domingo, 26 de novembro de 2006

Ele acompanhou-me, deixando-me no cimo das escada, como que atirada às feras de um passado que regressara.

Pareciam centenas, os olhos que se cravavam em mim. Anos atrás, descera aquelas escadas, mais inocente, mais leve, mais segura de que o mundo jamais poderia ruir, com um qualquer par fugaz, que me ladeava não muito duradouramente. Sempre fora assim.

Um sorriso, que deveria contagiar, era visível no meu rosto discretamente maquilhado. Parei para cumprimentar as caras familiares, enquanto prendia a mão dele com a minha. Os braços desenlaçaram-se depois dele me beijar carinhosamente na face, como um irmão mais velho, num gesto que me encorajou.

Hoje, sozinha, descia aquelas escadas, mas já não era inocente; já tinha sobre mim o peso de desilusões e a consciência de que o mundo é um conjunto de vários mundos que se desmoronam para logo a seguir se reconstruírem.

Hoje, sozinha, sem acompanhantes efémeros, senti-me mais acompanhada do que quando um braço me envolvia a cintura e me fazia pousar para uma qualquer fotografia “para mais tarde recordar”.

Hoje, sozinha, relembrei uma série de “ontens”, todos os anos especiais, enquanto descia aquelas escadas.

Hoje, sozinha, encontrei-me, porque não preciso dos teus braços a envolverem-me, do teu sorriso para me fascinar, da tua voz a aconchegar-me num refúgio de esperanças vãs, dos teus olhos para me deliciarem; porque, simplesmente, já nem preciso de te imaginar.

Hoje, depois de ter descido sozinha, vi-me a observar-te a ti, enquanto descias, não sozinho, mas tão sozinho quanto eu, simplesmente porque a tua vida é um mistério subtil, que guardas através de gestos e palavras premeditados, que eu não compreendo, nem já tentada me sinto a compreender.

Estávamos os dois, com os outros, comos os outros, no salão. Cumprimentámo-nos afectuosamente, tal como sempre. Estavas bonito. Puxei-te pela gravata, irrepreensivelmente direita, e obriguei-te a concederes-me a honra duma dança, a dança que terminou os sentidos sentimentos infundados, enquanto pousava a cabeça no teu ombro e tu me surpreendias perante a tua agilidade de bailarino, que eu desconhecia.

Há tantas coisas que desconheço, senhor do mistério. Há tantas coisas que ainda me surpreendem, senhor da subtileza.

Contudo, por tantas outras coisas, repeli, ali, naquele chão poeirento, repleto de infindáveis memórias calcadas pelo tempo, o amor não amado de sempre, que eu julguei um dia eterno, enganando um coração palpitante e pulverizado.

Agora, sozinha, revejo-me a deslizar pelo chão do salão, com um vestido exuberante e comprido que nunca existiu, numa dança concretizada somente nos recônditos cantos da minha imaginação, num abraço largo que, em vez de ser daqueles com que partilhei a feliz noite de encanto, era teu.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Em vão

A chuva estilhaçava a vidraça aparentemente inquebrável, enquanto o interior do quarto se inundava de desilusões, tristeza, angústia e frustração. No mar de desespero naufragavam sonhos jamais partilhados, sonhos tão estupidamente impraticáveis e infantis que me faziam rir, enquanto um bote salva-vidas os tentava resgatar.

Em vão…

Tudo passa em vão, e só as cicatrizes ficam. Na boca fica sempre o travo salgado do desejo frustrado, da tentativa infrutífera, da dor proveniente da amargura que é a desilusão.

Em vão…

O pequeno salva-vidas navega contra a tumultuosa corrente, sem pedir autorização para remar em tais águas tenebrosas, cheias de decretos e leis desconhecidas.

Em vão…

A felicidade ofusca ao longe, como que um farol abandonado e perfeitamente alinhado no horizonte, chicoteando os areais longínquos, donde te aceno. No fundo, também tu me deslumbras e me fazes agir de modo peculiar. Dizem que há amores, que há paixões, que há obsessões. Tu és somente o meu farol, que não posso tocar, que não posso atingir, mas que me ilumina e me guia, evitando naufrágios quando uma tempestade efémera me ameaça.

Em vão…

O mar indistinto que te banha, que te penetra, a mim afoga-me; o mar que te completa, a mim esgota-me. Afinal, serás tu o mar que me arruína? Questiono-me e não atinjo qualquer resposta plausível, que me faça regressar à calma de uma manhã de Verão, quando o batel boiava ao sabor das ondas, sem pressas de fugir a um dilúvio.

Em vão…

Fecho os olhos e a chuva cessa. Adormeci sem mais um dia me encontrar no meio de um nada tão imenso, que me submerge quando sonho e luto. Porém, hoje limitei-me a espreitar lá para fora e a sentir-me como um mar tempestuoso, prestes a arrasar toda a costa e a deixar o seu rasto espumoso, que apaga recordações, cria ilusões mas que, como tudo, divino fado, também se evapora.