Ele acompanhou-me, deixando-me no cimo das escada, como que atirada às feras de um passado que regressara.
Pareciam centenas, os olhos que se cravavam em mim. Anos atrás, descera aquelas escadas, mais inocente, mais leve, mais segura de que o mundo jamais poderia ruir, com um qualquer par fugaz, que me ladeava não muito duradouramente. Sempre fora assim.
Um sorriso, que deveria contagiar, era visível no meu rosto discretamente maquilhado. Parei para cumprimentar as caras familiares, enquanto prendia a mão dele com a minha. Os braços desenlaçaram-se depois dele me beijar carinhosamente na face, como um irmão mais velho, num gesto que me encorajou.
Hoje, sozinha, descia aquelas escadas, mas já não era inocente; já tinha sobre mim o peso de desilusões e a consciência de que o mundo é um conjunto de vários mundos que se desmoronam para logo a seguir se reconstruírem.
Hoje, sozinha, sem acompanhantes efémeros, senti-me mais acompanhada do que quando um braço me envolvia a cintura e me fazia pousar para uma qualquer fotografia “para mais tarde recordar”.
Hoje, sozinha, relembrei uma série de “ontens”, todos os anos especiais, enquanto descia aquelas escadas.
Hoje, sozinha, encontrei-me, porque não preciso dos teus braços a envolverem-me, do teu sorriso para me fascinar, da tua voz a aconchegar-me num refúgio de esperanças vãs, dos teus olhos para me deliciarem; porque, simplesmente, já nem preciso de te imaginar.
Hoje, depois de ter descido sozinha, vi-me a observar-te a ti, enquanto descias, não sozinho, mas tão sozinho quanto eu, simplesmente porque a tua vida é um mistério subtil, que guardas através de gestos e palavras premeditados, que eu não compreendo, nem já tentada me sinto a compreender.
Estávamos os dois, com os outros, comos os outros, no salão. Cumprimentámo-nos afectuosamente, tal como sempre. Estavas bonito. Puxei-te pela gravata, irrepreensivelmente direita, e obriguei-te a concederes-me a honra duma dança, a dança que terminou os sentidos sentimentos infundados, enquanto pousava a cabeça no teu ombro e tu me surpreendias perante a tua agilidade de bailarino, que eu desconhecia.
Há tantas coisas que desconheço, senhor do mistério. Há tantas coisas que ainda me surpreendem, senhor da subtileza.
Contudo, por tantas outras coisas, repeli, ali, naquele chão poeirento, repleto de infindáveis memórias calcadas pelo tempo, o amor não amado de sempre, que eu julguei um dia eterno, enganando um coração palpitante e pulverizado.
Agora, sozinha, revejo-me a deslizar pelo chão do salão, com um vestido exuberante e comprido que nunca existiu, numa dança concretizada somente nos recônditos cantos da minha imaginação, num abraço largo que, em vez de ser daqueles com que partilhei a feliz noite de encanto, era teu.
Pareciam centenas, os olhos que se cravavam em mim. Anos atrás, descera aquelas escadas, mais inocente, mais leve, mais segura de que o mundo jamais poderia ruir, com um qualquer par fugaz, que me ladeava não muito duradouramente. Sempre fora assim.
Um sorriso, que deveria contagiar, era visível no meu rosto discretamente maquilhado. Parei para cumprimentar as caras familiares, enquanto prendia a mão dele com a minha. Os braços desenlaçaram-se depois dele me beijar carinhosamente na face, como um irmão mais velho, num gesto que me encorajou.
Hoje, sozinha, descia aquelas escadas, mas já não era inocente; já tinha sobre mim o peso de desilusões e a consciência de que o mundo é um conjunto de vários mundos que se desmoronam para logo a seguir se reconstruírem.
Hoje, sozinha, sem acompanhantes efémeros, senti-me mais acompanhada do que quando um braço me envolvia a cintura e me fazia pousar para uma qualquer fotografia “para mais tarde recordar”.
Hoje, sozinha, relembrei uma série de “ontens”, todos os anos especiais, enquanto descia aquelas escadas.
Hoje, sozinha, encontrei-me, porque não preciso dos teus braços a envolverem-me, do teu sorriso para me fascinar, da tua voz a aconchegar-me num refúgio de esperanças vãs, dos teus olhos para me deliciarem; porque, simplesmente, já nem preciso de te imaginar.
Hoje, depois de ter descido sozinha, vi-me a observar-te a ti, enquanto descias, não sozinho, mas tão sozinho quanto eu, simplesmente porque a tua vida é um mistério subtil, que guardas através de gestos e palavras premeditados, que eu não compreendo, nem já tentada me sinto a compreender.
Estávamos os dois, com os outros, comos os outros, no salão. Cumprimentámo-nos afectuosamente, tal como sempre. Estavas bonito. Puxei-te pela gravata, irrepreensivelmente direita, e obriguei-te a concederes-me a honra duma dança, a dança que terminou os sentidos sentimentos infundados, enquanto pousava a cabeça no teu ombro e tu me surpreendias perante a tua agilidade de bailarino, que eu desconhecia.
Há tantas coisas que desconheço, senhor do mistério. Há tantas coisas que ainda me surpreendem, senhor da subtileza.
Contudo, por tantas outras coisas, repeli, ali, naquele chão poeirento, repleto de infindáveis memórias calcadas pelo tempo, o amor não amado de sempre, que eu julguei um dia eterno, enganando um coração palpitante e pulverizado.
Agora, sozinha, revejo-me a deslizar pelo chão do salão, com um vestido exuberante e comprido que nunca existiu, numa dança concretizada somente nos recônditos cantos da minha imaginação, num abraço largo que, em vez de ser daqueles com que partilhei a feliz noite de encanto, era teu.