quarta-feira, 3 de maio de 2006

Aquele quarto escuro

As cortinas amarelecidas pelo tempo soltaram-se e as vidraças deixaram a aurora entrar, acordando-me dum estado de dormência impenetrável e anestesiante.

Há muito que só o meu corpo vagueava, enquanto a minha alma me abandonava, depois de se ter soltado por estas vidraças que, logo de seguida, me aprisionaram.

Quis voar também, fugindo por entre as pequenas nesgas que me acicatavam o desejo de enxergar o mundo lá fora. Contudo, não podia porque, um dia, me levaste pela mão sem que me chegasse a aperceber; porque, um dia, levaste essa chave que me deixou isolada naquela escuridão; porque, um dia, e uma vez mais, tu seguiste e eu fiquei enrolada e desgrenhada nos lençóis encrespados de um prazer quase instantâneo, onde os teus braços enlaçavam o meu corpo e eu não os conseguia evitar pela fraqueza de um passado tão estimulante.

Por que me continuavas a chamar para o teu mundo, quando já não devia pertencer-lhe, quando já não queria pertencer-te?

O sol que me chicoteava fez-me recordar momentos tão longínquos…ou seriam tão próximos?... Não sei. O travo doce da tua pele ainda não se evaporara dos meus lábios, a marca do teu toque persistia no meu corpo cansado e o teu odor, tão gentil, ainda me perseguia a cada movimento.

Estou sozinha, sem ti, sem mim, somente com uma nostalgia dilacerante que me rasga a razão e revolta contra a minha imbecilidade de acreditar em histórias de amor impossíveis. Uma série de porquês ecoa na minha cabeça; vozes imponentes, gélidas, calmas sobressaem por entre o emaranhado de emoções que me inundam.

Não te quero. Odeio-te.

Deixaste no teu rasto o tal livro aberto que, no passado, folheávamos, tocávamos e líamos, enquanto nos beijávamos sem a pressa do amanhã. Era a história de dois amantes, que nada tinham a ver connosco, mas que nos fazia rir. Mas agora, porquê?

Eu não te amava e tu sabia-lo. Tu não me amavas e eu sabia-o. Porquê? Por que deixamos um passado amoroso tornar-se um presente amante, um presente de luxúria e desejo? Por que é que uma amizade nunca foi possível entre nós, sem que nos tocássemos, enlaçássemos e fôssemos um só?

Se calhar desejo-te e tu desejas-me. Se calhar amo-te e tu amas-me.

Será que algum de nós sabe o que é amar? Será que algum de nós sabe o que é amor? Somos unicamente dois dementes de prazer, dois egoístas, depois de entrarmos naquelas quatro paredes tépidas, onde esquecemos um mundo sensível, com vidas e sentimentos adormecidos e encostados na porta que trancamos com a chave que TU sempre guardas e EU sempre tento e quero esquecer.

Odeio-me. Odeio-te.

Odeio essa chave que insistes não perder. Odeio esta chave que encontro dentro de mim quando a minha memória a dá como extinta.
Odeio aquelas paredes, aquelas cortinas, aqueles lençóis devassados, aquelas vidraças…Saí! Agora voou eu e tu acenas-me das vidraças por onde me libertei. Voei e já não me odeio, enquanto sei que continuas a guardar a chave hedionda daquele mundo inteligível onde me esperas.

Já não odeio; já não amo; sobrevoou tudo o resto sem me atingir, sem que me atinjam.