sexta-feira, 30 de setembro de 2005

A pedra rolou

Que dia mais desconsolante! Acordei e olhei para aquele objecto negro de visor escarlate que me avisava quão atrasada estava para enfrentar mais um dia de merda.

Levantei-me e direccionei-me para a banheira ainda meio estremunhada e com o corpo pesado e dolente. Uma lufada de ar, proveniente duma qualquer esquecida janela aberta, trouxe-me à memória o teu cheiro. Imaginei-me então de novo envolvida por ti, quando os teus braços me apertavam junto ao teu peito ofegante e não me desamarravam.

Durante o meu banho estimulante imaginei tantos pequenos episódios que vivemos juntos e perguntei-me de novo, pela milésima vez, por que é que tudo havia desaparecido tão repentinamente, sem advertência prévia. Senti saudades, cruelmente não por te amar, mas por sentir a falta de fazê-lo, por sentir a falta que me amasses, por sentir a falta daquele pequeno mundo que um dia construímos e no qual só vivíamos nós.

Apressei-me, estava cada vez mais atrasada. Vesti-me num ápice e saí, dirigindo-me àquele mundo repleto de imbecis que me zombariam ou que me julgariam só mais uma coitada. Enfureci-me logo que avistei aquele ambiente repugnante que agora só esporadicamente reluzia quando alguma das minhas estrelas ousava avivar-me, mostrando-me a minha restrita importância.

Ficou tudo tão diferente, tão mais dúbio desde que não fazes parte do meu mundo, o mundo que me ajudaste a construir e do qual te rejeitei, do mundo físico em que me movo, já tão antigo, mas que contudo se começa a tornar pungente.

Inesperadamente revejo-te nas velhas mesas de mármore branco sujo que tantas vezes dividimos. Julguei estar ainda a dormir e foquei o ponto em que julgava ter-te mirado. Não eras tu, ou pelo menos a imagem não correspondia ao que eu queria, à pessoa que foras durante os tempos que partilhámos. Eras agora alguém facilmente ignoto, rodeado de elementos masculinos e femininos, um pouco como tu, que te idolatravam e que, contudo, mal te conheciam. Porém não vivias sem eles pois não conseguias; sentias-te um brinquedo antiquado, colocado numa prateleira coberta de pó, para sempre esquecido. De momento eram eles (e elas) o teu novo mundo.

Segui o meu caminho e, confrontada com a verdade de que tu já arranjaras um mundo e eu ainda não tinha conseguido encaixar em nenhum daqueles que me surgiam ou me impingiam, pontapeei, revoltada, uma pedra que me barrara, rolando para bem longe e que, apesar de me ter magoado, deixou de ser um problema.

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

Sempre para sempre...

Peço desculpa pela falta de imaginação que tem andado por ruas de amargura.Decidi, por isso, postar este poema que acho lindo e, ao mesmo tempo, tão simples...Faz parte do cd de Donna Maria (Tudo é para sempre).
Espero que gostem tanto como eu...
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Donna Maria - Sempre para sempre

Há amor amigo, Amor rebelde
Amor antigo, Amor de Pele.
Há amor tão longe, amor distante,
Amor de olhos, amor de amante.
Há amor de Inverno, amor de Verão,
Amor que rouba como um ladrão.
Há amor passageiro, Amor de não amado
Amor que aparece, amor descartado.
Há amor despido, amor ausente
Amor de corpo e sangue bem quente.
Há amor adulto, amor pensado,
Amor sem insulto, mas nunca, nunca tocado.
Há amor secreto de cheiro intenso
Amor tão próximo, amor de incenso.
Há amor que mata, Amor que mente,
Amor que nada, mas nada te faz contente,
Me faz contente.
Há amor tao fraco, amor não assumido
Amor de quarto que faz sentido.
Há amor eterno, sem nunca talvez,
Amor tão certo que acaba de vez.
Há amor de certezas que não terá dor,
Amor que afinal é amor sem amor.
O amor é tudo, tudo isto e nada disto para tanta gente.
É acabar um amor igual e começar um amor diferente,
Sempre para sempre, para sempre.