quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Um salão da vida

Este é para eles, para vocês, para nós...
Maluca, para ti também, que compreenderás e concordarás...Agora já sabes porque poucos perduram...
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O tiquetaque cáustico continuava…O relógio suspenso na parede sebenta e amarelada pelo fumo, pelas noites galantes, pelos tempos de outrora, não cessava, no entanto tardava. Divaguei durante horas a fio, imaginei tantas coisas que mergulhei num estado de enfraquecimento psicológico exorbitante, já não sabia distinguir o real do artificial.

Algures numa noite fria, em que a lua espicaçava o céu, afirmando a sua plenitude, em que as estrelas se vestiam duma cor pura e bailavam na maior imensidão conhecida, aquela sala tornara-se mais nítida, mais branca, mais actual, coberta de pessoas bem vestidas, bem pintadas, com uma música de fundo tão doce…O ar era perfumado, colorido, cheio de glamour. Num canto encontrava-me eu, sim eu! Como seria possível, eu ali naquele canto, só, num corpo que não parecia meu, numa roupa que nunca antes vestira?

Pelos meus olhos vislumbrava tudo, pelos meus outros olhos pintalgados com cores a condizer com a roupa que trajava, via o cenário daquela sala que me fazia sentir malograda. Era um simples e hediondo ser que ali se estancara sem pedir autorização, naquela cadeira de costas largas do estilo rococó. Porém, com os meus outros olhos, via um ser fantástico, apenas pouco convicto de si mesmo, com pena de si mesmo, vitimando-se a si mesmo…será que esse “si mesmo” existia, será que sempre havia existido, será que ter-se-ia tornado assim pelo acaso do destino?

Aquela figura solitária ergueu-se do estado melancólico em que se encontrava, e da cadeira requintada, deambulou por aquele vasto salão densamente ocupado, finamente decorado, viu caras, não viu corações, gozou de conversas triviais, tais como todas na nossa vida, avaliou as pessoas e concluiu que não era assim tão deprimente estar ali, naquele mundo de hipocrisia, naquele mundo de falsidade, naquele mundo maquiavélico que muito daria para vê-la tombar subita e vorazmente. Olhavam-na com o ar mais angelical, maldiziam-na entre dentes…Aclamavam-na ruidosamente, sibilavam-lhe agoiros…E ela sabia, isso fazia-a diferente, superior, ela sabia e continuava com o sorriso desenhado nos lábios carnudos, com um brilho intenso contornando os olhos cor de breu, com o ar intocável que lhe era característico...

Aquele não era definitivamente o lugar mais indicado para se movimentar, aquele não era o ambiente mais afável para respirar…Aquele era o mundo do absurdo, em que muitos se mascaravam, poucos tiravam as máscaras e outros conseguiam enganá-la, deslumbrando-a, embrenhados nas máscaras sufocantes e persistentes que raramente deixavam…Esses sim, eram os que maior confusão lhe geravam, os que maior constrangimento, mágoa e dor lhes provocavam pois eram os únicos a que se dava a conhecer e que simplesmente amarfanhavam a sua dedicação, lealdade e honestidade…sim, honestidade, naquele mundo medonho!

Deslizou para a porta de saída, sempre mais distante que a de entrada, do outro lado estava o seu lar protector, cada vez mais diminuto, o mundo em que talvez ela também tirasse a sua máscara de insensibilidade frente dos que ainda lá permaneciam…

Naquela mesma noite, antes de desertar, clamou “Este não é o meu mundo, nem nunca irá ser, mas um dia, abaterá!”…

Despertou-se daquela quimera e olhou-se, agora num mundo subjugado, vazio, solitário…teria sido uma ilusão, um presságio ou um sonho? Ignorei…Saí e, uma vez mais, passei a porta de entrada, ou saída, agora eram uma só.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

...Love is a bastard, but show must go on...

Porque esta é a que mais se adequa...porque não há condições para escrever mais...simplesmente porque hoje é hoje, e hoje doeu...

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Coldplay - Fix you (clicar para ouvir)

When you try your best but you don't succeed
When you get what you want but not what you need
When you feel so tired but you can't sleep
Stuck in reverse

And the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone but it goes to waste
could it be worse?

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try you'll never know
Just what you're worth

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

Tears stream down on your face
When you lose something you cannot replace
Tears stream down your face
And I

Tears stream down on your face
I promise you I will learn from my mistakes
Tears stream down your face
And I

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you.

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Amor, uma relação de morte?

Antes de passar ao texto, propriamente dito, quero antes felicitar o Vitor (o-preto) pelo agregador de blogs que elaborou e agradecer-lhe por ter posto o meu blog nesse agregador.
Quero ainda referir que este texto, fruto de um pedido da minha companheira Dória, tinha como objectivo inicial integrar no portfolio dela, por forma a que ela conseguisse estabelecer uma espécie de relação entre o amor e a morte.
Aqui fica o que o momento, e a inspiração, me permitiram fazer.
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O poder que os teus olhos exerciam estremeceu-me. Senti um aperto no peito, quando me olhaste, e um tremor percorreu-me todo o corpo, que ansiava por que lhe tocasses. Apesar destas sensações, eu não queria acreditar que existias; apesar do que me acontecia quando te via, negava tudo enquanto os olhos me traíam; apesar da minha vista percorrer todos os espaços em que julgava poder encontrar-te, insistia que nada em mim provocavas…
Caminhei, enfim, no anseio de te alcançar. Necessitava que me olhasses uma vez mais; necessitava que me falasses com o teu ar terno e absorto; necessitava que, pelo menos, me acenasses. Atingia a plenitude só de olhar-te, falar-te, pensar em ti, sentir-te em mim, imaginar-te, bastando permaneceres junto a mim para que eu tivesse uma existência feliz.
_ Olá! – Disseste, sorrindo. Não esperava ver-te por aqui…
(Nem eu esperava ter ido até ali!)
_ Pois… – hesitei. Ele ia desmascarar-me.
_ Precisei de espaço para libertar os meus pensamentos que, ultimamente, me têm enlouquecido.
Desta feita estraguei tudo. Olhavas-me agora como se fosse realmente louca, desconhecendo que a minha única loucura era ter ido até ali só para te lobrigar, na expectativa que me também visses e, quiçá, falasses; desconhecendo que eras tu o culpado da minha insanidade.
Continuámos uma pseudo-conversa, dirigida por mim, que mais parecia um monólogo em que eu te bombardeava com perguntas fúteis e tu, com um ar aborrecido mas sempre educado, respondias com enunciados abreviados, na tentativa de findar aquele proscénio.
Desejava ficar ali contigo sempre e para sempre. Toquei-te na mão, com um ar casual mas intenção escondida no ar angelical e distraído. Naquele momento sim, apercebeste-te de tudo, começaras finalmente a desvendar o meu interesse. Soltaste a tua mão e despediste-te apressadamente, querendo esquivar-te de mim e de todo aquele triste episódio.
Vendo-te partir, sem sequer olhar para trás, para o local onde me encontrava, as pernas fraquejaram e pousei os joelhos abruptamente no chão. A primeira lágrima percorreu-me a face e cessou quando atingiu o queixo; foi a primeira e a única que ousou indiciar-me como frágil. Contudo, eu não queria saber se o era ou não, só queria saber de ti. Amava-te, sim, era esse o problema, amar-te!
Já não emergias do meu horizonte, porém sentia ainda a tua presença, uma vez que o teu odor fascinante embrenhara-se pela atmosfera que te precedia e me inundava.
Subitamente recordei todos os episódios que vivêramos e que pareciam tão longínquos…Estava agora sentada, enrolada sobre mim própria, servindo-me de assento a terra batida poeirenta. Doía tanto ver-te desertar e saber que não mais voltarias, pois os teus olhos nunca enganam, são puros e dóceis, tal como tu, demasiado bom para me dizeres o que sentias, ou não sentias.
Fiquei naquele local, instantes antes perfeito, e as poucas pessoas que passavam julgavam-me demente. No entanto, eu não o era, no fundo agora eu não era mais do que um corpo perdido num mundo a que não pertencia. A alma, levara-la contigo e, com ela, todos os sentimentos que a penetravam, ficando somente um corpo, um corpo despido de qualquer emoção. Morri, morri para mim, já não me considero gente, nem a gente me considera gente. Sou uma pedra lascada pela doença que um dia me fez voar e que, porém, me matou. Vivo num pântano solitário e não sinto…o que é sentir?

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

A pedra rolou

Que dia mais desconsolante! Acordei e olhei para aquele objecto negro de visor escarlate que me avisava quão atrasada estava para enfrentar mais um dia de merda.

Levantei-me e direccionei-me para a banheira ainda meio estremunhada e com o corpo pesado e dolente. Uma lufada de ar, proveniente duma qualquer esquecida janela aberta, trouxe-me à memória o teu cheiro. Imaginei-me então de novo envolvida por ti, quando os teus braços me apertavam junto ao teu peito ofegante e não me desamarravam.

Durante o meu banho estimulante imaginei tantos pequenos episódios que vivemos juntos e perguntei-me de novo, pela milésima vez, por que é que tudo havia desaparecido tão repentinamente, sem advertência prévia. Senti saudades, cruelmente não por te amar, mas por sentir a falta de fazê-lo, por sentir a falta que me amasses, por sentir a falta daquele pequeno mundo que um dia construímos e no qual só vivíamos nós.

Apressei-me, estava cada vez mais atrasada. Vesti-me num ápice e saí, dirigindo-me àquele mundo repleto de imbecis que me zombariam ou que me julgariam só mais uma coitada. Enfureci-me logo que avistei aquele ambiente repugnante que agora só esporadicamente reluzia quando alguma das minhas estrelas ousava avivar-me, mostrando-me a minha restrita importância.

Ficou tudo tão diferente, tão mais dúbio desde que não fazes parte do meu mundo, o mundo que me ajudaste a construir e do qual te rejeitei, do mundo físico em que me movo, já tão antigo, mas que contudo se começa a tornar pungente.

Inesperadamente revejo-te nas velhas mesas de mármore branco sujo que tantas vezes dividimos. Julguei estar ainda a dormir e foquei o ponto em que julgava ter-te mirado. Não eras tu, ou pelo menos a imagem não correspondia ao que eu queria, à pessoa que foras durante os tempos que partilhámos. Eras agora alguém facilmente ignoto, rodeado de elementos masculinos e femininos, um pouco como tu, que te idolatravam e que, contudo, mal te conheciam. Porém não vivias sem eles pois não conseguias; sentias-te um brinquedo antiquado, colocado numa prateleira coberta de pó, para sempre esquecido. De momento eram eles (e elas) o teu novo mundo.

Segui o meu caminho e, confrontada com a verdade de que tu já arranjaras um mundo e eu ainda não tinha conseguido encaixar em nenhum daqueles que me surgiam ou me impingiam, pontapeei, revoltada, uma pedra que me barrara, rolando para bem longe e que, apesar de me ter magoado, deixou de ser um problema.

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

Sempre para sempre...

Peço desculpa pela falta de imaginação que tem andado por ruas de amargura.Decidi, por isso, postar este poema que acho lindo e, ao mesmo tempo, tão simples...Faz parte do cd de Donna Maria (Tudo é para sempre).
Espero que gostem tanto como eu...
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Donna Maria - Sempre para sempre

Há amor amigo, Amor rebelde
Amor antigo, Amor de Pele.
Há amor tão longe, amor distante,
Amor de olhos, amor de amante.
Há amor de Inverno, amor de Verão,
Amor que rouba como um ladrão.
Há amor passageiro, Amor de não amado
Amor que aparece, amor descartado.
Há amor despido, amor ausente
Amor de corpo e sangue bem quente.
Há amor adulto, amor pensado,
Amor sem insulto, mas nunca, nunca tocado.
Há amor secreto de cheiro intenso
Amor tão próximo, amor de incenso.
Há amor que mata, Amor que mente,
Amor que nada, mas nada te faz contente,
Me faz contente.
Há amor tao fraco, amor não assumido
Amor de quarto que faz sentido.
Há amor eterno, sem nunca talvez,
Amor tão certo que acaba de vez.
Há amor de certezas que não terá dor,
Amor que afinal é amor sem amor.
O amor é tudo, tudo isto e nada disto para tanta gente.
É acabar um amor igual e começar um amor diferente,
Sempre para sempre, para sempre.

sexta-feira, 19 de agosto de 2005

Um fim..

A pedido da minha cara amiga Finn, mas também porque eu própria achei o final deste post um pouco "sonso" decidi editá-lo depois de escrito. Não alterei muito e acrescentei mais umas frases no final (Siiiiim eu sei que vai ficar com um tamanho enorme :P). Espero que a alteração seja do agrado de todos os meus (escassos) leitores...pelo menos da minha é ;)
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Acordou e olhou para o seu lado. A mesma cara das últimas noites, dos últimos meses, dos últimos anos…Ele era especial, sem dúvida; com ele tinha vivido os melhores tempos de sempre, aprendeu a descer daquele pedestal de frieza, desconfiança e fixidez em que havia posado. Viu céus mais estrelados, viu maior brilho no nascer do dia, sentiu melhor sabor no pequeno-almoço acompanhado, sentiu o estado da perfeição a penetrar a sua alma e a ser visível no seu corpo, na sua face, nos seus lábios, nos seus olhos...

Caminharam, unidos na mesma estrada, durante tanto tempo que mais parecia uma eternidade; juntos construíram um longo, destemido e forte exército que resistia às maiores tempestades que alguma vez poderiam ter desabado. Subitamente, sem qualquer explicação, os olhos dela já não brilhavam como dantes, os pequenos-almoços sabiam ao desgraçado bafio do hábito, o dia nascia da mesma maneira de todos os dias e o sol punha-se sempre no mesmo movimento pachorrento que, em tempos, ela tanto idolatrara na companhia dele, o seu amor, o seu grande amor na visão de muitos.

Não conseguia suster mais aquele peso, aqueles sentimentos oprimidos que a seguiam em todas as esquinas e ruelas, a todas as horas, até mesmo nos momentos de suposto sossego, a noite, quando adormecia. Sonhava numa boa maneira de lho dizer pois ele simplesmente não merecia viver enganado, como que numa sombra de clemência, e ela não conseguia sustentar mais aquela situação de regresso ao passado que se arrastava num presente que não era o seu, que se arrastava e a levava a viver uma vida que não lhe pertencia e que ela não queria.

Ele movimentou-se nos lençóis amarrotados duma noite de insónia, ela assustou-se. Sentia-se como que apanhada nos próprios pensamentos, o coração iniciou um ciclo de movimentos mais acelerado e deu-lhe sinal que era altura de estancar aquela situação. Ele murmurou baixinho:
_ Bom dia, meu amor.
Começou a beijá-la, abraçou-a; as mãos dele vagueavam pelo seu corpo, os seus lábios provocavam-na, arrepiando-a. Uma lágrima atraiçoou-a e escorreu-lhe pela face; afastou-se dele.
_Já é tarde, é melhor levantares-te. Eu vou embora, tenho assuntos para tratar. Até logo.
Assim o deixou, mais uma vez especado, contemplando-a como se não a conhecesse ainda. Sabia que havia ali algo mal, contudo temia perguntar-lhe pois pressentia que não gostaria de ouvir, no fundo sabia do que se tratava.

À noite, uma vez mais juntos, ela iniciou uma conversa estranha, a tal conversa temida. Ela sentia-se como que envolta numa vida que não era a sua, enveredando numa história de amor que para ela já se havia extinguido há tempos. Ele não era mais o seu amor nem a pessoa com quem ela queria ficar; ele não era mais o motivo para que os seus olhos brilhassem, nem o motivo para que os dias parecessem árduos perante a distância daquelas duas almas que tão bem já se conheciam e que, porém, nada sabiam uma da outra.
Ele olhou-a e teve de imediato a resposta à pergunta que há tanto o atemorizava “será que a faço feliz?”. Era mais que óbvio que não, julgava ele, se não porquê aquele fim tão descabido, tão repentino? Sentiu uma raiva momentânea daqueles olhos doces, daquela face retorcida como que numa dor que também se emergia daquela pele tão suave que o extasiava. Depois de tudo ela ainda o deslumbrava, mesmo depois de tê-lo apunhalado, usado, magoado ela ainda o excitava e ele ainda a desejava…Nunca pensara que um dia pudessem acabar assim, num fim triste a uma mesa de jantar repleta de iguarias que disfarçariam a tristeza daquela ocasião sufocante.

Ela continuava estancada naquela cadeira dura, mais dura agora depois de ter esvaziado tudo o que a transtornava mas que, simultaneamente, magoava aquele homem, aquele ser que tanto a amava e que agora sofria ali, no silêncio do seu orgulho. Sentiu vontade de abraçá-lo todavia considerou não ser o melhor dos gestos nem a altura apropriada. O melhor seria deixá-lo entregue a si mesmo, levantar-se e dar-lhe todo o tempo do mundo para que a odiasse naquele silêncio gélido que se segue ao rompimento duma bela história de amor que, por motivos desventurados, cessou; por causa da merda dos sentimentos. Sentia-se uma asna, magoava-o e ele não merecia. De qualquer modo, não podia arrastar mais aquele caso que para ela já não fazia sentido. Era atroz, confuso romper com tudo ali, à luz daquelas velas altas que ardiam, ignorando tudo o que se sucedia; porém era inevitável.

Ergueu-se finalmente e sussurrou:
_ Desculpa, mas não julgues que foi fácil para mim. Se precisares de mim, sabes onde me encontrar. Estou lá para tudo o que necessitares pois não quero que desertes e me odeies. Podemos tentar ter uma relação saudável, de amizade...
Ele olhou-a e suspirou:
_ Amigos tenho muitos…Mas descansa, não te vou odiar. Afinal de contas não te posso recriminar pelo que sentes...Além disso fizeste com que eu me tornasse alguém muito melhor, devo-te os momentos mais felizes da minha vida...Até breve, procurar-te-ei um dia.
Ela beijou-o na testa e segredou-lhe:
_ Nem uma vez na minha vida me arrependerei de tudo o que se passou entre nós. Foste das melhores coisas que alguma vez me pode ter acontecido, mas agora acabou e ambos teremos de viver com isso. Até breve, amigo.

Saiu e fora, enfim, respirou um ar que lhe pareceu mais leve; ela própria estava agora mais leve. Deambulou pelas ruas e via de novo um pequeno brilho a nascer dentro de si. Fizera o que tinha de ser feito, agora teria de seguir em frente e viver a vida que sabia agora sua.
Ele permaneceu sentado naquela mesa, agora convicto que estava só. Nunca havia imaginado um fim assim, tão sem dramas e tristezas ardentes, contudo preferia-o assim. Sabia que teria ali uma amiga, disso nunca havia duvidado. De qualquer modo agora era tempo de querer odiá-la, de querer sentir raiva dela, para depois ela lhe ser indiferente e ficar apenas a nostalgia dos bons momentos que passaram.
A nostalgia permaneceu dentro deles durante imenso tempo mas ambos seguiram os seus novos caminhos, as suas novas estradas que já não se chegaram mais a cruzar. Depois de toda a mágoa, ele seguiu um novo rumo, com uma nova ela, um novo amor que talvez agora ele considere o amor da sua vida. Ela, também com um novo destino, nunca se chegou a arrepender pela decisão anteriormente tomada e viveu a vida ao lado de outro alguém, quem sabe de outros alguéns.

terça-feira, 2 de agosto de 2005

Quando tudo muda..

Acordei e os meus braços percorreram o espaço vazio em que ociosamente pousavam. Enquanto despertava do estado em que havia repousado nas últimas horas, para que o meu corpo pudesse acalmar da diversão, do barulho, das luzes, da música e de toda a comemoração, pensava em tudo o que se passara há tão poucas horas atrás mas que, no entanto, parecia já tão longínquo e inacessível.

Vi-te, a sorrir-me, como se tudo o que se tinha sucedido não importasse e nada valesse, como se a nossa distância tivesse sido meramente física pois tínhamos estado sempre unidos, em silêncio e sem necessitarmos de qualquer contacto para mantermos a nossa sintonia. A emoção do dia anterior acicatou o meu desejo de estar contigo, fez-me ver que era contigo que eu devia estar, era a teu lado que eu ficava protegida, como que num pequeno nicho de doçura, amor e protecção que ninguém ousaria penetrar e vandalizar, um pequeno paraíso inatingível para os outros.

Foi então que finalmente me ergui daquele estado vegetativo e corri para saber como estavas, que fazias, como te sentias, tal como dantes. Porém, depois de fazê-lo, senti-me patética, como que a crer num regresso ao passado que só seria possível no meu mundo imaginário e extremamente fantasista; nem tu próprio crias nesse regresso. Estavas demasiado ressentido e sabias quão louca e inconsciente eu era; preferias ficar na defensiva e mostrares-me, por fim, que não posso ridicularizar os teus sentimentos, a tua dignidade, o teu estatuto de macho insensível; estavas unicamente revoltado.

Pela primeira vez senti-te realmente longe, impenetrável e frio. Pela primeira vez senti-te inseguro e desdenhoso. Pela primeira vez senti nas tuas palavras mágoa que se acumulava havia muito tempo. Pela primeira vez senti que tinha medo. Pela primeira vez senti-me idiota, infantil e egoísta. Pela primeira vez senti talvez o que tu sentiste. Apesar de tudo, dentro de mim ressoava uma réstia de amor-próprio, apontando-me e murmurando “fizeste o que achaste que seria o melhor não só para ti mas para os dois”.

A manhã já tardava e os sentimentos que se apoderavam de mim vinham a confirmar-se…talvez tudo tivesse deveras mudado. Agora só me resta esperar e ouvir um coração racional ou uma razão sentimental que soprarão para bem longe toda a minha frieza…terei de esperar que tu me perdoes. Será que vale a pena tudo isso?...

sábado, 30 de julho de 2005

Quase Perfeito

E porque hoje o dia é diferente e especial...aqui deixo esta musica que para mim "sabe bem"..um registo um pouco diferente no meu blog mas é para fazer uma experiencia =)


Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

Quase que não chegava a tempo de me deliciar
Quase que não chegava a horas de te abraçar
Quase que não recebia a prenda prometida
Quase que não devia existir tal companhia

Não me lembras o céu nem nada que se pareça
Não me lembras a lua nem nada que se escureça
Se um dia me sinto nua tomara que a terra estremeça
Que a minha boca na tua eu confesso não sai da cabeça

Se um beijo é quase perfeito perdido num rio sem leito
Que dirá se o tempo nos der o tempo a que temos direito
Se um dia um anjo fizer a seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser faremos o crime perfeito

Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

Se um beijo é quase perfeito perdido num rio sem leito
Que dirá se o tempo nos der o tempo a que temos direito
Se um dia um anjo fizer a seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser faremos o crime perfeito

Sabe bem
Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

[*Missing* ]
[Porque há coisas que nunca mudam. . .]
[Restou a saudade de ser ...«demais»]

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Vislumbres de uma tarde

Olhei-te nos olhos, procurando findar a dúvida que atraiçoava o meu equilíbrio, mirei-te, observei-te e avaliei-me: já não era como dantes. O fogo aceso que ardia no meu íntimo quase cessara, estava agora reduzido a uma quase insignificante fumaça. Não podia ser possível, eu não podia permiti-lo; o hábito de te ter junto a mim, de sentir a tua companhia, de reconhecer o teu toque já familiar…Afinal sou eu que te conheço, que te descubro quando te alcanço e te imagino, com todos os peculiares sinais de que és tu. Sou eu que te conheço!

Pegavas-me na mão, mesmo que não te constatasse, reconhecer-te-ia. Oh! Jamais esqueceria a tua suavidade e a tua subtileza que endurecem quando sabes que o mundo é única e simplesmente nós dois. Prometias que ficavas comigo, acontecesse o que acontecesse; proferias convicto e sem medo tais palavras, todavia todo o meu corpo borbulhava de insegurança. Arrebataste-me, os teus braços doíam-te da força com que me seguravas para eu não desertar, para não desertar o teu ser, para não desertarmos ambos. Creio que tu também estavas com medo, não era eu a única, porém eram medos distintos: tu de me perderes e eu de te perder, perdendo-me a mim no mundo abrupto que a todos nos confronta.

O tempo alertava-te de que a hora de partires havia chegado. Esperavam-te, embora fôssemos só momentaneamente separados, tu não querias ir; quanto a mim, egoistamente mergulhei na indiferença, não senti que te ia perder, sabia-te parte imperecível de mim, quer agora, quer daqui a uma eternidade. Senti que nunca te perderia, pelo menos das minhas doces memórias amargas.

Fiquei ali pregada a olhar-te, via-te a sumir, a tua silhueta aparentava-se cada vez mais longínqua, até que te deixei de conseguir lobrigar. Só já sentia a tua influência em mim e no ar que deixaste atrás…Seria sempre assim e tanto eu como tu sabíamo-lo.

O sol brilhava e o dia achava-se esplendoroso, porém frio. Eu, ali, a completar a paisagem, estupefacta com a minha própria frieza. O barulho do corredor no qual permanecia acordou-me e a dúvida assombrou-me de novo, desta feita mais aguçada.

Amanhã, o amanhã seria diferente e isso era plenamente notável. Há muito que tudo se havia alterado e o fogo tendia a extinguir-se, contudo existia um sobejo que eu queria reacender. Era temível, dado que era assaltada pelo temor de ser reacendido por um outro alguém ou de tudo o que permanecia ressequido nas paredes da minha alma não voltar a brilhar e entrar no seu esplendor. Era tão difícil lidar com tudo isto e tu, longe, a julgares-me, pensando que eu era uma inconsciente que não sabia o que estava a fazer. Tudo porque achaste que fora tão fácil…

Caminhei em direcção àquele quarto escuro onde me refugiava. Umas longas horas de meditação esperavam-me…

quinta-feira, 19 de maio de 2005

No parque

A brisa fresca e perpetuadora banhava-me clandestinamente, enquanto eu erguia os meus olhos e te avistava, no fundo do meu horizonte, no meio duma multidão cujos rostos eram indecifráveis. Porém eu conseguia ver-te e sentir-te. A tua presença despertava a minha atenção, acicatando o meu subconsciente deveras perdido.

Repentinamente a tua vista também me alcançou, os teus olhos encontraram-se com os meus e sorriram regozijados. Simultaneamente direccionámo-nos um para o outro. Os nossos corpos moviam-se maquinalmente, enquanto a alma, essa alentava-se com o reencontro e ansiava voltar a sentir-te. A distância entre nós dois havia-se agora encurtado ainda mais e a atracção era incontestável.

Finalmente alcançámo-nos; os teus braços envolveram o meu corpo extasiado; a tua boca percorreu toda a minha face; os teus olhos observaram-me minuciosamente como que a procurar eventuais alterações em mim, percorrendo-me desde o mais fino fio de cabelo até ao mais inferior ponto dos meus tacanhos pés. Nada mudara em mim, tu sabia-lo. Ficámos assim unidos naquele abraço envolvente que fez parar o mundo, pelo menos o meu e o teu que, novamente, se haviam unido num só.

Seguimos de mãos dadas, passeámo-nos por aquele parque revigorante e calmo que passaria a ser o nosso local, o começo do nosso mundo. Permanecemos em silêncio pois aquele momento era inesquecível, pleno em gesto e sentimentos, mudo de palavras.

Subitamente estagnaste, olhaste-me de novo, pela milésima vez, mas do mesmo modo que me olharas pela primeira, tão verdadeiro e terno quanto antes. Eu amava-te, tu amavas-me, porém era segredo, dado que caímos no egoísmo (ou deverei dizer encanto?) de preservar somente em nós aquele sentimento tão puro, tão belo que nos consumia; de omitirmos a todos que na penumbra do nosso parque, para muitos sombrio, nos amávamos mas que isso chegava; éramos simplesmente nós, o mundo nada tinha a ver com isso; naquele momento, o mundo fomos nós.

Estonteados e cansados daquele dia, sentámo-nos, ainda de mãos dadas, num banco apetitoso que nos observava e julgava. O sol descia no horizonte, ameaçando pôr-se e nós, quais perversos desrespeitadores, ousámos controlar o seu habitual movimento que hoje era especial, que hoje era, no fundo, diferente.

O cansaço apoderou-se de ambos, olhámo-nos e sorrimos. A hora de partir avizinhava-se e nós erguemo-nos, seguindo para o mundo real que tanto nos amedrontava, para o mundo real que nos ia julgar e questionar…

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Fuga

Sorrateiramente abri a janela e espreitei. Ninguém se via e o barulho do silêncio deu-me um irrevogável alento. Ergui os braços e impulsionei o meu corpo, concentrando todas as minhas forças e esperanças naquele salto.

A bagagem mínima que transportava exercia em mim um peso enorme que não concordava em pleno com a quantidade de acessórios que era transportada…dentro de mim era certo que vinham todas as memórias doces que naquele momento decisivo, que mudaria a minha vida, ainda me fizeram vacilar. O abraço carinhoso e atento da minha mãe, o sorriso longo e caloroso do meu pai, o gozo descabido do meu despropositado irmão, as infindáveis refeições cobertas ora de gargalhadas ora de sérios assuntos…

As pernas começaram a fraquejar, enquanto os braços constantemente me atormentavam através do seu estado entorpecido. Duas grossas lágrimas, por fim, atraiçoaram-me e ousaram rolar pela minha face ofegante; desatei num malicioso pranto: “não vos podia deixar” dizia-me o mais sentimental dos meus lados. Todavia as pernas, apesar de doridas, maquinalmente seguiam por todas aquelas ruas e vielas adormecidas, no canto daquela noite em que perdia o coração, gelando-o.

Não me podia atrever a desfalecer de novo, não podia temer o futuro que seria a minha própria vida. Evitara as longas despedidas comoventes, porém vocês sabiam-no, sentiram com o meu coração, com a minha alma, com a minha pele, com o meu corpo o sofrimento que durante tanto tempo me agonizou, as dúvidas que insistentemente me invadiram…mas eu tinha de partir e vocês sabiam-no, não me podiam prender ali, chegara a minha hora de me assumir como pessoa e deixar de viver na vossa sombra, como que um parasita ou outro qualquer grotesco animal que vive a sua fustigante dependência de modo feliz. Por que é que eu nunca fui assim? Vocês ficariam certamente mais felizes se eu fosse, não ficariam?

O Sol ameaçava enfim romper no horizonte, tal como a minha nova vida. As lágrimas haviam secado e o meu corpo estava agora imune à dor e ao sofrimento que, ao longo da noite, me rasgara o equilíbrio e o coração. O cansaço tomou-me enquanto repousava naquele pedestal lamacento e frio e o sono venceu-me. Mergulhei no meu mundo predilecto, no qual guerreei, venci, comemorei; no qual me completei e atingi o meu auge.

Um barulho ensurdecedor despertou-me finalmente. Estava quente e aconchegada. Preguiçosamente abri os olhos, as minhas janelas, e deparei-me com o meu quarto, donde ainda não havia saído…

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Mais um dia

Este texto foi escrito há alguns tempos, mais precisamente a 7 de Dezembro de 2004. Não sei porquê, agora depois de lido e relido continua a mexer comigo e creio que todos nos sentimos assim, como eu descrevo, em muitos dias da nossa existência.
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Mais um dia, mais uma sequência de horas, de minutos, de segundos inacabáveis...

Suspeito que a realização pessoal é uma meta cada vez mais inatingível ou então a distância até lá tende fugazmente a aumentar cada dia que pesarosamente se atreve a fluir. Olho em meu redor e depreendo da imensidão de caras que me rodeiam inúmeras expressões de rostos constrangidos que me fitam carregados de olhares perplexos indiciando-me, a mim, de uma aterradora loucura. Todavia não é pelos outros que me encontro neste preciso momento sentada nesta cadeira, que qualquer um manteria acordado, mas que a mim me oferece uma apetitosa e bárbara sonolência e me impinge o peso das pálpebras que vão prolongadamente pestanejando; encontro-me aqui sim para reflectir por que motivo a minha satisfação, que deveria alcançar agora o seu auge, se encontra reduzida a uma insignificante partícula em suspensão na massa atmosférica.

Apetece-me gritar em silêncio, quero rir do choro que está prestes a desabar, quero soltar-me do pranto que vai aprisionando os meus sentidos e, segundo os olhares observadores e conhecedores da minha verdade, me está a tornar apática.

O barulho, (ou deverei apelidá-lo de ruído?), de um simples marcador que cai sobressalta-me e faz manifestar o nervosismo em que a minha alma se prende. A ansiedade e a vontade de poder dar mais e mais de mim, talvez seja mais correcto designá-la por necessidade, deixa-me insatisfeita comigo. Por mais que tente dar importância aos factos positivos que superam muitas vezes os negativos, a insatisfação penetra-me e não me deixa levar a tal “vida de plenitude” a que todos aspiramos.

Poderia agora ter escrito sobre uma outra variante que me tem preenchido, ainda que não na totalidade pois a vida dos homens não se cinge a uma única variante, contudo achei-a demasiado bela para declamar no estado pouco agradável e muito contraditório em que a minha mente e o meu próprio corpo se encontra.

Vou ceder ao tal peso das pálpebras. Hoje fui apenas mais uma vencida, quiçá amanhã algo mais venha a acontecer ou algo mais venha a ser impulsionado por mim.

segunda-feira, 28 de março de 2005

A minha e a tua viagem...

Aquela sombra envolvente que me amedrontou durante todas aquelas noites e tardes solitárias esvaiu-se, a angústia que me atemorizava e, inconscientemente, me vinha avisar de que estávamos cada vez mais longe desvaneceu-se, todo o desespero com que fui confrontada por mérito próprio, por pura estupidez, puro egoísmo, findou-se. O ar que voltei a respirar, depois do meu estado hipnótico e hibernante, pareceu-me mais aliciante, mais delicado, mais doce, pareceu-me existir mais beleza no mundo, pensei que durante a viagem que fizera a mim mesma tudo havia mudado de tal forma que agora atribuía um significado mais importante a pequenas coisas que jamais considerara serem tão fundamentais.

Deambulei por ruas que um dia julguei aterradoras, frias, sujas; conheci recantos do meu espaço que durante muito tempo permaneceram abandonados inocuamente; somente nesta longa viagem um pequeno pedaço daquilo que eu sou, fui ou virei a ser desvendei porque hoje tento conhecer-me e acho que, após ter embrenhado por mim a dentro vi o valor de tudo o que me rodeava.

Um beijo teu não continuará a ser simplesmente um beijo, mas sim uma infinidade de moléculas de oxigénio que permitem que sobreviva, extasiando-me simultaneamente; o teu toque, do qual me sinto carecida, passará a valer tanto quanto a água é necessária para todos os seres que ousam viver neste mundo; a convivência com aqueles que, nas horas amarguradas, me seguem e mostram o caminho propício a seguir, que me demonstram, no meio de tudo o que é malevolente, que eles são o bom no brejo, o porquê de continuar em frente, com força e coragem, o motivo para continuar a erguer a cabeça e simplesmente sorrir porque eu existo e eles também, porque todos existimos em conjunto.

Todavia foste tu que, subitamente, me deixaste aqui a desesperar, banhada de incertezas que nem eu própria entendo, inundada por pensamentos indignos que me fazem corar no âmago, reflexões irreflectidas que me assombram tão fugazmente que temo que tu e todos aqueles que me ajudam a viver descubram que sou débil, que não tenho tanta segurança quanto aclamo.

As infindáveis tardes que passámos a conversar, lembras-te? Os beijos, abraços e toques que ousámos experimentar, tudo isso me inunda, em pequenas cenas sem sentido, mas que me aconchegam a alma expectante que, neste momento, vive em constante sobressalto. Quando será que volto a pousar o meu olhar sob o teu rosto alegre, um pouco infantil, escondido por entre esse ar de pré-adulto, muitas vezes ironicamente censurado por mim, a menina? Será que vou sentir o mesmo de sempre: uma imensa vontade de me recolher nos teus braços, que percorrerão o meu corpo, aos poucos já conhecido pela tua intromissão em mim? São estas as constantes incertezas que me acometem.

Durante as longas noites que me adormecem, acordo em agitação, a minha alma chora por te não enxergar, o meu corpo não acata as ordens que lhe emito e vagueia pela terra dos desgarrados, sem cessar a louca demanda que o coração fustigado lhe impinge. A esperança, essa desvairada, não me abandona; sabe que necessito dela para continuar a acreditar em mim, neste sentimento que nasceu e se enraizou, que me habituou à sua presença… Até que ponto não será uma obsessão? Onde será transposta a barreira da lucidez e embrenhar-me-ei numa dolorosa situação de punição?

Tu continuas pelas tuas expedições e a mim me deixas entregue ao subconsciente conhecedor que me fricciona contra a alma a mágoa de todas as dúvidas assombrosas que subsistem ainda…

Até depois, dir-te-ia eu, até breve, dir-te-ia o meu corpo, até sempre, dir-te-á o meu afecto.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

untitled (like my soul)

A dor, espicaçando-me a consciência, apelando-me para que agisse, acordou-me novamente sobressaltada, mais uma manhã tortuosa. Todo o meu corpo se elevou, já mecanicamente, deixando atrás de mim os consolantes lençóis quentes que amarroto ao longo da noite, durante os mais drásticos sonhos e doces pesadelos.

Caminhava por entre as pedras esporádicas do meu caminho, pensando como te iria encarar mais um dia e enfrentar a voz que me reprimia, mas não sou eu sozinha que posso lutar contra a maré, não sou eu sozinha que vou virar o nosso barco, uma vez que as minhas forças fraquejam e as minhas pernas desfalecem-se, a minha alma.

Sempre te amei sem querer o que quer que fosse, porém uma carícia, um beijo, uma atenção especial sabem tão bem. Tais carícias que alegam o respeito mútuo, não me deixam olhar-te e não to dizer, é isso que mais arde e estilhaça as ínfimas partes de mim que se unem para te alcançar e amar honesta e fielmente. O teu olhar vai-me aniquilando e aumentado esta contradição interior.

Alcancei-te mais um dia, tu, tu lá estavas expectante com a minha chegada, mais uma em que me apresentei com aquela cara constrangida. Tu sabia-lo e compreendias-me, acima de tudo amas-me, a tua capacidade de compreensão e espera deixam-me atónita, só agora conclui definitivamente o porquê de tudo, o porquê do nosso início, recordas-te? Também nessa altura foste tu quem esperou e que teve sempre de compreender; começo agora a entender que o desequilíbrio parte de mim, sou eu, a culpa é minha.

Escrevo, escrevo e limito-me a escrever, algo sem nexo, sem sentido, vai surgindo, constato que as linhas vão sendo preenchidas, porém o meu vazio interior permanece sem ser ocupado, afinal, escrevo apenas porque quero suprimir a falta de algo que se esconde de mim mas que me impinge a sua presença.

Procuro-te, sei que estás dentro de mim, sinto que ainda te tenho dentro de mim, é impossível apagar tudo e ficar somente com as recordações que faíscam, eu não quero ter só as memórias, bastar-me-ão quando envelhecer, por agora, que posso, prefiro ter-te e continuar a ter episódios dignos de memórias que um dia lembrarei com o mais puro e doce sentimento melancólico. Todavia, onde está essa minha parte que só sobressai quando estou sozinha, completamente só, sem qualquer ar humano a sobrevoar-me e me abandona, findando-se, quando os meus olhos chocam com os teus, o teu toque acaricia o meu gesto do modo mais carinhoso e cuidadoso que consegues, e, enfim, estamos nós dois hirtos rodeados por uma multidão que nos observa minuciosa mas disfarçadamente e eu desejo poder sair dali quanto antes, porque me sinto a diminuir, tornando-me uma pequena gota de chuva numa manha pluviosa.

Afinal, para onde desertou ela?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

...o mais verdadeiro...

O frio enregelara-a durante a noite. Procurara-o, o corpo ardente e frígido ansiava o do seu amado desencontrado. Há várias noites que dormia acompanhada da sua própria solidão, sem qualquer vestígio da presença do seu enamorado. Temia o pior, o seu desaparecimento fora macabro, ou talvez premeditado.

Naquelas desesperantes noites, Sofia não dormia, porém permanecia como que adormecida naquele estado apático e, ao mesmo tempo, comovente. A saudade, nas últimas horas, havia sido acicatada pelas memórias concebidas por todas as palavras e gestos que ambos os amantes trocavam nas longas noites que os envolviam.Sofia, repentinamente, acorda deste estado de sonambulismo prolongado. O seu estado de espírito tendia para melhorar, com um misto de raiva e esperança, contudo ela desejava progredir e esse seria o caminho, ou assim o julgava ela.

Passaram-se dias, passaram-se semanas e meses, por fim. Oito meses e trechos de um nono depois, Joel regressa. Na bagagem, para além dos seus olhos verdes acinzentados e uma expressa vontade de alcançar a jamais esquecida sua Sofia, trazia experiências fantásticas, escandalosas para os mais puritanos, escaldantes para os mais curiosos.

Joel dirigiu-se para a última morada em que se encontrara com a sua bela Sofia, o último local em que vislumbrara os belos olhos castanhos de Sofia, que conferiam ao seu rosto uma doçura dulcificada, uma expressão límpida, o último sítio em que o seu toque alcançara a pele macia daquela linda mulher que tanto o fascinava. Chegado ao palacete de amor, deparou-se com novos inquilinos, nova decoração, tudo novo, sem qualquer ínfima recordação física da paixão que ainda lhe assaltava a alma e lhe corria nas artérias.

A procura de Sofia revelava-se dura e é quando menos esperava que a fita: uma mulher bem mais segura de si, isso via-se pelo andar, mais serena, convicta dos seus ideais e valores. Foi intenso o olhar que trocaram e clarividente o turbilhão de sentimentos que emanavam, fruto de tão intensa ausência.Os dois ex-amantes sentiram-se tentados a matar aquela saudade, contudo tinham que cessar essa envolvente vontade; Sofia era agora uma mulher de outro estado, era agora casada e naquela noite tinha decidido não dar azo àquele sentimento que a unia a Joel. Confrontada agora com o amor constrangido dentro dela, não podia, o dever era respeitar o seu dedicado marido.

Joel atordoado, Sofia confusa, foram ambos obrigados a afastar-se, dado que a tentação ousava assombrá-los. Ela, como casada, não o podia permitir, ele como respeitador não a queria compelir. Entre lágrimas e dores na alma, despediram-se e não mais voltar-se-iam a ver, todavia essa certeza não a possuíam ainda. Seguiram as suas vidas e, todas as noites, eram embalados pelas recordações daquele que fora o mais puro dos amores que haviam vivido.

domingo, 13 de fevereiro de 2005

Para ti Piu...

Saí de casa e os meus passos encaminharam-me para o local onde em tempos sabia que habitavas. No caminho recordei as confissões que entregávamos no coração e na alma uma da outra, sim, recordo os tempos em que éramos assíduas confidentes. Relembro as nossas infindáveis conversas telefónicas;

Lembro-me do dia em que, depois de tantas batalhas travadas contra o meu patético orgulho, te dirigi pela primeira vez a palavra honestamente, sem qualquer vestígio de desprezo ou até mesmo de fúria para contigo. Senti os teus lindos olhos azuis esverdeados brilharem, no fundo, tu esperavas por aquele dia há muito tempo. De início foi complicado encontrarmos um ponto de equilíbrio entre as nossas duas personalidades tão distintas e ao mesmo tempo fortes.

Com o passar do tempo deixámos de ser simples colegas, e embrenhámos por uma amizade tão linda, tão pura, (ou era isso que eu pensava). Depois da nossa transformação e vivências como amigas, conquistaste-me, e eu entreguei-me e confiei em ti, facto do qual não me arrependo ainda hoje, tratando-te e experimentando a sensação de ter uma irmãzinha mais nova, pela qual me competia olhar e a qual eu amava. Não podia viver sem ti e isso era indiscutível.

Crescemos bastante juntas, apesar de não nos termos apercebido disso, aprendemos uma com a outra e cada divergência nossa, que, na realidade, ainda foram algumas as superadas, fazia-nos aprender um pouco mais sobre nós próprias, eu sobre ti e tu sobre mim. Sempre fui das poucas que conseguiu lidar abertamente contigo, sempre te defendi perante os mais injustos assomos que ousavam proferir contra ti.

Inesperadamente, todas estas familiaridades foram-me cruelmente tiradas, tu, a minha irmã, afastaste-te invocando razões idiotas, amores não correspondidos, amizades falhadas, desgaste emocional em relação ao imutável grupo em que vinhas vivendo há uns tempos, porém havias-me prometido que relativamente a nós nada mudaria, tudo permaneceria igual, continuaríamos a confiar cegamente uma na outra, continuaríamos a ter as nossas inacabáveis conversas…Na altura, mesmo quando todos discordavam, eu fui contra eles e quis acreditar, todavia, isso não aconteceu e permanecemos mais distantes que nunca.

Esta distância constrange-me e mutila-me os movimentos, sofro sozinha e prefiro não manifestar que me fazes falta, lá está o patético orgulhos. O que mais me custa é a maneira fria e, por vezes, presunçosa como me tratas, a mim, porquê a mim?...julguei que não mo farias a mim, apesar da tua nova circunstância seja assim, como tu começas a ser, contudo tu não o és na realidade, eu conheço-te, tu distingues-te deles e delas, dessas criaturas que se tentam apoderar de ti e que tu tentas agradar inocentemente para te integrares…pelo menos essa é a minha opinião.

Passei pela tua casa, olhei, expectante de que veria o brilho dos teus olhos a observar-me pelo vidro e o teu sorriso contagiante a dar-me as boas vindas…enganei-me redondamente, nada avistei. O teu cheiro, o teu ar alegre e espirituoso ainda vagueia por ali, a tua presença, porém, o teu corpo, o teu “Eu físico”, mudou-se para um qualquer sítio bem longe de mim, um local onde eu não estou autorizada, por ti, a frequentar, um lugar que, na verdade, não é o teu, uma vez que não te podes abrigar em tal melindrado lado, isso simplesmente não combina contigo. A fase de revolta desvaneceu-se, agora reina a angústia e a saudade, pergunto-me repetidamente quando será que voltarás e serás de novo tu, somente tu, na tua mais pura essência; afinal não me fazes falta só a mim, mas sim a todos nós.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2005

Historieta

Ela entrou de rompante no quarto, com os seus cabelos curtos e marotos que saltavam de regozijo na sua perfeitinha cabeça. A sua cara transbordava de felicidade, os seus grandes olhos verdes brilhavam, quais sóis em tardes de primavera, o seu sorriso ampliava-se até à altura das nuvens, os seus pequeninos e bonitos dentes davam mostras de contentamento. O gesto que transparecia era quase infantil, no entanto, não o era ao, mesmo tempo. Era o ar de uma mulher já feita.

Depressa o acordou, depois de abaná-lo incessante e ruidosamente. Gritava como se o Mundo fosse acabar ali e naquele preciso momento:
_ João! Não sabes o que aconteceu!!! Advinha??

Ainda meio estremunhado, dado que acabara de acordar, no seu leito, um leito ainda estranho, ele tentou começar a assimilar tudo aquilo. As feições perfeitas do seu mais recente e, ao mesmo tempo, mais profundo amor começaram a aperfeiçoar-se aos seus olhos e, antes de responder o que quer que fosse, arrebatou-a e exigiu-lhe um esplenderoso beijo de bom dia. Ela encontrava-se bem mais calma agora, respirou fundo e lançou-se nos braços do primeiro que a tocou verdadeiramente, (ou ele nos dela).

Iniciaram o dia a fazer juras eternas de amor e consumaram-nas. João estava cada vez mais perdido naquela paixão que não lhe dera tempo de despedir-se da sua antiga vida de galã, rodeado de belas donzelas, cujo passatempo preferido era dormir nos lençóis de seda do seu ídolo e tornar reais todos os sonhos do "menino". Maria, porém, era a primeira vez que se entregava verdadeiramente a alguém, apesar dos pretendentes que todas as noites lhe trauteavam lindas cantigas junto ao peitoril da janela.

Ambos eram completamente diferentes. Trocaram o primeiro olhar dois meses antes, aquando duma festa de um amigo de longa data, amigo esse comum. Foi notório o interesse despertado entre João e Maria e logo iniciaram uma amena cavaqueira. Passadas semanas haviam-se tornados grandes amigos, amizade essa que aspirava um romance deveras interessante e intenso.

Encontravam-se exaustos, de tantas emoções e aventuras que nos últimos tempos tinham conhecido. A enxerga, enrugada e quente, servia de base para os dois corpos, que momentos antes pareciam um só.

João contemplou-a uma vez mais antes de se erguer e iniciar a sua rotina diária habitual. Maria sentiu-o a olhá-la e virou-se para ele. Ambos riram e ela voltou ao motivo que a trouxera ao quarto, tempos antes, e acordar o seu amante.
_ João, o meu pai quer conhecer-te. Para tal ofereceu-nos uma viagem até à Austrália, onde ele vive agora, como já te tinha dito. Lembras-te, não lembras?
_ Claro que lembro - mentiu João - e para quando essa viagem?
_ Os bilhetes têm a data de amanhã, é melhor começarmos a fazer as malas.
_ Óptima ideia, vamos para a Austrália, para a Cochinchina, contigo vou para qualquer lado - rematou João com o seu charme e voz galante.
Maria fazia planos, sabia-os desde já sonhos, mas João partilhá-los-ia com ela, havia uma certeza cintilante dentro do seu espírito.

Partiram para a Austrália, esperançados e com o sentimento que tudo ia mudar. A realidade é que tudo mudou mesmo. Aquela fatídica viagem afastou-os para sempre, pelo menos afastou-os das nossas vistas que tanto adoravam venerar aquela paixão.

Estarão algures, unidos ou separados, mas algo é certo, aquele foi o maior amor que qualquer um deles viveu. Não tiveram medo de viver aquele romance, simplesmente viveram e foram felizes, muito felizes, certamente sê-lo-ão para sempre, porque era muito o que os unia e pouco o que os separava!!!

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Este post foge ao que costumo escrever, mas apeteceu-me escrevê-lo assim, em jeito de crónica. Não tem qualquer significado especial, fui somente guiada pelos dedos que insistiam escrever no meu já massacrado teclado. Enfim...espero nao desiludir os meus atentos e queridos comentadores =P

sábado, 5 de fevereiro de 2005

Feelings..nothing more than feelings

Olho em minha volta e observo quão injusto este mundo se tornou. É tanta a desgraça, tanta a injustiça, tanta a miséria, e eu aqui, sentada nesta cadeira baloiçante, a sentir-me cada vez mais impotente e tanto ou quanto inútil quanto aqueles brejeiros seres que simplesmente se limitam a vegetar e a fazer parte das estatísticas dos inúteis que não fazem nada da vida.



Sei que não sou eu quem vai salvar o mundo, sei que também eu sou dada como mais um ser vegetante, que divaga na superfície terrestre, gastando oxigénio e contaminando o ar que todos respiram. Porém, outros há que bem mais contaminam o ar que eu, que são bem mais inúteis que eu.



Oh, esta dor, esta raiva, apodera-se cada vez mais de mim…ninguém imagina como eu desejava poder MUDAR o Mundo, ninguém imagina como ardem estas lágrimas que me escorrem enraivecidas, serpenteando-me a face, desaguando toda a mágoa e dor que há muito deixava acumular-se nelas. Os soluços, que tento que sejam silenciosos, pesam, quase me arrancam o coração, deixam-me ofegante, mas não cessam, insistem estouvadamente em me martirizar.



Valham-me os portos de abrigo, valham-me os abraços e carícias ainda recebidas por aqueles que me suportam. A eles, pais, irmão, amigos e amigas, um grande obrigada, por não quererem saber de todo o porquê mas apenas quererem ajudar de braços abertos a vencer nesta luta com a qual todos nós nos confrontamos quando acordamos. Esta luta desleal e incessante, esta luta injusta e na qual entramos, à partida, a perder.



Ainda acredito que vire a sorte deste combate, ainda acredito que eu e os meus, aqueles que amo e com os quais interajo nestes dias que, acabam por ser gloriosos, venceremos, porque vamos simplesmente vencer todas as nossas lutas pessoais, recorrendo a períodos em que teremos de descansar e baixar as armas, junto deles, dos nossos guardiães.



Os nossos guardiães que nos mantêm sãos, servindo de bússolas, de abrigo, de tudo…Vendo bem, nós é que nos servimos deles, contudo, devo acrescentar, que se nos virmos como um sujeito único, também acabamos por servir de guardião. Julgo que alcancei finalmente o ponto que queria quando comecei a escrever.



Afinal de contas, não sou assim tão inútil, sirvo de guardiã dos meus guardiães. Portanto, sou menos inútil. Sinto que um dia, talvez daqui a uns anos, a umas décadas, não sei quando, serei bem mais útil, não só para os outros que já o haverão sido para mim, mas também para mim e, acima de tudo, para aqueles que precisam que o seja.



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Este post parece não fazer grande sentido, isso pouco ou nada interessa, cinge-se a aglomerar alguns sentimentos que se apoderaram dos meus dedos que, por sua vez, começaram a bater desesperadamente nas teclas deste computador já um pouco massacrado. Afinal, um autor, (não diria JAMAIS um escritor), apenas escreve acerca daquilo que o rodeia, acerca daquilo que lê, ou até mesmo acerca daquilo que sonha. Limita-se a escrever sobre qualquer coisa; eu apenas o fiz, não me perguntem porquê este tema, porquê abordado na primeira pessoa, porquê delimitado nestes padrões, uma vez que não saberei responder e limitar-me-ei a dizer APETECEU-ME.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

Vislumbre Negativo

Antes de passar ao post propriamente dito, apenas quero dizer que este post foi escrito durante uma aula de TIC, rodeada de barulho e gente a perguntar o que é que eu estava a fazer. Por outro lado, para além da falta de concentração, a inspiração também não era das divinas, portanto espero não desiludir ninguém, mas já escrevi bem melhor. É a minha opinião, ninguém ma pediu, mas eu dei-a na mesma! =P
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O sofrimento rebenta à flor da pele, aquilo que até aqui conseguia esconder simplesmente começou a evidenciar-se, começou a querer mostrar que na realidade a minha alma vivia em plena prisão, em plena angústia.



Todas as centenas de vezes que me perguntei se não seria melhor esquecer tudo, sabendo que se seguisse em frente apoderar-se-ia de mim a imaculada dor, que, apesar de eu sentir que ela surgiria, sempre a ignorei com todas as minhas forças e pensamentos, sempre a rejeitei, visto que eu simplesmente queria ser feliz contigo, nem que fosse por um simples dia, uma inocente semana, quiçá um mês em que eu julgaria viver o meu auge, a plenitude a que todos aspiramos perante a nossa existência.



O frio tomou conta do meu coração que, sob tamanho abalo, estremeceu. Sei, aliás sinto, que te vou perder e, desta vez, para sempre. A minha alma segreda-me para que tenha calma e aproveite enquanto ainda te posso considerar meu, não como uma propriedade exterior a mim, as como uma essência com a qual me habituei a viver nos últimos tempos, essência que me embebeu num tal estado feliz, num tal estado perfeito. Porém, este estado que considerei por tempos perfeito, afirma-se cada vez mais como uma utopia, que um dia eu quis tornar realidade, que um dia eu venerei e na qual eu cri.



Tudo isto agora me parece longínquo, parece que se sucedeu há muito tempo. Talvez assim o seja, talvez eu persista no mundo do sonho e todo este medo, toda esta angústia, todo este sofrimento não passe duma idiotice, não passe de um grande medo. Pode, na verdade, ser irreal.



Não parece coerente todo este estado contraditório em que me encontro, contudo fui eu quem foi assombrada por esta onda de incerteza, acompanhada de muito temor.



Era magnífico que amanhã, ou até mesmo hoje, acordasse, como habitual, olhasse para o Mundo real, o sol brilhasse, tal como todos os dias, e na minha memória persistisse apenas a nuvem acinzentada de um pesadelo que nem eu me lembro muito bem, uma vez que o meu inconsciente preferiu esquecê-lo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

O grito de revolta daqueles que se sentem pressionados

Antes de passar ao post propriamente dito tenho duas coisas a dizer-vos. A primeira é agradecer-vos pelos comments que me fizeram no post anterios, muito obrigada do fundo do coração. Foi um artigo complicado de escrever, que não pretendia angariar comments, mas que, pelos vistos, também vos tocou a todos vós.
Em segundo lugar, quero dizer que este post é para todos vocês, que se sentem pressionados, que se sentem observados pelos outros. Embora tenha uma escrita intimista e na primeira pessoa, expressa os sentimentos de todos vocês que me acompanham e que me transparecem a sensação de que se sentem francamente assim, tal como o post descreverá, sem tempo, ousaria dizer quase a sufocar.
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A alma grita e quer fazer-se ouvir. Os olhares que me atiram, por vezes reprovadores, por outras vezes aprovadores, amedrontam-me e fazem-me pensar mais do que duas vezes, não ouso proferir aquilo a que o meu instinto me incentiva.



O esforço de agir correctamente esgota-me todas as forças, simplesmente sufoca-me; a minha abordagem à minha própria existência é pensada e repensada, tende a não desiludir os meus seres circundantes, julgando eu que se direcciona à não desilusão de mim mesma.



Pergunto-me se toda a saudade que me assombra, a saudade que me inunda sem pedir licença, a saudade gritante que se revolta dentro de mim, a saudade de ser eu própria, sem pensar. Quero recuar até à época em que não tinha todos os olhos postos em mim; não quero “o agora”, em que alguns se mostram esperançados em relação a mim e ao meu futuro, tal como eu própria



O medo da desilusão, não da desilusão dos outros, mas mais o medo de me desiludir a mim, mostra-se cada vez mais presente, subjacente à minha vida, subjacente às minhas acções.



Quero tão pouco, porém tanto, ao mesmo tempo; desejo amar-te, desejo amar-vos, desejo amar-me, contudo não atingi ainda a plenitude que me permita fazê-lo, porque a injusta sociedade persiste de olhos postos em mim, sociedade essa que não só me avalia a mim, avalia-nos a todos nós, amigos ou inimigos.



Tem do conta que te quero para mim, tendo em conta que para além de te querer amar livremente também quero sair bem sucedida. As prioridades são agora aquilo que me fazem entrar em confronto interior. A vida sem o vosso amor não é vida, porém sem sucesso também o não é. Resta-me a mim, atirada ao acaso, definir e estabelecer se posso ou não reunir ambos num só, aglutinar os meus dois maiores desejos e coabitar com eles, seguir a velha máxima “na vida há tempo para tudo”.



Só assim viveria no meu auge, tenho essa certeza no meio de tantas dúvidas. Até lá, aflige-me ter de viver em perpétuo conflito e, ao mesmo tempo, expectante. Todavia, esperançada que essa plenitude a que os meus ideais aspiram concretizar-se-á, nem que seja quando tiver a conotação mais inútil que um dia eu julguei que ela poderia assumir.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

Para ti, Sara

Hoje acordei bem cedo, sobressaltada, e uma lufada de ar inundou-me com a maldita saudade que há muito adormecera mas que, sem qualquer aviso prévio, voltou acompanhada da sua plenitude em intensidade.



Tudo à minha volta recuou no tempo e deparei-me connosco, juntas de novo, arquitectando planos que nunca iríamos concretizar, dando tantas gargalhadas quanto cumplicidades partilhávamos.



Costumávamos sentar-nos naquele pedestal de pedra fria, que nos abandalhava as nossas calças muito na moda quando estava molhado, lembras-te? Aí ríamos de nós, ríamos do Mundo; o Mundo cabia-nos na palma das mãos e nos, por momentos, ao longo daquelas fantásticas tardes, sentíamo-nos heroínas.



Foram tantos os momentos que relembrei e tão poucos ao mesmo tempo, foi tal a intensidade desta profunda saudade que uma lágrima triste e solitária ousou rolar-me pela face, uma lágrima com a mesma solidão e tristeza que me deixaste quando injustamente partiste, quando estupidamente pensaste que, para ti, já nada fazia sentido e que nos poderias abandonar para sempre, que poderias abandonar-me.



Passaram quase 3 anos e eu já cresci, por causa de ti cresci, uma vez que me obrigaste a fazê-lo naquele dia em que soube que já não ia mais gozar com a vida e com o Mundo contigo, que já não partilharíamos todas as cumplicidades, que já não confidenciaríamos as nossas aventuras, que já não teríamos todas as nossas intermináveis conversas. Nesse dia aprendi que não mais poderia menosprezar o valor que era viver e o valor que era ter amigos do meu lado e aproveitar todos os momentos em que estaria próxima de todos eles e com eles.



Ainda hoje me pergunto “PORQUÊ? PORQUÊ LOGO TU?”, não só me pergunto a mim, mas também te interrogo a ti, invoco todas as questões que depois deste tempo ainda persistem em me assombrar, dúvidas que partiste sem me esclareceres. Porém, todas estas perguntas são vãs, nada nem ninguém me consegue responder.



Dou comigo a pensar como teria sido se ainda com todos nós estivesses, os verdadeiros amigos que hoje continuam a sentir a tua falta e se interrogam sobre o porquê desta tua viagem sem volta. Queria-te aqui de novo, contudo sei que não é possível, visto que o tempo não perdoa e não nos permite voltar atrás.



Onde quer que estejas, pois duvido que a nossa existência se resuma a uma curta passagem pelo mundo empírico em que me encontro neste momento, espero que me vejas e me acompanhes e que saibas que este post é só para ti, porque eu jamais esquecerei tudo, jamais te esquecerei a ti!!!



terça-feira, 4 de janeiro de 2005

Mundo Real versus Mundo do Sonho

A noite revelou-se mais uma etapa tortuosa. Pensamentos corriam-me, qual flechas desvairadas, por todas as artérias e bloqueavam-se o descanso. A frustração, por fim, assombrou-me de modo intenso e perturbador, por mais que tentasse, por mais que me esforçasse, a única coisa que conseguia era acentuar estes bloqueios do meu sono. A fadiga estava estampada por todo o meu ser, as pálpebras pesavam, os olhos ardiam, o corpo repentinamente tornava-se um fardo complicado para carregar, porém não conseguia adormecer, o joão-pestana ousava abandonar-me.



Sem me aperceber, ficando eu grata por isso apesar do meu espanto, mergulhei profundamente no meu mundo predilecto, deixei-me abater pelo cansaço, mas sabia que a noite servia para ter grandes aventuras neste meu mundo.



Depois de jornadear vielas e travessas, becos sem saída e largos, escoar toda a frustração que minutos antes, (ou devo dizer horas?), sentira, um relâmpago de deslumbramento apodera-se de mim, aquele refúgio fascina-me, aquele simples casebre, o qual todas as noites penetro, consegue cada vez mais ajustar o meu subconsciente e fazer com que me regozije, sim, é sempre uma experiência bastante prazenteira.



Um som forte, algures, atreve-se a despertar-me deste mundo maravilhoso que, embora pudesse atingir todas as noites, apenas alcanço excepcionalmente e com determinados estados de alma.



Acordei, lá fora já amanhecera, mais um dia gelado, desagradável mas apetitoso ao mesmo tempo. Contemplei o sol que também começava a espevitar-se perante os olhos ainda pestanejantes de muitos, que tal como eu, divagavam desta vez no mundo quotidiano e sobre as suas monótonas vidas.



Havia um longo dia pela frente, decisões teriam de ser tomadas, trabalhos feitos, conversas dispostas, acções planeadas, enfim, uma vida para ser vivida, desta feita, num mundo comum a todos e no qual não há maneira de nos refugiarmos de tudo e, sobretudo, de nós próprios. O sono e a fantasia daquele mundo já me abandonaram, era tempo de ir viver e expor todos os meus trunfos na mesa diurna da existência, era tempo de ir para o exterior simplesmente VIVER!!!!!!

sábado, 1 de janeiro de 2005

A mudança pessoal

Antes de iniciar a escrita deste novo post (ano novo, post novo) devo pedir a todos desculpas antes de mais pelo última contribuição que tive aqui neste blog, uma vez que estava um pouco aquém das minhas próprias expectativas, portanto desiludiu-vos a vós certamente, e por há tanto tempo não me designar a escrever, mas diguemos que a minha inspiração já teve melhores dias e depois daquele post fiquei com o ego um pouco abandalhado...



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Deparo-me com dias intensos, nos quais as emoções parecem não só querer transbordar da minha pele, de todos os meus poros, como também se transfiguram em ínfimas partículas circundantes dos meus interlocutores que insistem em transmiti-las para mim, que insistem inundar-me com tantas situações novas que muitas vezes me amedrontam, que muitas vezes me fazem sentir mais do que insignificante e desconhecida no meu próprio quotidiano. Sinto-me um ser desprevenido e um pouco à deriva, toda a minha existência parece ser insignificante, tudo aquilo que já presenteei enquanto viva aparenta ser uma simples acha na fogueira passageira que todos têm a partir do momento em que são gerados.



O tempo parece querer brincar comigo, julga-se senhor das existências supremas, julga que tem o poder de me atormentar deste modo e acicatar a minha singela vida, tantas belas vezes apática, tentando fazer tal descortezia, que a mais não seria dizer que tenta fazer com que eu prospere, com que eu evolua. Mas que direito tem tal senhor? Que direito têm de nos injectar amadurecimento e decisões complexas? As sensações quotidianas mudam e muitas vezes há quem viva iludida, porque cuida que pode amadurecer quando muito belamente entende; outros há que se consideram fora da lei da maturidade, altivos que não obedecem ao tempo e que há muito que o ultrapassaram. Porém foi logo a mim, fui logo eu aquela que não conseguiu passar imune às teias que o supremo tece cada dia que passa.



É comum naqueles que vão crescendo, chegar a uma certa altura, o ponto de crescimento em que actualmente me incluo, que calculam saber tudo, que nada os preocupa; são apenas eles próprios e consideram que isso é o suficiente. Quanto à sua sabedoria sobre a guerra a que comummente preferem chamar vida, julgam-na infinita e ao mesmo tempo transbordante, pensam que nada mais é necessário aprender. Também aqui eu saí diferente; por um destes dias, apercebi-me de que nada de nada sabia, que simplesmente a minha circunstância ao tornar-se mais abrangente me atordoava; apenas desejava correr para o meu refúgio de sempre e aí aliviar a alma, a angústia e toda a incerteza que me invadiam. Por mais que tentasse expulsar aquela sensação aflitiva, a frustração crescia, o peso de ter de crescer fazia sentir-me intrusa.



Tentei exprimir-me, tentei explicar-me, tentei certificar-me se seria normal todo este rodopio que me transformava em mais uma vencida, envergonhada confesso que até pensei fugir. Toda esta quantidade sem peso nem medida de novas impressões esvaíram-me toda a força e poder de controlo que me convencia ter, fiquei simplesmente exausta.



Adormeci, tão tarde que pensava já cedo ser. Este sono foi consolador, no Mundo dos Sonhos pude aliviar todos os meus pesadelos existenciais e deixar toda a frustração e angústia das minhas mais recentes vivências. A minha alma ficou de novo limpa e consegui finalmente, depois de quase sufocar, lidar com toda a mudança que se avizinhava e que este dia, semana, mês, talvez ano, me ofereceu sofregamente e a qual consegui, apesar de dificilmente, ultrapassar.



Podia apenas dizer que foi um dia complicador, mas este post é para dedicar à minha Zefa, ao meu mano Ruivo e a todas as minhas “Zefas” e “Ruivos”, porventura a mim própria, porque todos temos destes dias!!!!!