Todas as centenas de vezes que me perguntei se não seria melhor esquecer tudo, sabendo que se seguisse em frente apoderar-se-ia de mim a imaculada dor, que, apesar de eu sentir que ela surgiria, sempre a ignorei com todas as minhas forças e pensamentos, sempre a rejeitei, visto que eu simplesmente queria ser feliz contigo, nem que fosse por um simples dia, uma inocente semana, quiçá um mês em que eu julgaria viver o meu auge, a plenitude a que todos aspiramos perante a nossa existência.
O frio tomou conta do meu coração que, sob tamanho abalo, estremeceu. Sei, aliás sinto, que te vou perder e, desta vez, para sempre. A minha alma segreda-me para que tenha calma e aproveite enquanto ainda te posso considerar meu, não como uma propriedade exterior a mim, as como uma essência com a qual me habituei a viver nos últimos tempos, essência que me embebeu num tal estado feliz, num tal estado perfeito. Porém, este estado que considerei por tempos perfeito, afirma-se cada vez mais como uma utopia, que um dia eu quis tornar realidade, que um dia eu venerei e na qual eu cri.
Tudo isto agora me parece longínquo, parece que se sucedeu há muito tempo. Talvez assim o seja, talvez eu persista no mundo do sonho e todo este medo, toda esta angústia, todo este sofrimento não passe duma idiotice, não passe de um grande medo. Pode, na verdade, ser irreal.
Não parece coerente todo este estado contraditório em que me encontro, contudo fui eu quem foi assombrada por esta onda de incerteza, acompanhada de muito temor.
Era magnífico que amanhã, ou até mesmo hoje, acordasse, como habitual, olhasse para o Mundo real, o sol brilhasse, tal como todos os dias, e na minha memória persistisse apenas a nuvem acinzentada de um pesadelo que nem eu me lembro muito bem, uma vez que o meu inconsciente preferiu esquecê-lo.