sábado, 20 de dezembro de 2008

Hoje um bocado diferente...
Hoje o desafio foi-me formulado pela Daniela :D
O desafio consiste no seguinte:

1 - Escolher uma foto individual;
2 - Escolher uma banda ou artista;
3 - Responder às perguntas do desafio com músicas da banda/artista escolhido;
4 - Desafiar mais quatro pessoas.

Cá vai:


Banda/Artista: The Gift


1. És homem ou mulher? - Elisa
2. Descreve-te - Ok!Do you wanna something simple?
3. O que as pessoas acham de ti? - An Answer
4. Como descreves o teu último (antes do actual) relacionamento? - So Free (3acts)
5. Descreve o estado actual da tua relação amorosa - Pure
6. Onde querias estar agora? - 1977
7. O que pensas a respeito do amor? - The Difference Between Us
8. Como é a tua vida? - Cube
9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo? - Changes
10. Escreve uma frase sábia - "Obrigado por saberes cuidar de mim, Tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou, e se ao menos tudo fosse igual a ti"


As próximas vítimas são: Manuel, Giga, Fabiana, Cláudia Falé

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A chuva já não rompe as vidraças da janela do primeiro andar frio; agora, o sol penetra-a como que numa manhã de Primavera antecipada.
Os olhos brilham-lhe, como se de uma criança se tratasse, por detrás das lentes dos óculos envelhecidas com o tempo. Os estilhaços de vidro que lhe laceravam o coração desapareceram, enquanto as feridas vão sarando para darem lugar a cicatrizes perfeitas, mas que irão persistir, sem que a recordação ouse apagá-las.
O cenário de calma, ilustrado pelas árvores despidas de Outono, tranquiliza-lhe os demónios interiores que, até há bem pouco, se flagelavam mutua e continuadamente, desde há tempos que a memória já não alcança.
Parece que já foi há tanto tempo…
Suspira e acorda com um sorriso, pensando em como o sol poderá brilhar durante todo o dia…
Ah, menina… Tens saudades dos tempos em que o sorriso não era afectado por períodos de crises tempestuosas, quase insolucionáveis, batalhados com o sofrimento e angústia que sempre escondes com a máscara de pateta feliz?
Ah, menina…Quanto aprendeste, tu? Quanto cresceste, tu? Quanto te moldaste à passagem do tempo?
Ah, menina…Quanto ganhaste? Quanto amealhaste para ti, no teu recôndito espaço interior, enquanto te desenvencilhavas tão prontamente?
Ah, menina…Quando assumirás que já o não és? Quando pensarás que o que acumulas de vivenciado e experienciado marcou a tua tábua rasa inicial?
Ah, menina… Manténs o teu sorriso, intocável, inabalável, mesmo quando começa a mais grave tempestade sazonal.
E, enfim, ergues-te da cama, enches o peito de ar e caminhas com determinação, para enfrentar mais um dia, mesmo sabendo que o sol depressa poderá deixar de brilhar, quase que no manifesto de um qualquer clima tropical…
Ah, menina… Onde estás? Quero ser como tu…

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ao som do tic-tac do velho relógio de parede e aconchegada pela manta polar acabada de estrear, sinto-me em ti, tão longe, enquanto te sinto em mim…
O vento que ressoa lá fora traz-me à memória os momentos em que me sussurras no ouvido, enquanto me deixas adormecer, com o toque delicado das tuas mãos e o calor dos teus braços a envolverem-me…
Perante um sorriso rasgado, em que o mundo, lá fora, parece tão inexistente, tranquilizas o alvoroço interior que me representa ultimamente, onde uma infinidade de problemas se entrelaçam como se fossem amigos de longa data, sem pedirem permissão para entrar na vida uns dos outros. As lutas que travam entre si não se exteriorizam, mas tu sente-las, não sentes? É por isso que me abraças com força, no frio da noite, que agora nos serve de cenário…
Continuamos a tranquilizar-nos, sem que nada mais interesse, sem que o politicamente correcto atrapalhe a sinceridade de sentimentos puros, sem que esquerdo e direito se perturbem perante os seus sentidos antagónicos, sem que Verão e Inverno se combinem furiosamente, para se enlearem numa grave discussão de final de dia…
Dentro da nossa noite, em que olhares atentos são inexistentes e vozes intrometidas não fazem um zunzum perto do meu ouvido; só a ti ouve, só o teu murmúrio mais profundo e doce identifica, quando o consciente roça o subconsciente, no final de mais um dia…
A calma inunda-me sem que me aperceba, e tudo parece menos opaco e disforme do que quando a chuva empurrava fortemente as vidraças da janela verde do meu pequeno quarto, onde, apesar da frequência de toda a neblina deste Inverno, ainda me confere o aconchegante sentimento de pertença…
Continuas…Inspiras…Falas docemente, porque ainda não sabes quando será o momento em que adormeço finalmente…Não quero adormecer até que vás…Deixa-te ficar. Expiras…
Adormecemos os dois, enfim, de mãos dadas…
Acordei, agora, frente à velha secretária antigamente poeirenta e actualmente povoada por uma série de objectos de uma espécie caracterizada por uma infinidade de páginas agrupadas e promessas de mil e um sentidos científicos, que me servirão tão deliciosamente para sempre…Porém, esta paixão ficará para amanhã… Amanha lê-las-ei…Hoje, ficarei em nós…
Boa noite!…

domingo, 12 de outubro de 2008

Outono

O dia chegou ao fim e tu esperas-me à porta, com um sorriso e um beijo terno…É tão bom ver-nos chegar…
O teu sorriso acompanha-me até ao hall de entrada, escuro e frio, segue-me até ao quarto azulado, que nos serve de refúgio perfeito, para que o que nos une não seja equivocamente interpretado como mais um momento fantasista de duas pessoas, de sexo oposto, que servem de porto de abrigo, em mais um final de dia…
Não, não somos isso…somos um porto de abrigo tão fortemente fundamentado, que vai persistindo às chuvas torrenciais de um Outono tardio e aprecia um lindo sol de Inverno precoce…
Não temos regras, nem contratos…Somos o que somos sem que ninguém interfira nisso; somos dia e noite, Outono e Primavera, direita e esquerda… Mas somos tanto…
Ao sabor da chuva, lá fora, vou organizando frases soltas que julgo fazerem algum sentido, harmoniosamente colocadas umas a seguir às outras… Porém, creio que hoje não é o dia em que termino mais um excerto, inacabado, que se junta a outros na poeirenta secretária castanha, desgastada pelo tempo, pelas memórias e por tudo aquilo que sempre acumula…porque não quero terminar este, nem aqueles, nem os outros excertos, como uma daquelas histórias tão fugazes e fúteis que, até então, contavam…
Descobri e desvendei o mundo e o tempo em que já não perdemos; o céu está maior, o ar penetra-me tão mais livremente as vias respiratórias, a tua mão protege-me tão docemente enquanto caminhamos juntos…
Encontro no brilho suave dos teus olhos castanhos com tons de verde seco a tua parte meiga, vulnerável…encontro neles, a forma tão peculiar que tens de te dar…e rimo-nos…Também tu te ris da maneira característica que tenho para desmistificar as coisas complexas e de apelidá-las com tamanha simplicidade, e, por outro lado, de complicar o mais simples, embrenhando-me em divagações profundas sobre o nada…
Hoje, mais um dia, encontrar-te é a delícia do meu Outono, do nosso Outono, onde há cores, magia, emoção, folhas soltas que se acumulam ao sabor do vento, para fazer sentido…
Não sei até quando regressarás, não sei até quando regressarei eu, mas, há coisas que não têm de ter um fim explicado, definido…
Há coisas que não tem de ser apelidadas com a minha simplicidade, ou defendidas com a tua garra e convicção…Há coisas que somos nós…E, que hoje, só por ser Outono, me fazem chamar-te meu amor…
Semper Vestri

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

As pinceladas nas telas brancas cessaram…

Já não vejo riscos, já não vejo tentativas frustradas de formas geométricas, já não vejo um clarão, já não vejo rostos desconhecidos, já não vejo turbilhões de sentimentos, já não vejo escuridão, já não vejo um olhar perdido no meio do vazio…

Vejo-me…

Vejo-te…

Vejo-os…

Vejo-nos…

Vejo-vos…

Resta a calma, o vento a soprar suavemente quando o dia amanhece, o céu estrelado duma noite de verão, a respiração calma e tranquila, o pesar de pálpebras no final do dia, cuja preocupação se prende nos lençóis enovelados que, apesar de já vazios, estão preenchidos por tudo o que vejo…

As guerras? Adormeceram…

As fugas? Acharam outra estrada…

As dores profundas? Tornaram-se crónicas, imperceptíveis…

Os medos? Persistem, mas não me vão levar hoje. Vejo-os, porém, glorio-me por tê-los; sei que ainda sinto, por eles; sei que eles me mantêm aqui, a ver-vos todos os dias, a ver-me todos os dias.

Respiro fundo, sorrio…Ainda me sinto. Às vezes, basta regressar e reencontrar, mesmo sem a orquestra perfeita a ser dirigida por um maestro genial.

domingo, 13 de julho de 2008

Há muito mais para derramar lágrimas, não chores…

Eu conheço-te, eu sinto-te, por favor, não chores…Sorri-me, relembra-me do teu jeito peculiar de sorrir…

Deixa-me agarrar na tua mão, deixa-me ouvir a tua história, deixa-me limpar-te as lágrimas que te atraiçoam, enquanto manifestas a tua dor, de mais um dia em que lutaste por algo que continuas a julgar em vão…

Não!!! Pára!!!

As tuas batalhas não são em vão; podes não ir salvar o mundo, podes até nem sequer deixar uma marca para a posterioridade, mas, são as tuas batalhas, as tuas guerras…

Sei como te magoas nelas, sinto-te a envelhecer de dia para dia, contudo não desistas; enfrenta-as com a simplicidade do teu sorriso perfeito, torna-te a heroína de alguém, a tua própria heroína.

És o que és, genuinamente o que és, mesmo quando só te apetece desligar as luzes, fechar as janelas e esconderes-te na escuridão das tuas quatro paredes intocáveis, no teu cubo da solidão, repleto de medos, histórias que ninguém supõe existir e que poucos, demasiado poucos, ousam saber.

Flectes os joelhos, escondes a cabeça entre eles e repousas as mãos na face posterior da nuca, enquanto as lágrimas escorrem e gotejam o chão que te servirá de eterno consolo; o mesmo chão castanho de madeira, gasto pelas tuas lágrimas solitárias e escondidas; escondidas entre um sorriso e um piscar de olho infantil com que delicias desconhecidos e tranquilizas conhecidos.

Eu consigo ver quão perdida estás e quanto te falta ainda para voares… Já foram tantas as batalhas nessa tua guerra, que te vão enrugando a testa e que vais assumindo a custo…

Assume-as…

Não sei onde mais hei-de EU procurar-te..

TU que terás sido feito como a minha “outra pessoa”, ou uma das minhas “outras pessoas”…Sim, continuo a sorrir-te, no vazio, no céu, no ar, na caminhada que vou percorrendo, sem te ver, sem te conhecer, sem te achar…

O sorriso que te fascinará enquanto me desconheceres e te tranquilizará quando não me conheceres ainda, identificá-lo-ás. Da mesma forma que eu te identificarei, ao saber que fui feita para ti, que foste feito para mim…Fomos feitos para nós…

Onde estou? Onde estás? Onde estamos?

Algures, dentro dos nossos próprios sorrisos, que nos foram colados na pressa fugaz dum olhar furtivo e passageiro, escondido no inconsciente, tal como nos escondemos de tantos outros…
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(as incoerências discursivas e mudança de sujeitos foram propositadas...ficará ao critério de cada um a sua interpretação!)

domingo, 22 de junho de 2008

O feitiço persiste sem que eu entenda…


Só o encontro à medida que divago inconscientemente, ao ritmo duma música antiga e repetida, na voz duma diva esquecida, que ressoa nas quatro paredes que, ultimamente, me servem de lar.

Continuas-me a derrubar, sem que o saibas, mas eu continuo aqui, visto que simplesmente não sei qual a origem e essência deste feitiço; se é doloroso ou indolor; se é insípido ou saboroso; se é aromaticamente terapêutico ou simplesmente inodoro.

Não quero saber…

O eco do teu sorriso delicia-me enquanto cerro os olhos e mordo o lábio inferior, no desejo de te poder abraçar, num abraço prolongado e desinteressado, só por saber-te bem…

Sabe bem, tão pouco? Alimenta-me tão pouco?

O estado de subnutrição já se teria acercado de mim se assim fosse; não sei que nutriente é este, que elixir é este, que delícia é esta que me deleita e derruba de prazer, enquanto me finda tantos males, sem que as curas se vejam…

Apenas decorei o nosso sorriso, numa fotografia daquelas que guardamos escondidas na nossa carteira preferida, naquele recôndito compartimento, a que só nós conseguimos chegar, com a força do hábito impelida na memória e a saudade, essa saudade, que todos os dias me destrói mais um pedacinho.

De que tenho saudades?

Do teu sorriso forçado…

Da tua história quotidiana e vulgar, que, no teu toque próprio, me fazia sempre sorrir…

Do teu perfume exagerado, todas as manhãs…

Do teu modo politicamente correcto perante todos os outros com que te cruzas, mas que, comigo, não passa de algo inexistente, que dá lugar à tua simplicidade e autenticidade…

Do modo como te arrastas imponentemente…Sim, arrastas-te e eu fico a ver-te e a sorrir-te…

Da maneira como apagas a luz todas as noites, calma, doce e gentilmente, certificando-te sempre se incomodas alguém…

Recordo-te…

Tenho saudades tuas, na minha mente…Na mente que sempre me alimentou…

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Estradas

Já não sei o que sou…

Nada do que fui interessa agora…

Nada do que fiz é agora enlevado num altar colorido, decorado com não sei quantos símbolos de idílico valor…

Já não me reencontro no que me pertencia e dificilmente me encontro no que me pertence…Afinal, que me pertence, para além dum tudo e dum nada, juntos, caminhando alegremente, de mãos enlaçadas, ao longo duma estrada calma e coberta de sol?

Ninguém consegue entender que lá fora existe uma guerra para enfrentar, milhentas batalhas tenebrosas para vencer?

Nem tu, que te escondes por detrás dos meus cortinados verdes, todos os dias…nem tu, que és a minha consciência consegues ver isso?

NINGUÉM? Para onde foram todos? Os de ontem, os de hoje, os de amanhã? PARA ONDE?

Não consigo sentir, ainda assim, que tudo seja errado…Este momento, os últimos momentos, os próximos momentos…Sorrio enquanto penso nisto; sorrio pelo sorriso delicado e polido com que respondo às mesmas perguntas de sempre….Sem nunca responder às perguntas!...

Estradas…não passam de caminhos que se cruzam, dum bando de equilíbrios e desequilíbrios, pelas escolhas certas e pelas escolhas erradas…Também magoam, mas também cicatrizam…Mas donde me surgiram as estradas? Eis uma pergunta a que respondo sempre com o tal sorriso…Escolhi, porque as minhas pernas sempre quiseram caminhar para lá, sem que eu sequer pensasse nesse movimento automatizado.

Estradas…somos nós que as fazemos…Abrimos os olhos, ponderamos (muito ou pouco, não interessa) e simplesmente construímo-las, sem obter permissões hediondas…

Ainda há olhares presos na minha estrada…Não quero olhos presos no meu caminho! Só quero os que me abrem os braços e me ajudam a caminhar, quando, ao final do dia, os músculos já estão demasiado contraídos, o esqueleto já me dói, o corpo já pesa…Só quero os que estarão a erguer-me depois duma queda, suscitada pelo vacilar na decisão do próximo trilho…

Não sei…

Não sei como vai ser o desenovelar da nossa guerra, nem sei mesmo donde ela surgiu…Há tanto que não sei!...

Há tanto que um dia gostava de saber…

Fecho os olhos e deixo os movimentos guiarem-me no caminho, na estrada que vou percorrendo…Para quê questioná-la? Para quê saber quando chega ao fim? Para quê saber se existe algum sentido proibido, sentido obrigatório ou inversão de marcha?

Não interessa…só interessa segui-la…Por mais árduo que seja o caminho…

Porque afinal, há sempre uma maneira de recomeçar o que se quiser…

Recomeçar a marcha e enfrentar a batalha que se avizinha….

segunda-feira, 24 de março de 2008

Levas a cabeça encostada à janela e a face virada no sentido oposto ao do caminho, lá fora. Porquê? Nunca foste de esconderes frustrações debaixo dum qualquer sorriso colado à pressa, todos os dias, quando amanheces; nunca foste de camuflar lágrimas com umas lentes escuras, com que ainda não te vira, desde o dia em que nascemos.

Não sei como te fazer amarrotar essas frustrações; não sei como te depositar um beijo leve nas têmporas, um beijo que sintas, mas que não te entristeça pela tua fragilidade.

As minhas palavras grosseiras e rectas também já não são as ideais; o meu gesto sério e as minhas tentativas de relativizar os teus males já não têm resultados, nem mesmo te magoam, fazem pensar ou espevitam.

Transformaste-te numa pedra de cimento, virada para dentro, em que o bem e o mal não te tocam, em que perdes todo o teu tempo a ter pena de ti, a falares sozinha sobre os teus demónios interiores e frustrações que não se exteriorizam mas que te atulham.

Hoje decidi observar-te, enquanto inclinas a cabeça para trás e cerras lenta e delicadamente as pálpebras.

Envelheceste.
Emagreceste.
Enegreceste a pele.
Enrugaste a testa, cujos refegos de expressão, agora, te fazem parecer cansada.
Aprofundaste as olheiras que dantes, raramente, tinhas.

Voltaste a abrir os olhos e continuaste sem reparar que te observava.

Tens os olhos mais fundos e cansados.

A mão direita, cujos dedos estão amarelecidos pelo fumo do cigarro que te era, antigamente, esporádico, treme-te sobre o peito, enquanto inspiras silenciosamente.

Fazes todos os esforços para que não te vejam e afastas o contacto dos que te vêem e sentem. No fundo, são os poucos que te vêem que ainda te mantêm alguma chama, apesar dos que só te querem continuar a inferiorizar, como sempre.

Direccionas, finalmente, o teu olhar para mim e tentas sorrir-me com ele; passo-te a mão levemente pela face dorsal da tua, até te agarrar o pulso magro, e sorrir-te.

Os nossos olhos envolveram-se, abraçaram-se, confessaram-se e nos permanecemos em silêncio, porque tu já não sabes verbalizar os teus demónios e eu já não sei a língua que eles falam, pela multiplicidade de personalidades que eles vão tomando.

Disseste no teu tom mais casual:
_ Olha, está a cair finalmente a noite.

Era só nela que te sentias bem e, com ela, enlaçar-te-ias uma vez mais nuns braços desconhecidos, ou conhecidos, que já não te importavam na solidão e vazio interiores.

Não te respondi; sempre soubeste que te deixava um espaço aberto para que, se quisesses, nem que fosse por cinco minutos, mostrar-me a densidade para lá dos teus olhos e do teu sorriso.

_ És o meu anjo… e olha que eu não acredito muito que existas.

Sorri-te. Afinal de contas, nenhuma de nós sabia nada da outra e sabia, em simultâneo, tudo, como se fôssemos o reflexo uma da outra, a versão má e a versão boa da mesma pessoa, a cara e a coroa duma moeda, o início e o fim da história, o final feliz para os bons e o final fatídico para os maus…

Éramos uma só e eu não quero deixar-te ganhar-me.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Sussurro em Desabafo

Estás aí, no teu sítio, no teu lugar revigorante, e eu vejo-te…

Tenho saudades tuas e já não o devia sentir…

Vejo-te em todo o lado, revejo-te em todos os gestos, sinto-te em todos os locais surpreendentes que imagino, tu estás sempre lá, com o teu sorriso envolvente, os teus olhos brilhantes, a tua face irresistível…

Sei que estás em paragens tão mais longínquas do que aquelas onde eu vou parando, bebendo e pensando em ti, enquanto repouso, na minha carinhosa recordação, mas não consigo deixar de fazê-lo...

Na minha imaginação suspiro, enquanto te espero num final de tarde solarengo, quando o sol desce e beija o rio, no horizonte. Também queria beijar-te num final de tarde que não seja fictício, contudo, tu estás na outra margem, e o pequeno barco salva-vidas que oscila do meu lado da margem não tem remos; não posso remar sozinha e tu insistes em permanecer do teu lado da margem, onde eu só te poderei imaginar.

Quero-te tanto…

Quero envolver-te nos meus braços, quero mostrar-te um lado diferente que nunca viste, um lado que nem eu sabia que existe, um lado tremendamente trémulo, como o salva-vidas no meu lado da margem, um lado que precisa de alguém para caminhar, para deixar de se segurar a pequenos pilares que vai encontrando e que não conferem segurança, nunca testemunham valor, nunca merecem que, enfim, ele aprenda a andar autonomamente.

Podia ser amor, mas continuo a saber que tudo o que tenho é contemplar-te do meu lado da margem, enquanto tu divagas na tua margem, sem saberes que me sorris, sem perceberes…

Quero acabar-te em mim…

Quero acabar-te, porque sei que nunca sussurrarás na minha almofada.

Perdi-te, sem um dia sequer te ter…

Um dia o meu pequeno salva-vidas atracará num pilar seguro…

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

De regresso ao barulho e às luzes, mas não da ribalta.

O pano continua caído, com as franjas a roçar preguiçosamente o chão poeirento, de madeira velha, que já data de há séculos.

E nada muda…

Nem o sol bate de maneira diferente na vidraça pequena da janela da mesma casa, cujas paredes foram coloridas de um rosa morto, que nos percepciona a passagem do tempo.

E nada muda…

Os mesmos pássaros continuam a pousar na árvore solitária, que se ergue soberbamente no campo longínquo, do outro lado do rio.

E nada muda…

As grossas gotas de chuva continuam a enganar com um início de dia solarengo; num sol que surge sempre timidamente no horizonte mas que acaba por se esconder, tal como tu continuas a fazer, num jogo de esconde-esconde quase infantil.

E nada muda…

Os teus olhos continuam a expressar o mesmo de todos os dias, desde as últimas semanas, meses, anos…E eu, que sempre tentei arrastar habilmente as cortinas que escondiam algo mais profundo e intenso, continuo a desejá-lo, sem esperar nada em troca.

E nada muda…

A tua segurança, enquanto deslizas pelo corredor de todos os dias, assemelha-se à que sempre te atribui, desde o primeiro dia, desde o primeiro olhar, desde o primeiro sorriso.

E nada muda…

A maneira calma como falas, como se o mundo lá fora não existisse para ti, nem para mim, continua a saber a tanto e a tudo o que sei e o que não sei.

E nada muda…

O desejo de te abraçar e amar manteve-se, talvez tenha crescido…

Secalhar algo muda…

O teu desconhecimento das causas para a minha tão grande atenção começou a dissipar-se por entre as palavras que eu solto inconscientemente, num misto de curiosidade e ternura.

E algo começa a mudar…

Até ao dia em que o sol já não tocou os vidros impecavelmente limpos, da casa rosa-velho.

Até ao dia em que eu já não me escondi e o sol brilhou radiantemente.

Até ao dia em que eu proferi todas as palavras que, até então, prendera numa minha qualquer parte camuflada.

Até ao dia em que, depois do sol radiante, apenas anoiteceu e as gotas grossas de chuva tinham origem e fim no quarto de todos os dias, na cama fria de todos os dias, agora vazia de segredos e emoções.

Algo mudou…