segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Numa noite de insónia gelada, vagueava por becos solitários e recalcados na minha mente, vasculhando lugares que todos os dias se vão afundando na cave catastrófica das recordações…

Ah, nostalgia! Lá estavas tu, num canto abandonado à pressa, deixado entre a amargura de um último beijo e a esperança de um novo eterno amor. Mais um engano, mais uma irónica partida dos fados amorosos, mais uma doméstica loucura cometida pela imaturidade que me caracterizava na altura…

Não fui eu quem se converteu a um amor eterno e bucólico.

Não sou eu quem se consome em pensamentos vãos e impróprios, desculpando-me de um qualquer estado inconsciente e adormecido.

Não serei eu quem vai ceder a mais umas efémeras horas que valerão dúvidas existenciais que terei de largar algures onde te deixei a ti, um dia.

Um dia, deixei-te.

Um dia, reencontrei-te e deixei que voltasses a presentear-me com a aurora que enganadoramente trazias. Nesse dia, que se esvaiu tão repentinamente, tornaste-te um vício que cedo se tornou controlável e inofensivo, um vício que nem sequer era bom, extremamente arrebatador, como um daqueles teus cigarros fumegantes.

Nesse dia, ou no dia a seguir? Não me lembro, porque o tempo simplesmente tem continuado a chicotear as planícies da existência, nem sei bem se a história já acabou; não sei se tu ainda estás na minha cave solitária ou se deambulas sem pedires autorização pela amarga realidade, sempre dulcíssima. Procuro-te e só te encontro quando não quero, algures numa montanha de desejo sórdido e reprovável, um desejo embaraçoso que me leva a passar à tua porta de mãos dadas com um amor a quem te escondo, um amor quase idílico e imperceptível que não resistiria ao saber da tua existência.

Sento-me e aqueço as mãos. Fecho os olhos. Um abraço quente e forte envolve-me. Não sei quem é…Luto para sabê-lo e não sei, visto que há histórias que simplesmente não têm um fim, pois nunca começaram mesmo, pois nunca deviam ter começado, pois nunca deverão terminar.

domingo, 26 de novembro de 2006

Ele acompanhou-me, deixando-me no cimo das escada, como que atirada às feras de um passado que regressara.

Pareciam centenas, os olhos que se cravavam em mim. Anos atrás, descera aquelas escadas, mais inocente, mais leve, mais segura de que o mundo jamais poderia ruir, com um qualquer par fugaz, que me ladeava não muito duradouramente. Sempre fora assim.

Um sorriso, que deveria contagiar, era visível no meu rosto discretamente maquilhado. Parei para cumprimentar as caras familiares, enquanto prendia a mão dele com a minha. Os braços desenlaçaram-se depois dele me beijar carinhosamente na face, como um irmão mais velho, num gesto que me encorajou.

Hoje, sozinha, descia aquelas escadas, mas já não era inocente; já tinha sobre mim o peso de desilusões e a consciência de que o mundo é um conjunto de vários mundos que se desmoronam para logo a seguir se reconstruírem.

Hoje, sozinha, sem acompanhantes efémeros, senti-me mais acompanhada do que quando um braço me envolvia a cintura e me fazia pousar para uma qualquer fotografia “para mais tarde recordar”.

Hoje, sozinha, relembrei uma série de “ontens”, todos os anos especiais, enquanto descia aquelas escadas.

Hoje, sozinha, encontrei-me, porque não preciso dos teus braços a envolverem-me, do teu sorriso para me fascinar, da tua voz a aconchegar-me num refúgio de esperanças vãs, dos teus olhos para me deliciarem; porque, simplesmente, já nem preciso de te imaginar.

Hoje, depois de ter descido sozinha, vi-me a observar-te a ti, enquanto descias, não sozinho, mas tão sozinho quanto eu, simplesmente porque a tua vida é um mistério subtil, que guardas através de gestos e palavras premeditados, que eu não compreendo, nem já tentada me sinto a compreender.

Estávamos os dois, com os outros, comos os outros, no salão. Cumprimentámo-nos afectuosamente, tal como sempre. Estavas bonito. Puxei-te pela gravata, irrepreensivelmente direita, e obriguei-te a concederes-me a honra duma dança, a dança que terminou os sentidos sentimentos infundados, enquanto pousava a cabeça no teu ombro e tu me surpreendias perante a tua agilidade de bailarino, que eu desconhecia.

Há tantas coisas que desconheço, senhor do mistério. Há tantas coisas que ainda me surpreendem, senhor da subtileza.

Contudo, por tantas outras coisas, repeli, ali, naquele chão poeirento, repleto de infindáveis memórias calcadas pelo tempo, o amor não amado de sempre, que eu julguei um dia eterno, enganando um coração palpitante e pulverizado.

Agora, sozinha, revejo-me a deslizar pelo chão do salão, com um vestido exuberante e comprido que nunca existiu, numa dança concretizada somente nos recônditos cantos da minha imaginação, num abraço largo que, em vez de ser daqueles com que partilhei a feliz noite de encanto, era teu.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Em vão

A chuva estilhaçava a vidraça aparentemente inquebrável, enquanto o interior do quarto se inundava de desilusões, tristeza, angústia e frustração. No mar de desespero naufragavam sonhos jamais partilhados, sonhos tão estupidamente impraticáveis e infantis que me faziam rir, enquanto um bote salva-vidas os tentava resgatar.

Em vão…

Tudo passa em vão, e só as cicatrizes ficam. Na boca fica sempre o travo salgado do desejo frustrado, da tentativa infrutífera, da dor proveniente da amargura que é a desilusão.

Em vão…

O pequeno salva-vidas navega contra a tumultuosa corrente, sem pedir autorização para remar em tais águas tenebrosas, cheias de decretos e leis desconhecidas.

Em vão…

A felicidade ofusca ao longe, como que um farol abandonado e perfeitamente alinhado no horizonte, chicoteando os areais longínquos, donde te aceno. No fundo, também tu me deslumbras e me fazes agir de modo peculiar. Dizem que há amores, que há paixões, que há obsessões. Tu és somente o meu farol, que não posso tocar, que não posso atingir, mas que me ilumina e me guia, evitando naufrágios quando uma tempestade efémera me ameaça.

Em vão…

O mar indistinto que te banha, que te penetra, a mim afoga-me; o mar que te completa, a mim esgota-me. Afinal, serás tu o mar que me arruína? Questiono-me e não atinjo qualquer resposta plausível, que me faça regressar à calma de uma manhã de Verão, quando o batel boiava ao sabor das ondas, sem pressas de fugir a um dilúvio.

Em vão…

Fecho os olhos e a chuva cessa. Adormeci sem mais um dia me encontrar no meio de um nada tão imenso, que me submerge quando sonho e luto. Porém, hoje limitei-me a espreitar lá para fora e a sentir-me como um mar tempestuoso, prestes a arrasar toda a costa e a deixar o seu rasto espumoso, que apaga recordações, cria ilusões mas que, como tudo, divino fado, também se evapora.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias

Dessas cartas de amor
É que são Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente Ridículas.)

Álvaro de Campos
Querido,

Hoje olhei-te no dédalo de sentimentos que me penetraram. Quis cumprimentar-te quando longinquamente te avistei, mas não pude…Ias numa qualquer direcção oposta, inatingível e intocável para mim.
Meu querido, hoje quis passear contigo, por jardins interditos, exclusivos da minha mente; quis partilhar contigo um ocaso, com as nossas mãos enlaçadas, os nossos braços a rodear o corpo um do outro; quis beijar-te; quis ofertar-te todo o carinho que gero bem dentro de mim, longe de olhares, longe de suspeitas, longe de tudo.
Meu querido, hoje acordei triste por, mais um dia, viver sem te ter; por, mais um dia, apenas sobreviver; triste por nada ser suficientemente grande para mostrar o que palavras e actos jamais farão.
Meu querido, hoje acordei só para te escrever, sem dizer nada, para além de um tanto indizível. Escrevi e nada disse; palavras desconexas flúem sem pedir permissão e eu sinto-me ignara por não poder, não querer, não conseguir, enfim, não dizer o que todos esperam e querem. Também esperas por esse todo demonstrável mas intraduzível?
Meu querido, por hoje adormecerei com o travo desta saudade infundamentada; por hoje sonharei com os teus lábios; por hoje ficarei com o desejo insaciável de te desejar uma boa noite e ceder a impulsos e promessas, um dia infantis.

Com um beijo sôfrego e apaixonado da sempre tua,
Gui

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Caminhavas rua abaixo, calmamente. Nunca ostentavas urgência ou pressa. Tudo te fluía tão doce e ternamente…

Mão esquerda no bolso das calças sovadas, tão características…

Na mão direita seguravas o teu cigarro matinal.

Continuavas a descer a rua, sempre na mesma passada. Ninguém te adivinhava já atrasado para um qualquer compromisso inimaginável.

As costas curvadas e olhos no chão.

Nunca apreciaste o chapéu-de-chuva que tantas vezes tentámos partilhar, mas em vão; sempre parecia termos ultrapassado um qualquer dilúvio caseiro. A chuva frágil, quase tão frágil como eu, importunava-te. O cabelo, sempre rigorosamente domado pelo teu gel aromático, desobedecia-te, mudando o lugar que previamente lhe havias destinado.

Saltavas as poças fugidiamente, mas sempre sem pressa.

Rua abaixo e eu observava-te (ou imaginava observar-te).

Subia a rua sem te ver, sem te querer ver; sempre com o meu ar apressado; sempre com o meu ar incomodado, pela chuva que me gotejava as lentes dos preciosos óculos.

Desde que decifrei a tua silhueta no horizonte, distinta, sempre distinta, por entre as casas amareladas pelo tempo, as árvores despidas pela estação, os carros molhados pela chuva miúda, planeio um qualquer “bom dia” repleto de palavras ou de uma natureza diferente, especial, sentimentalista, mágica; porém, só me ocorrem carimbos ou selos lambidos.

Sabes o que durante tanto tempo escondi, até de mim mesma.

Sabes o que ainda hoje não manifesto, visto que me consegues despir de artefactos e decorações que, todas as manhãs, pesadamente coloco.

Ergues finalmente o olhar a uns escassos centímetros. Estás tão longe.

Sorris, mostrando os lábios sedutores e os dentes divinamente perfeitos. Perco-me.

Perco-me no brilho do teu olhar e só articulo um simples “olá”, tão tacanho quanto eu.

“Olá”, ainda a sorrir.

“A chegar tarde de novo?”, em uníssono. Não contivemos a gargalhada.

Ousei um toque casual na tua mão, propositadamente. Estavas frio e o cigarro ainda ardia, extinguindo-se por entre as palavras que não proferia. Com um beijo terno na face cessavas o nosso encontro por hoje.
Seguiste o teu caminho, enquanto eu ficava enraizada na gravilha solta. Via-te a afastar…Tão longe. Tão perto. Abarquei aquela saudade melancólica.

Pus a minha mão esquerda no bolso.

Coloquei a mão direita na face. Ainda ali estavas; a tua essência ficara naquele breve toque roubado.

Acendi um cigarro que não era meu; curvei as costas e olhei para a calçada disforme, enquanto caminhava subtilmente. Não era eu.

“Até amanha”, suspirei. E segui.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

"Mentiras para viver"

Sinto que cedeste.

Dentro da tua mente arquitectas planos que julgas indolores e inofensivos só para poderes voar em liberdade. Afinal, que sabes tu sobre o valor da dor? Que sabes tu sobre sentimentos reprimidos? Que sabes tu sobre palavras omitidas? Que sabes tu sobre pormenores tão significantes e que temes mudarem tudo? Que sabes tu sobre o que é a perfeição e a pureza?

Olho-te e não te reconheço. Também tu és uma quimera que se formou no meu pensamento a partir duma espessa nuvem pequena, repleta de pequenos nadas? Questiono-me se algum dia vou conhecer-te, se algum dia me vais deixar de surpreender dessa maneira mórbida e insensata que não está de acordo com esse teu casaco e camisa, que, teimosamente, combinas com umas quaisquer calças que te fazem parecer adulta, solene e séria, quase intocável.

Construíste uma imagem sem a mais ténue possibilidade de manchar o quadro a que chamavas vida; pintava-lo com uma tal imaginação e perícia que me fazias crer ser real. Afinal, quem desconfiaria que a tua vida era um mero produto da tua imaginação? Quem ousaria desconfiar de ti?

Nesse dia em que cedeste, entrei na tua sala requintadamente decorada e depressa pontapeei caixas atulhadas de promessas que nunca cumpriste, de mentiras que sempre te engrandeceram e que faziam qualquer um idolatrar-te e construir-se à tua imagem e semelhança. No meio deste cenário horrífico, que sempre julguei ser impossível logo no teu refúgio, senti que nunca te tinha conhecido; só conhecia o que todos podiam observar…Nunca havia tacteado a poeira e desarrumação que te dotava de humanidade e te debotava a perfeição.

Ergui o rosto e afastei todas as caixas, prateleiras, caixotes, gavetas, malas que haviam desmoronado. Não te encontrava, contudo só poderias estar ali. Era ali que te íamos recomeçar a construir, desta vez munida de defeitos, de fraquezas, de dor, de imperfeição. Tu própria sabias-te incapaz de seres uma vez mais a tal actriz de sucesso.

Encontrei-te, enfim, no canto mais recôndito do teu lar. Estavas enrolada numas roupas que pensei jamais poderem ser tuas; suspiraste quando me vislumbraste no meio da tua vida real, junto às prateleiras que ostentavam o nome “mentiras para viver”.

Só aí te olhei e percebi. És tu, és eu, és ele e ela, és um todo e um nada, és nós, és vós, és eles e elas, és tanto e tão pouco. Fizeste-me nesse dia reflectir…Mentir pode sempre ser cruel, mas, por vezes, pode arruinar quem mente e dar pena a quem se mentiu.

Peguei na tua mão glacial e murmurei-te:
”_ Anda, só lá fora podes recomeçar.”

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Antes, há que referir que nem tudo tem de fazer sentido, nem tudo tem de ser sentido.
Dani, lagosta loira, obrigada pela banda sonora deste post!
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Lá estava você, uma vez mais… Passou-se quanto tempo? Dias? Meses? Anos, talvez?

Não a via, a sério que não. Já me habituara à sua ausência, à lacuna do seu sorriso desgrenhado e riso ruidoso, à falta desses olhos expressivos, bondosos, compreensivos, maternais, maliciosos e perversos. Já disse que me faz falta?

Seguia eu, nos meus passos largos e solitários, quando ouvi esse todo, esse tanto, adormecido na minha memória, ignorado pelo meu apelo interior, ensurdecedor…Não tive saudades suas, contudo senti a sua falta.

Não a conheço de todo, mas que interessa isso? Nada! Só interessa reconhecer o que conheço; só interessa declará-la uma musa, um ídolo; só interessa continuar a escutar esses episódios caricatos que só a si acontecem.

A noite estava escura, silenciada com as imensas vozes que me faziam sentir cada vez mais só. Tive medo. Os candeeiros apagados faziam-me sentir falta do sonho que perdera. Precisava daquela palavra que você sempre diz, querida. Aquela, lembra-se?

Não consigo.

Mas vislumbrei-a. Contou-me mais um episódio, mais uma aventura. Fez-me rir, não só a mim, dado que nunca fui detentora da sua exclusividade (de qualquer modo, se fosse, perder-se-ia todo o encanto; como de resto se sucede com todos os outros pequenos “quês” com que vou jogando àquele jogo, a vida).

Senti-me a transbordar de tudo.

Bastou ter sido tocada pelas palavras mágicas de quem sabe quão duro é viver, mas não desistiu. É por isso que a glorifico.

Continuo a transbordar. Não consigo.

Gostava de ter a sua destreza intelectual, a sua facilidade de expressão, a sua capacidade de actriz feliz e realizada; gostava de perceber tudo com um simples pestanejar; gostava de ter a sua ironia, querida;

Gostei de voltar a vê-la. Sei que amanhã vai lá estar outra vez, a espalhar essas partículas indescritíveis e inconfundíveis que só eu posso valorizar.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Vangloriava-se com o seu corpo robusto, escuro, quase que misterioso, sendo útil para tantos que ali se acercavam, nas suas raízes salientes… Aqueles dois braços, que parecia só eu conseguir observar e que me fascinavam, poderiam não ter qualquer outra utilidade, mas para mim eram bem diferentes...

Muitos chamavam-lhe inúmeros substantivos, enquanto que eu prescindia de lhe dar um nome, de agrupá-la numa espécie do Reino Animalia que, presumivelmente, seria algo do meu interesse. Eu só desejava mirá-la, serpentear, com os meus olhos, todas as fendas e saliências que exibia. Necessitava dela para metaforizar algo que não me abandonava e que, de outra forma, não conseguia expressar.

Os seus braços vigorosos podiam um dia ter-me abraçado e protegido; podiam um dia ter prometido ficar comigo para sempre; naqueles braços austeros eu podia um dia ter-me aninhado e repousado, depois duma noite emocionante ou deprimente.

Naqueles braços eu via nervuras infindáveis que denunciavam a sua já avançada idade, a sua longa vivência, a experiência que eu não tinha e desejava ardentemente ter, para te poder compreender…Por que é que adoravas adormecer-me, acariciar-me e depois desaparecer?

O vento chicoteava-me agora a pele nua… Tinha sempre a atrevimento de vislumbrar este monumento, de uma qualquer pátria longínqua, o mais confortável possível; só assim me conseguia concentrar, sem ser tomada pela sua beleza. As suas folhas esvoaçavam agora pelo céu, acabadas de ser arrancadas desprevenidamente…

Estava agora tão privada de tanto…

Eu própria também era apanhada desprevenidamente num turbilhão de sentimentos nublados, confusos e insólitos quando, recorrente e viciadamente, observava aquele ser tão comum para muitos, todavia tão espectacularmente especial para mim.

O ódio enlaçava-se com o amor e, juntos, beijavam a indiferença… O desejo, apanhado de surpresa por tal união, varria as paisagens áridas do sentimento e, como que numa grande esfera, cruzava-se, ora consciente ora inconscientemente, em lagos de desespero, fazendo ou não notar a sua presença angustiante ou prazenteira.

Incrível, tantas folhas que se cruzavam entre si e fingiam não se conhecer…As pessoas também fazem isso! Cruzam-se em avenidas, ruas, travessas, vielas e becos, mas não se importam. Nada importa, só os seus mundos regelados e sós.

Também a minha memória percorre a tua face e ignora-a; também as recordações dos teus braços vigorosos me chicoteiam e eu ignoro-as; também os meus olhos te avistam e já não me acicatam o desejo…És indiferente, és ignoto, és débil e frágil.

Já não és a imagem robusta, escura, quase que misteriosa; já não és tu que me assegura a calma que necessito para sobreviver. Já só és uma criatura desconhecida e ignorada, que não lamento um dia ter esquecido por me sobrevalorizar…

Olhei, de relance, para a árvore (consegui dotá-la de nome) … Parecia agora feia, sem significado, sem forma; era só uma árvore. Fechei a janela, as portadas, os cortinados e atirei-me para cima da cama, como um guerreiro que termina a sua batalha com a noção de dever cumprido.

terça-feira, 4 de julho de 2006

Vício de ti

Ouvi uma respiração sustida no interior daquele quarto escuro, bafiento…

Passos largos rodopiavam em redor dum qualquer objectivo inatingível. A respiração era agora pausada contudo ansiosa. Como eu conhecia essa respiração…

_ Que queres daqui? – Gritei, num sufoco da solidão.
_ Nada, apenas espiar-te!
_ Porquê? Não levaste já tudo o que querias? Levaste a alma, os sentidos, o pensamento e tudo o que tinha de bom.
_ Talvez só queira observar-te, tocar-te.

Como é que ele se atrevia.
_ Não podes. Não quero.

Os seus passos eram agora na minha direcção.
_ Isto não é correcto. Recua…Deixa-me aqui.
_ E queres ficar aqui porquê? O que te prende aqui? Um passado endoidecido por marcas que não saram? Uma prisão de recordações que só fazem sentido na tua cabeça?
_ Cala-te! Deixei de ter de te ouvir quando te deixei, naquela esplanada colorida, cheia de casais apaixonados. Ficaste entregue a um dos teus cigarros lânguidos…Como eu te odeio.

Gritava estas palavras cheias de raivas, cheias de odores que só faziam sentido no meu olfacto, cheias de rumores que só acicatavam os meus tímpanos.

_ Sim, foste tu que me deixaste. E arrependes-te, não é?
_ Como podes ser tão presunçoso?
_ Sou só realista.
_ Tu também não me consegues esquecer. Por que raio ainda hoje me procuras, tendo esse teu lar feito de palha, que facilmente arde ou é soprado para bem longe?

Estagnaste em silêncio. A coragem nunca fora o teu forte. Também a ti as verdades eram dolorosas. Sempre tivemos esse problema, sempre foi algo com que não conseguimos lidar, as verdades. Tu, porque as construías na tua mente, eu, porque não suportava ouvi-las com sabor de mentiras.

Afinal de contas, somos iguais; eu, duma maneira, tu, de outra; ambos não passamos de egoístas preguiçosos, que somente pretendem mudar e que, todavia, não param de pensar na merda do passado.

_ Pelo menos eu entreguei-me a algo que não envolve mais falsidade. Adoras glorificar-te por isso, por ser eu quem não construiu um lar. Mas eu não quero um lar cheio de intrigas, cheio de dor, cheio de coisas que não são genuínas… Lembras-te que comigo eras genuíno? O que é feito disso agora? Continuas a ser genuíno quando aqui vens, mas fora desta sala não passas duma marioneta, desvairada por sexo perverso, embrenhada em loucuras sombrias, envolvida numa vida enigmática e estranha…
_ Tu não sabes nada, Isabel.
_ O teu velho argumento, Gonçalo.

Caramba, este gajo ainda me conseguia fazer saltar a tampa.

Foi então que, debaixo do primeiro raio de sol da manhã que ousava difundir-se para aquele quarto, tu me enlaçaste com os teus braços fortes e me beijaste. Beijaste-me a face, o pescoço, os seios, os braços…Beijavas-me devoradoramente

O teu corpo pedia o meu; os teus braços gemiam pelos meus; a tua boca secava pela minha... Ia ser sempre assim, até ao dia em que tu chegasses ao meu refúgio escuro, despido e inóspito e te deparasses com um local flamante, defendido e habitado por alguém melhor do que tu, que não vivesse uma mentira.

Nós dois nunca passaríamos duma mentira, dum produto da minha mente, duma fantasia reprovável que viveria em silêncio, dum desejo insensato que não conseguias controlar…

Só eu poderei fazer chegar o fim que egoisticamente adio, que manifestamente temo. Só tu poderás ajudar a remediar os erros que cometeste, o sofrimento que causaste e a saudade que sempre irá ficar.

quarta-feira, 3 de maio de 2006

Aquele quarto escuro

As cortinas amarelecidas pelo tempo soltaram-se e as vidraças deixaram a aurora entrar, acordando-me dum estado de dormência impenetrável e anestesiante.

Há muito que só o meu corpo vagueava, enquanto a minha alma me abandonava, depois de se ter soltado por estas vidraças que, logo de seguida, me aprisionaram.

Quis voar também, fugindo por entre as pequenas nesgas que me acicatavam o desejo de enxergar o mundo lá fora. Contudo, não podia porque, um dia, me levaste pela mão sem que me chegasse a aperceber; porque, um dia, levaste essa chave que me deixou isolada naquela escuridão; porque, um dia, e uma vez mais, tu seguiste e eu fiquei enrolada e desgrenhada nos lençóis encrespados de um prazer quase instantâneo, onde os teus braços enlaçavam o meu corpo e eu não os conseguia evitar pela fraqueza de um passado tão estimulante.

Por que me continuavas a chamar para o teu mundo, quando já não devia pertencer-lhe, quando já não queria pertencer-te?

O sol que me chicoteava fez-me recordar momentos tão longínquos…ou seriam tão próximos?... Não sei. O travo doce da tua pele ainda não se evaporara dos meus lábios, a marca do teu toque persistia no meu corpo cansado e o teu odor, tão gentil, ainda me perseguia a cada movimento.

Estou sozinha, sem ti, sem mim, somente com uma nostalgia dilacerante que me rasga a razão e revolta contra a minha imbecilidade de acreditar em histórias de amor impossíveis. Uma série de porquês ecoa na minha cabeça; vozes imponentes, gélidas, calmas sobressaem por entre o emaranhado de emoções que me inundam.

Não te quero. Odeio-te.

Deixaste no teu rasto o tal livro aberto que, no passado, folheávamos, tocávamos e líamos, enquanto nos beijávamos sem a pressa do amanhã. Era a história de dois amantes, que nada tinham a ver connosco, mas que nos fazia rir. Mas agora, porquê?

Eu não te amava e tu sabia-lo. Tu não me amavas e eu sabia-o. Porquê? Por que deixamos um passado amoroso tornar-se um presente amante, um presente de luxúria e desejo? Por que é que uma amizade nunca foi possível entre nós, sem que nos tocássemos, enlaçássemos e fôssemos um só?

Se calhar desejo-te e tu desejas-me. Se calhar amo-te e tu amas-me.

Será que algum de nós sabe o que é amar? Será que algum de nós sabe o que é amor? Somos unicamente dois dementes de prazer, dois egoístas, depois de entrarmos naquelas quatro paredes tépidas, onde esquecemos um mundo sensível, com vidas e sentimentos adormecidos e encostados na porta que trancamos com a chave que TU sempre guardas e EU sempre tento e quero esquecer.

Odeio-me. Odeio-te.

Odeio essa chave que insistes não perder. Odeio esta chave que encontro dentro de mim quando a minha memória a dá como extinta.
Odeio aquelas paredes, aquelas cortinas, aqueles lençóis devassados, aquelas vidraças…Saí! Agora voou eu e tu acenas-me das vidraças por onde me libertei. Voei e já não me odeio, enquanto sei que continuas a guardar a chave hedionda daquele mundo inteligível onde me esperas.

Já não odeio; já não amo; sobrevoou tudo o resto sem me atingir, sem que me atinjam.

quinta-feira, 30 de março de 2006

Hábitos

Peço desculpa pelo tamanho do post, mas foi fluindo.Deve ter sido por não escrever há tanto tempo
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As gravilhas soltas, no meu caminho de hoje, incomodavam mais do que nos outros dias. A expectativa duma morte anunciada persistia e o desejo dum abraço quente não passava duma quimera hedionda, quase repugnante, que me irritava e fascinava. As portas e janelas azuis e amareladas que me costumavam espreitar, sussurrando depois entre si, acenavam-me hoje; tudo era estranho hoje, até o sorriso do empregado de balcão que, todos os dias, me perguntava a mesma coisa “então, um cafezinho?”

Ergui os meus olhos pela primeira vez depois de ladrilhar as ruas e escapar-me de todas aquelas viagens, do metro ao autocarro, passando pelo táxi, todos horríveis, todos medíocres, sempre atulhados de gente transpirada, preocupada e frustrada. Vi a mesa vazia, do café de sempre. Sentei-me e aguardei a primeira lufada de ar fresco, que sempre me brindava com um bom dia, quando ali chegava; comecei, então, depois desse carinhoso gesto do vento, já tão habitual, a mexer o tal “cafezinho”, devagar e mergulhada nos meus pensamentos, e no fumo de tantos “camel”, “marlboro”, “SG” e afins…

O café já devia estar suficientemente frio, para não me queimar, e suficientemente quente, para não parecer uma qualquer substância estranha e nojenta. Engoli-o, demorada e extasiadamente, enquanto pensava em tudo o que se sucedera nos últimos meses…A vida havia-me demonstrado quão insignificante eu era, quão estupidamente perfeccionista era, quão inutilmente exigente era com tudo e todos…Constrangi-me.

Olhei então para o meu lado, naquela mesa ao lado, naquela mesma mesa que, todos os dias, ali estava, também com a mesma pessoa ali sentada a divagar. Todavia, hoje essa pessoa olhava-me. Era um homem, com um ar longínquo e fascinante; pela primeira vez vira os seus doces olhos penetrantes, dum verde acastanhado, a trespassarem-me a alma, como quem me despe e me quer conhecer. Sorriu-me e perguntou, timidamente, “tem lume?”. Respondi-lhe que não fumava e, prestes a voltar ao meu caderno pousado na mesa, onde escrevinhava uma qualquer idiotice sem sentido, ele ergueu-se da sua habitual mesa e pediu para me fazer companhia.
”_ Sim” - respondi desconfiada (não era todos os dias que o homem atraente se convidava a sentar-se comigo)
“_ Desculpe a indiscrição. Se estiver a incomodá-la, posso sair…”
”_ Incomodada não me sinto, talvez só confusa e admirada…”
“_ Tenho reparado que vem aqui todos os dias, que se senta nessa mesa, toma o seu café e escreve incessantemente…Intriga-me. Não é normal vir-se tão cedo para um local destes, tomar um simples café e escrever…”

Não gostei do ar intrometido e começaram a irritar-me tantas perguntas.
”_ Nem todas as pessoas têm os mesmo hábitos, de se sentarem, olharem para as notícias, conversarem ou fumarem um cigarro”
“_Tem toda a razão” - disse atrapalhadamente – “Peço desculpa. Mas, para lhe dizer a verdade, o seu ar alheado fascinou-me…Trabalha aqui perto?”
Mau…as perguntas multiplicavam-se!
”_ Sim.”
E, secamente, voltei ao meu caderno enquanto ele me observava.

Repentinamente, aquele homem que, irritando-me, me fascinou, levantou-se, pagou o meu café e saiu. Deixou-me sem sequer ter tido tempo de questioná-lo sobre o que fazia ali tão cedo, acompanhado dum calhamaço, cujas folhas estavam marcadas e dobradas, e dum mesmo cigarro chupado, duma qualquer marca que nunca antes vira.

O seu casaco negro fez com que as folhas secas, que anunciavam o final do Inverno, rodopiassem levemente sobre o chão pisado por milhares de pés, milhares de vidas, milhares de hábitos, deixando atrás de si tantas perguntas por fazer e por serem feitas. Aquele homem inquieto e inquietante deixou-me a pensar sobre o meu ignaro costume de todos os dias ali me sentar a escrever, a desabafar as amarguras que só eu sentia, que só eu compreendia e que só eu queria sentir.

Lembrei-me da solidão em que tanta gente se refugia para não ter de ser questionado; lembrei-me dos sentimentos que tanta gente esconde para poder aparentar ser feliz; lembrei-me de mim, quando era eu quem questionava; pensei em mim, um dia, acompanhada por alguém, naquela mesa de café, a rir-me do que hoje se sucedeu, e que me fez, sobretudo, lembrar.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Tremores, por amor

Desci as escadas e entrei naquele compartimento escuro que sentia ser meu…

Procurei-te em todos os recantos, onde um dia julguei deixar-te, onde um dia julgara ter-te perdido; procurei-te no chão, ainda amarrotado pela minha memória; procurei-te no meu corpo, na minha pele, nas minhas palavras… Por que voltaste às minhas recordações? Por que acicataste o meu coração, derreteste o meu cepticismo, despertaste a frieza dos meus sentimentos?

A imensidão de porquês devassam os meus pensamentos, enlouquecendo-me gentil e docilmente. Caí eu nesta loucura desmedida de pensar em ti, de gostar de ti, quiçá de amar-te só por um olhar meigo, só por um jeito rebelde, só por uma amizade honesta que me confundiu e agora me faz sofrer.

Rastejo pelo chão imundo e poeirento que me sustenta, arranho as costas, escorio os braços, esfolo as pernas…Quero expulsar-te de mim, mas não me consigo limpar de ti. Choro compulsivamente por mim, também por ti, mas sem dar por isso, pois sei que jamais te terei, sei que jamais te encontrarei naquela cave obsoleta de memórias e sentimentos que deitei a perder depois de carregá-los dentro de mim.

Dói saber-te noutro qualquer lado, a ser banhado com quaisquer outros sorrisos e presenças que me não pertencem. Quanto mais tento proporcionar e tentar a encruzilhada que nos possa vir a unir, mais vãs se revelam tais vis tentativas, que tu já conseguiste vislumbrar…Sinto-me inútil neste jogo de sentimentos que me inunda e me faz sentir tantas vezes ignara por te amar sem esperar nada em troca, por te querer sem ter o mais pequeno toque das tuas mãos, tão longas e grossas, tão repreensivelmente atraentes.

Amo-te e tu não sabes; amo-te e ninguém sabe; desejo-te mas sei que ter-te não passa duma quimera alimentada por um sentimento quase invisível todavia destruidor.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

E hoje é para ti maluca

Desci as escadas que davam para a entrada duma saída…

Vi-te, no cimo das escadas que me fugiam por baixo dos pés, acenando-me…

Não sabia que caminho ia seguir, simplesmente fugia do tudo e do nada; de tanto e de tão pouco; de mim e dos outros; dos sentimentos e da razão;

E tu, de súbito, cessaste aquele aceno doce e imperscrutável, que, por momentos, me deu forças para seguir o meu incógnito caminho, mas que logo de seguida, sem me avisar, me cerrou os punhos, me fez parar e pensar…

Tu fazes-me pensar, tu fazes-me parar para pensar…

Quando encostas a minha cabeça no teu peito e me deixas chorar, como uma criança; quando me acaricias a face e me cobres a nuca de beijos meigos, doces; quando me mostras que és o meu ninho, apesar de tudo o que possa acontecer.

As minhas solitárias lágrimas salgadas hoje atraiçoaram-me; tu, uma vez mais, agarraste em mim e disseste que me amavas, que compreendias o turbilhão de sentimentos e dor que me inundavam. Tu compreendes sempre, não é?

O sabor inóspito da solidão, pela primeira vez em tempos, deixava-me na boca um travo a fel.

Explodi, hoje explodi, tu, e aqueloutra desvairada, atraíram-me lágrimas, na aflição de mas suspenderem…Nenhuma de vós conseguiu, nem tu.

Foste tu, uma vez mais, que me fizeste olhar para trás e subir as escadas novamente.

Cobriste-me o corpo trémulo nas roupas da tua cama.

Ficaste a ver-me adormecer.

Acompanhaste-me os meus pesadelos, enquanto me limpavas os suores frios que escorriam pelas faces requeimadas de incertezas e dores incompreensíveis.




"Come what may, I will love you until my dying day."
(hoje foi finalmente para ti!!!)