quase perfeito?”

Perfeito? Não.. Impossível. Sei-o bem, querida. Até porque, ainda hoje, aqui tão longe, com séculos a separarem-nos, continua a ecoar dentro da minha cabeça, perturbando todas as sinapses que poderiam ocorrer em pleno Sistema Nervoso, “QUEM ÉS?!”.

Sempre achei que o final de todas as histórias é sempre o mesmo. Chega a Primavera e depois o calor, juntamente com novas cores, e o Inverno tenebroso e mais gélido de sempre cai num esquecimento atordoante e que embriaga o pateta mais sisudo. E agora? Que devo dizer-te? Encolho os ombros, sem que me vejas, sem que sequer me oiças.

“Sabes… Eu nunca achei particular veracidade naquela parte das músicas que falam de quão repentina uma coisa é ou nasce ou surge. Nunca consegui entender o drama envolto nas lágrimas, na raiva. Apenas consigo entender o vazio, a solidão.”

“Mentira… ambas sabemos que é mentira. Por que vens agora armar-te em cavaleira de armadura de ferro, como naquela série que eu vi… com ele…” – e a lágrima cai enfim.

“Sim, tens razão… Mas isso foi noutra Era. As coisas eram diferentes, querida. Agora já não há cartas, expectativas, trocas proibidas de olhares, suspiros abafados em alpendres escondidos… O Mundo era diferente. Eu já não consigo “sentir tudo de todas as maneiras” em escassos minutos. Um dia, uma semana, um mês já não fazem diferença no meu tempo”

“Tenho pena de não te poder aquecer o coração”

“Vai… Tens de continuar, agora dorme, não penses nisso, querida.”

“Quanto tempo falta até chegarmos à minha vez?”

E ambas se evaporam no meio dum nevoeiro de pensamentos, fantasias, alucinações, ofuscados por finas frechas de luz que entram pela janela, deixando vislumbrar finas partículas de pó.

Amanhece. O seu corpo cansado repousou.

“Quem és?”

domingo, 17 de junho de 2012


Inverno.
Nuvens espessas, tristes e carregadas de gotas de água pesadas, geladas e infindáveis.
Fizeste tremer a janela velhinha, de estores instáveis, com o impulso dos nós dos teus dedos, que não cessou até que o meu rosto surgisse através dos vidros. Lembro-me bem. Era um daqueles dias em que o pijama polar não sai do corpo e me acomodo ao quente do lar.
Olhei para ti e sorri-te. Vinhas encharcado, triste e com a alma cheia de pesares e lamentos.
Fiz-te rir dessa amargura toda, no fundo daquele laço que começávamos a criar. Algo que ficava no meio entre uma cumplicidade fraterna e um carinho de melhor amigo.
Sentámo-nos e enrolámo-nos nas mantas de casa. Enquanto degustávamos um copo de vinho do nosso Alentejo, falámos sobre os males do mundo e os teus males. Sempre me perguntaste se os meus males não interessavam e eu sempre te respondi da mesma forma “Sabes como sou! Não gosto de falar sobre os meus males, porque eles não se resolvem”.
Ficámos assim por horas, por dias, por semanas, por meses…
Esses momentos de refúgio foram-se transformando em quase imprescindíveis (e diários) para ambos. A tua mágoa ia dando lugar à negação, depois raiva e, por fim, esquecimento…Ou assim pensávamos ambos.

Primavera.
Pólen no ar. Comichões no nariz e nos braços. As primeiras t-shirts.
Desde o café inocente, às mensagens rápidas e fugidias, pelas quais sempre detestei comunicar, passando por mais uma imperial nos primeiros dias solarengos.
Era só mais um cigarro que acendias. Deixa-te ir ficando. Sabia bem ter-nos por perto. Sabia-te a quê?
Não soube onde foste buscar aquele beijo terno. Assustou-me. Fugi.

Verão.
Quis voltar.
Mas a tua amargura, a tua fuga, todo aquele início de algo que eu já tinha presenciado, repentinamente, despoleta-se uma vez mais.
“Ela voltou”, dizias-me tu com um misto de raiva, empolgamento e esperança.
Sem perceber porquê, doeu-me o peito… doeu-me a barriga… os olhos ficaram húmidos e o coração acelerou…
Tive vontade de te abraçar e pedir desculpa por ter fugido, por me ter assustado e ter renegado tudo o que me poderia fazer sentir novamente o pulsar das artérias, o contrair dos ventrículos…
Já vou tarde.

Outono.
Não sei como serás.
Vazio, seco, áspero e sem sentimentos?
Não importa. Nada mais importa.
No dia em que aprendi a sentir já não valia a pena.

Anseio pelo Inverno.

sexta-feira, 16 de março de 2012


Em vão.

Tudo sempre e somente em vão.

Noites indormidas indagando erros lá atrás, no passado recente, cometidos entre um copo de gin, um sorriso roubado e um toque efémero.

Na fugacidade de momentos fúteis, culpados por actos menos ponderados, fico com a sensação injusta e preocupante, em que a análise dos meus e dos teus comportamentos se torna já quase uma constante.

 Porquê todo este silêncio gritante?

Porquê essa necessidade de punição, com momentos despidos de palavras, cuja origem de ser desconheço e não compreendo?

Bem sei que nunca te prometi nada ou tencionei que o fizesses para comigo. Se, por um lado, achava que isso nos fazia bem, deixava-nos leves e libertos para ser quem quiséssemos, agora parece que já não te sentes confortável, nem tu próprio, e inventas um emaranhado de desculpas comportamentais irreflectidas.

Afinal, quem queres que eu seja?

Já te rejeitei e já te tratei como se nada mais importasse no meio envolvente, como se entre a calma do teu jeito e a rapidez com que os momentos passassem, nada mais importasse para além da nossa interacção e partilha.

Ontem, sem querer, tirei-te da minha corrente sanguínea e, hoje, sem pedires, quiseste penetrá-la. 

Sabes bem que não quero saber do amanhã, esse que tanto me desconforta, principalmente depois do anteontem, em que fui eu que, premeditadamente, quis que algo carismático, diferente e único entrasse no meu sistema de vasos e artérias rígidas, sem que me apercebesse que o meu discernimento tinha sido tomado, incapacitando-me de acordar todos os dias e deitar-me tranquilamente.

No meio de tanta simplicidade, no meio de tanta naturalidade, no meio de tanta objectividade, no meio daquilo que eu sempre quis, eis que vens complicar tudo, de novo, sem que eu quisesse ou deixasse.

Sim, o teu silêncio custa-me.

Sim, o teu silêncio torna-se incompreensível para mim, à medida que a sua intensidade aumenta no meio de palavras vagas.

Sim, não sei o que quero amanhã, mas hoje queria-te igual a ontem.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

“- Escuta…” – diz a voz dela, envolvida num tom melódico e doce.


“- O que foi, de novo?” – responde-lhe ele, sempre no mesmo tom monocórdico e distante.


“- Por que me afastas assim, quando sentes que te aproximaste demais?” – a preocupação tomava-lhe conta da voz, da mente, do espírito e até do corpo. Era fácil senti-lo nas entrelinhas daquelas palavras, entre uma ruga e outra da sua face, onde o tempo já mostrava evidências de ter passado.


“- Oh!..” – a mesma resposta, o mesmo tom, o mesmo olhar fugidio e vazio, que durava há décadas.


“- Sempre a mesma coisa. Há palavras que uso e te custam. Tens medo delas. Mas são mais fáceis, do que ficar perdida nesses “ohs” constantes, que nem sei que querem dizer. Sabes que há palavras assim, que são usadas para nos impedir de pensar, e só porque caiem no hábito” – ela sabia sempre que dizer.


“- Não te irrites… Sabes quem sou e conheces-me… Sabes bem qual é o meu “estilo”, não é só uma farda de fim-de-semana, ou de época de férias” -  os silêncios intercalavam-se nas frases que proferia. Parecia que ele nunca sabia o que ia dizer a seguir, ou o que dissera antes. A volubilidade das suas palavras era proporcional à dos seus actos.


“- E se eu agora me fosse embora?” – a firmeza da voz, que a caracterizava, tinha-se feito notar mais do que nunca; falava com certezas do que queria.


“- Era difícil. Vives aqui, lembras-te?” – diz ele, com o seu sorriso trocista. Eis o que a intrigava. Essa inequívoca sede de surpreender, mesmo nos mais ásperos momentos.


Ele ergue-se enfim, dos mesmos lençóis amarrotados e usados, pelo tempo.


“- Difícil és tu. Não entendo por que motivo te conheci, sabes? Estava numa fase apática da minha existência e vi-me esvaziada. Por algum motivo, não te amo. Gosto de ti, não daquela maneira que desconcerta as pessoas, deixa de fazê-las pensar com frieza e coerência. Mas tu foges sempre que dizes que me amas. Que raio de amor?” – ela parecia cansada.


Ele começa a ajeitar a camisa que usava nos dias de festa, em direcção ao espelho majestoso que espelhava toda a sala requintada em linhas modernas.


“- Ah..deixa-me adivinhar. Não vais responder.” – continuou ela…já de esperança totalmente perdida.


“- Não me fizeste nenhuma pergunta.” – diz ele, com olhar preso no infinito, tão focado interiormente que ela achava e pressentia que podia mesmo desaparecer.


“- Merda. Eu não te quero salvar, nem quero que me salves. Apenas quero saber por que motivo há esta corda que nos une, mesmo quando em pontas separadas e com múltiplos acidentes de percurso no caminho.” – ela olhava já para o vazio também; ele pegara-lhe essa mania…estava surpreendida como tinha verbalizado tanto.


“- És uma tagarela. Falas o que deves e o que não deves. Sabes que me apaixonei por esta, por aquela e pela de ontem, a mesma que tu me introduziste e fizeste força. Que queres que te faça? No meu interior, tenho duas almas em guerra. E queres rir-te? Nenhuma delas vai ganhar, nem tu lhes vais ganhar. Nasci com defeito.” – Ele tinha enfim terminado de arranjar o cabelo e manter a aparência, em simultâneo com o momento em que começara a abrir a alma.


“- Meses por três frases sem sentido? Dá-me vontade de te aplaudir, mas não me apetece. Já me basta que ridicularizes a minha idade, os meus cabelos brancos a nascer e as minhas rugas de expressão. Já me basta que critiques os meus hábitos. Já me basta de ti, bolas!” – o cansaço era cada vez mais evidente; ela desconhecia a sua própria clarividência quando olhava para o olhar dele.


“- Tu cresceste e eu fiquei no mesmo sítio?” – ela fazia perguntas a ela própria todos os dias; por que raio as verbalizava agora?


 “- Por favor… não dificultes tudo. Amar em abstracto é muito mais expedito do que fazê-lo em concreto” – as suas curtas palavras vedavam-lhe o acesso a ele, deixando que as palavras dela se transformassem somente numa massa fosca.


“- Sabes?” – na voz dela ecoavam-lhe coisas que não sabia como dizer.


“- Sei o quê? Eu nunca sei! Às vezes dá-me vontade de gravar as nossas conversas, as nossas partilhas, para ouvir ao final do dia…Mas há outros dias em que só me apetece evidenciar as diferenças que temos e os momentos irritantes que protagonizas… Que culpa tenho eu? Eu sou assim, mergulho na minha solidão humana e rasgo retratos e memórias que poderia guardar, ou até mesmo ter todos os dias.” – havia sempre aqueles momentos que a confundiam, em que a alma dele se abria sem pedir permissão.


“- Sabes? As coisas podem deixar de durar e isso significa que se alteraram. O simples facto de podermos deixar de ser, pode alterar-nos, mesmo que tentemos não estancar a sua manutenção… Estou velha, sabias? O tempo tem passado por mim e não fica. Amanhã, serei eu de novo, no mesmo sítio de sempre… O hábito às vezes torna-se meu amigo, torna-se bom… “ – nas palavras dela, não havia qualquer tentativa de tentar convencê-lo a ficar.


“- E é por causa disso que te pergunto o que sabes. Não sabes nada. Sou sempre eu que tenho de te dizer. Amanhã vou partir. Provavelmente, ficarei longe daqui por anos, décadas. Provavelmente voltarei com uma família e hábitos diferentes enraizados. Não fiques com a minha chave. Já não vai voltar a entrar na fechadura.” – uma lágrima desenhou-lhe o trajecto da base no rosto, com um rasto negro do rímel.


“- Compreendo. Talvez um dia saiba amar para lá da breve chama do desejo. Vai fazer-me falta alguém que não ache que é sempre tudo normal. Vais fazer-me falta.” – Ele afaga-lhe o rosto, sorri-lhe e prende-se num beijo simples e terno, no hall de entrada pintado em tons de verde seco.


Sai… Deixa atrás o rasto do seu aroma, tão velho e conhecido. Ela fica a sorrir, de olhos fechados. Quando ele já está na rua, na sua moto topo de gama, que todos invejam, ela responde-lhe, sabendo que nunca a irá ouvir.


"- Vou? Não me parece.”


E nisto, ela descobriu um cheiro que só se descobre depois.
Longe… cada vez mais longe, tão longe que ela já nem se lembraria como era.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Anoiteceu e à varanda do costume, pouso o olhar nos prédios em frente. Uma vez mais, desejo que eles ali não estivessem, para que pudesse contemplar o céu estrelado, neste Verão já tão fora de horas.

Do meu interior brotam sentimentos desafogados, com mãos a tentarem apanhá-los e mentes a tentarem decifrá-los. Em vão, como sempre…

Não tenho de fazê-lo, não tenho de tentar arranjar uma explicação lógica e aceite universalmente para todas as atitudes que o corpo quis tomar nos últimos tempos. Ele dissociou-se da mente, sem me consultar. Olho-o e sinto que não controlo os seus ímpetos, as suas tentações, as suas taquicardias de emoções, embriagadas de desejos imperceptíveis.

Hoje quis entendê-lo. Não consigo.

Sinto que houve uma dissociação temporal entre o momento em que nos encontrámos e o momento em que devíamos tê-lo feito, para que a perfeição que nunca foi prometida, mas que foi levemente experimentada, fosse cumprida ad aeternum.

Era tão mais fácil se estivéssemos numa noite de Inverno frio, semelhante àquela em que surgiste, para que pudéssemos apartar-nos fisicamente, sem mais enlaces, como que num continuum de sonhos e despertares, dia após dia, com a sensação que preenche a alma, de algo expansivo, para todo o sempre.

São seis da manhã. Não consigo alinhar pensamentos lógicos acerca do que o corpo pediu.

No horizonte, o sol começa a despertar a medo. Conclusões? Essas continuam num sono profundo, desaparecidas, espelhando cada vez mais esta dissociação corpo-mente.

A mudança é boa. Eu sei. Eu sinto. Quero-a, mais que tudo, quero-a com o corpo e a mente. Mas…e as memórias? O hábito enraizado, com feixes tão grossos?

Tirem-me desta varanda, por favor. Construam novos arranha-céus aqui.

Os primeiros carros na cidade despertam. Esta floresta de betão cheia de poluição acorda sorrateiramente… Será que ela também não dormiu?

Continuo na mesma varanda. Novas flores surgem nos vasos pequeninos escarlates. Ainda não as tinha visto. Direcciono o olhar para o outro lado da rua, aquele lado da rua que sempre desconheci, e que só vislumbro pelas janelas sujas do tempo.

Passo calmo, concentrado, focado e confiante. Pose atraente. Porte atlético. Ar descontraído. Olha para cima e sorri-me. Queria apanhar aquele sorriso e prender-me naquele olhar azul que nunca tinha visto.

Quem és? O certo no meio dos errados? Mais um errado, no meio de certos que eu creio serem errados? Ou simplesmente mais um errado, na panóplia de tantos erros?

Vamos jogar às probabilidades?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Insónia Adormecida

As têmporas latejam.

Cerro os olhos.

Imagens correm sem parar, sem fazer sentido.

Concentro-me numa das partes do meu corpo cansado.

Quero parar de discorrer sobre o trivial do dia…

Sobre o parágrafo número duzentos e quarenta e sete que nunca reterei na memória…

Sobre aquele nome complicado em alemão ou em russo que eu nunca vou saber dizer…

Sobre aquela via manhosa que para mim é inatingível…

Respiro fundo, volto a cobrir-me com os lençóis, aconchego-os ao pescoço e enrolo-me em posição fetal, qual criança desprotegida e só.

E a mente não pára… Continua a deambular pelos recantos mais recônditos de dias que já passaram há muito tempo, de conversas que já foram há séculos, de momentos que parece que foram há milénios… Mas não terá sido tudo ontem? Outra memória surge sem me deixar localizar temporalmente.

De repente, surge o teu rosto. Será que adormeci? Será que estou já a sonhar? Uma gargalhada rouca e passos no andar de cima dizem-me que não… Também tu quiseste invadir os pensamentos efémeros desta noite… Como raio te fui buscar também a ti, agora, a estas horas?

A tentativa de me concentrar nos dedos dos pés esvanece-se, enfim… Tento agora os dedos das mãos.

Não, não, não… Sinto agora todo o meu corpo numa frequência cardíaca coordenada e rítmica, lenta, espaçada…

Sem pensamentos? Agora? E… aquele rosto? Eu conhecia aqueles olhos esverdeados… mas donde?

Concentro-me agora na pulsação carotídea…

Entre um turbilhão de dúvidas para o dia seguinte, a insegurança característica e pensamentos descoordenados, abro os olhos. Tenho menos duas horas para dormir… MERDA!

Levanto-me… dou um trago na água, sempre à cabeceira… O vizinho continua a rir-se. Odeio-o, também! Aposto que ele não tem pensamentos a percorrerem-lhe os vasos de todo o corpo!

Deito-me novamente, agora em decúbito dorsal.

Concentro-me na minha respiração.

Mais imagens…

Luto contra o tempo, o corpo está cada vez mais cansado mas as pálpebras agora decidiram não cerrar… Querem vislumbrar na escuridão, no meio do “tudo desfocado” e do “tudo escuro”.

Afinal, quem sou eu? De repente, ocorre-me… A ausência duma resposta imediata assusta-me. Respiro fundo… Começo a sentir o corpo a desligar da mente, mais pensamentos…cada vez mais longe… Num sítio não antes visitado naquela noite.

Um despertador irritante toca sem parar. Exige que me erga… Ai! Doem-me os membros… parece que passei as últimas horas a contraí-los.

A mente está suja e confusa… Tenho a sensação que passei a noite a sonhar acordada… ou a pensar adormecida.

Apetece-me voltar para a cama. Não posso. Mais um dia.

Olho para a roupa previamente escolhida no dia anterior. Tudo metodicamente preparado para representar quem sou e tentar mostrar que o meu raciocínio vale algo…que não vale.

Bom dia, eu!