sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias

Dessas cartas de amor
É que são Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente Ridículas.)

Álvaro de Campos
Querido,

Hoje olhei-te no dédalo de sentimentos que me penetraram. Quis cumprimentar-te quando longinquamente te avistei, mas não pude…Ias numa qualquer direcção oposta, inatingível e intocável para mim.
Meu querido, hoje quis passear contigo, por jardins interditos, exclusivos da minha mente; quis partilhar contigo um ocaso, com as nossas mãos enlaçadas, os nossos braços a rodear o corpo um do outro; quis beijar-te; quis ofertar-te todo o carinho que gero bem dentro de mim, longe de olhares, longe de suspeitas, longe de tudo.
Meu querido, hoje acordei triste por, mais um dia, viver sem te ter; por, mais um dia, apenas sobreviver; triste por nada ser suficientemente grande para mostrar o que palavras e actos jamais farão.
Meu querido, hoje acordei só para te escrever, sem dizer nada, para além de um tanto indizível. Escrevi e nada disse; palavras desconexas flúem sem pedir permissão e eu sinto-me ignara por não poder, não querer, não conseguir, enfim, não dizer o que todos esperam e querem. Também esperas por esse todo demonstrável mas intraduzível?
Meu querido, por hoje adormecerei com o travo desta saudade infundamentada; por hoje sonharei com os teus lábios; por hoje ficarei com o desejo insaciável de te desejar uma boa noite e ceder a impulsos e promessas, um dia infantis.

Com um beijo sôfrego e apaixonado da sempre tua,
Gui

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Caminhavas rua abaixo, calmamente. Nunca ostentavas urgência ou pressa. Tudo te fluía tão doce e ternamente…

Mão esquerda no bolso das calças sovadas, tão características…

Na mão direita seguravas o teu cigarro matinal.

Continuavas a descer a rua, sempre na mesma passada. Ninguém te adivinhava já atrasado para um qualquer compromisso inimaginável.

As costas curvadas e olhos no chão.

Nunca apreciaste o chapéu-de-chuva que tantas vezes tentámos partilhar, mas em vão; sempre parecia termos ultrapassado um qualquer dilúvio caseiro. A chuva frágil, quase tão frágil como eu, importunava-te. O cabelo, sempre rigorosamente domado pelo teu gel aromático, desobedecia-te, mudando o lugar que previamente lhe havias destinado.

Saltavas as poças fugidiamente, mas sempre sem pressa.

Rua abaixo e eu observava-te (ou imaginava observar-te).

Subia a rua sem te ver, sem te querer ver; sempre com o meu ar apressado; sempre com o meu ar incomodado, pela chuva que me gotejava as lentes dos preciosos óculos.

Desde que decifrei a tua silhueta no horizonte, distinta, sempre distinta, por entre as casas amareladas pelo tempo, as árvores despidas pela estação, os carros molhados pela chuva miúda, planeio um qualquer “bom dia” repleto de palavras ou de uma natureza diferente, especial, sentimentalista, mágica; porém, só me ocorrem carimbos ou selos lambidos.

Sabes o que durante tanto tempo escondi, até de mim mesma.

Sabes o que ainda hoje não manifesto, visto que me consegues despir de artefactos e decorações que, todas as manhãs, pesadamente coloco.

Ergues finalmente o olhar a uns escassos centímetros. Estás tão longe.

Sorris, mostrando os lábios sedutores e os dentes divinamente perfeitos. Perco-me.

Perco-me no brilho do teu olhar e só articulo um simples “olá”, tão tacanho quanto eu.

“Olá”, ainda a sorrir.

“A chegar tarde de novo?”, em uníssono. Não contivemos a gargalhada.

Ousei um toque casual na tua mão, propositadamente. Estavas frio e o cigarro ainda ardia, extinguindo-se por entre as palavras que não proferia. Com um beijo terno na face cessavas o nosso encontro por hoje.
Seguiste o teu caminho, enquanto eu ficava enraizada na gravilha solta. Via-te a afastar…Tão longe. Tão perto. Abarquei aquela saudade melancólica.

Pus a minha mão esquerda no bolso.

Coloquei a mão direita na face. Ainda ali estavas; a tua essência ficara naquele breve toque roubado.

Acendi um cigarro que não era meu; curvei as costas e olhei para a calçada disforme, enquanto caminhava subtilmente. Não era eu.

“Até amanha”, suspirei. E segui.