As horas passam impunes por entre as rugas da testa que se franze perante livros empilhados, uns sobre os outros. A noção de tempo surge nublada e difusa, sem que seja denotada a sua presença.
Sentada à sua secretária lascada pelo tempo, ela não sabe que as horas a espreitam por entre as vidraças, sussurrando, minuto a minuto, doces palavras que, contudo, não a fazem sequer erguer o olhar e pousá-lo no sol que se põe mais uma vez, no horizonte mesclado de cor-de-rosa.
Quantos sóis terão passado desde a última vez que as suas mãos se enlaçaram e os seus olhos se regozijaram com um tímido sol de Outono, despedindo-se no horizonte? Ela não sabe, nem pensa nisso… Talvez creia que isso foi ontem, que foi só ontem que a perfeição a abandonou, com a desculpa de uma viagem qualquer, para um lugar distante, onde os sóis se põem de hora em hora, e onde as horas se tocam descoordenadamente, sem a preocupação de fazerem sentido.
Já não faz sentido querer descodificar pensamentos do momento, que surgem num segundo e, no outro, se desvanecem porque alguém pergunta “Tem horas?”. Ninguém sabia que ela não costumava trazer as horas na algibeira, pois guardava-as preciosamente na caixinha do tempo, cuidadosamente bordada por uma mão delicada e sem pressa.
Agora, as horas tinham fugido da caixinha e espreitavam-na do lado de fora, da janela do tempo, a quem ela já não permitia entrada e recusava visitas sem motivos plausíveis.
Agora, já nada importava e o visor circular com dois ponteiros não tinha nexo.
Agora, ela só queria pousar o lápis amarelecido pelo seu companheiro de outrora, fechar os olhos e embrenhar-se num sonho nítido e limpo, em que a perfeição não seria ultrapassada por um tic-tac imaginário, que ousasse interromper o sono.
Antes de se recostar na cadeira e depois de pousar o lápis, olhou a vidraça; lá fora ainda estava escuro, solitário e silencioso.
Ainda não nascera um outro sol…
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