quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Cada vez que o lençol enrugado toca a minha pele, aquecida pelo calor exagerado dos dias, fecho os olhos e imagino…

Deambulo num mundo coberto de faz-de-conta, com um denso fundo verídico, de acontecimentos que parecem tão distantes, mas que, em simultâneo, me aquecem o coração, pois senti-os, vivi-os, fizeram-me sentir viva.

São esses olhos castanhos, esverdeados, fundos, brilhantes e doces que me vêm à memória, nestas noites quentes de verão, onde sentir-te é algo recorrente, mesmo sabendo que muitas milhas nos separam…

Oh, rapaz do sorriso escondido, pose séria mas inesperadamente descontraída, onde estiveste? Onde estiveste tu, enquanto as estradas eram feitas de terra batida, esburacadas e com gravilha solta? Onde estiveste tu, quando os Invernos eram longos e frios, as estradas inundavam e ficavam lamacentas?

Oh, rapaz do sorriso bonito e olhos sem medo de se expressarem, encontrei-te um dia, sem querer, enquanto te sentavas na esplanada verde alface, numa terra que não era a tua, num território que desconhecias, num dia em que te escondias num falso ar tímido, num dia em que pouco disseste…

Oh, rapaz do sorriso tímido, sem pedires autorização entraste, sentaste-te, tomaste conta do território que pensava ser eu que dominava e, agora, és detentor dum infindável número de chaves, daquelas grandes e pesadas, que não te importas de transportar…

Oh, rapaz do ar sereno, quando me envolves nos teus braços e prometes que nada mais interessa e eu acredito piamente…quando entras porta adentro, com tanto para me oferecer, deixando-me deleitada…

Oh, rapaz sério, quando ousas tremelicar o chão que piso, enrugas a pele da boca e manifestas o teu desagrado; até aí tens o teu encanto, do alto do teu ar de senhor da razão, enquanto, em bons dias, eu me rio e tu sentes-te despido…

E enfim, rapaz que tomou parte do meu trono de pseudo-queen iludida, com tantos dogmas que tens prazer de derrubar, fazendo-me sentir uma pequena criança, com tudo para aprender... Obrigada por teres aparecido naquela noite quente, apinhada de gente.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Nas mentes perfeitas que deambulam algures, ao sabor do vento, eu voou enquanto a corrente de sempre me liberta e me faz crescer.

A última vez que nos vimos, eu dançava ao som de músicas nossas, que já não são as de sempre. Muitas vezes culpo-me, mas não consigo imaginar porquê, visto que sempre me desejei o melhor; frequentemente, culpo-vos por não quererem o melhor para vocês, por viverem sempre dentro da vossa bola de perfeição imaginada, que fica aquém das expectativas mais altas, que fica aquém daquilo que um dia desejaram para vocês.

Sabia-me bem ter-nos por perto, no final de mais um dia, quando regressava a casa. Contudo, a nossa perfeição já não sabe ao mesmo que antigamente; os nossos abraços já não existem; restaram-nos os olhares que escondem o que pensamos realmente…

Entre o ar convencido de mais um cigarro, o olhar vazio de objectivos, um dia cuja lacuna de ocupação me endoidece e a vocês vos delicia; entre mais uma conversa onde me sinto retrógrada perante o que vocês acham ser o vosso senso comum…Entre tanto e nada, já não vos encontro todos os dias…Esporadicamente, quando as diferenças se anulam, quando opostos se atraem e iguais se repelem…

Um dia, tive saudades de regressar a casa…

Hoje, tenho saudades de regressar a vossa casa…As portas e as janelas estão abertas, bem sei…Mas, simplesmente, o círculo fechou-se sem que eu decidisse ficar lá dentro…Estarei à volta, mas não vou esperar que um lugar fique vago; há alturas em que simplesmente temos de deixar ir, seguir um rumo diferente, sem que isso signifique ficar de fora, para que isso simplesmente signifique que estaremos pelo que nos uniu um dia, mesmo quando não queremos nem pertencemos a esse lugar, lá dentro…

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Aqui estou, de novo…A projectar algures um olhar, em silêncio, enquanto o vento me acaricia a pele coberta pelas roupas que vão diminuindo à medida que os dias de sol se prolongam e entram, manhãs a dentro, sem pedir autorização.

Queria sentir-me pendurada nas asas dum grande pássaro, cujo ninho é difícil de encontrar, por mais que se procure, surgindo na simplicidade duma pequena nuvem esbranquiçada…

O eterno medo que ecoa nas paredes da caixa do tímpano e que, com silêncio, me fala, quando uma orquestra divina se eleva do aparelho que projecta sons, como que escondido entre um grave e um agudo, perfeitamente sincronizados, que só um ouvido treinado consegue identificar. Não sei, não sabe ninguém…

O aroma de um novo começo exala das velhas paredes por pintar e por preencher…Há tanta coisa para recomeçar, tanta coisa para colorir e dignificar…O vento que me chicoteia a face, em mais uma viagem de regresso a casa, obriga-me a contrair os músculos da mímica, estampando-me um sorriso na cara…

Cheira a casa, cheira a tranquilidade, cheira a mudança, cheira a optimismo…

Assim devera sempre ter sido, entre um dia longo e repleto de trabalho e um dia leve e ocioso, sem distinção aparente, sentimentos de plenitude, de adaptação, de pertença…Porque nada se equipara a um suspiro de final de dia, com uma chávena de chá quente e fumegante, um sorriso e brilho no olhar, duas mãos dadas…

Dois sorrisos, dois olhares, duas mãos dadas, dois corpos, duas pessoas…A parte II que começa, transportando os actores principais da parte I…

É bom sentir de novo que posso chegar …

sábado, 11 de abril de 2009

Frio, feio, fraco…

Num tum-tum desesperadamente fraco e feio, tenta sair das cavidades musculares que o contornam e aprisionam…

É uma imagem redonda, suja, esfumada com tempo e feridas…Não sei o que é, donde vem, porque vem…porquê agora?

Um dia já foste quente, belo, vigoroso…Uma imagem bem definida, com todas as dimensões bem delimitadas, todas as cores individualizadas, resplandecente, e tão simples…

O vento assola os cantos do quarto branco, com paredes manchadas com fotografias de um século que já passou; esse vento frio, de um fim de Inverno que ousa meter o pé direito na estação que não é a sua, chicoteia o meu corpo nu e sozinho…

Faz-me acordar…

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Hoje é um daqueles dias brilhantes, em que o Sol de Inverno espreitou por entre as nuvens dos dias que têm decorrido, sempre com a mesma calma, sem um tic-tac apressado…

Fitei o horizonte lá fora, enquanto, a custo, mantinha os olhos abertos, pela luminosidade…É um dia deslumbrante, o de hoje…

Procurei-te por entre as nuvens, o céu, o sol, à espera de encontrar o teu olhar a cruzar-se com o meu, porque também tu aprecias este dia que amanheceu tão belo, simples e delicioso. Queria abraçar-te e dar-te os bons dias, porque o dia de hoje chegou tão rápido, sem que nenhum de nós quase desse por ele.

Queria sentir o teu abraço prolongado, o teu olhar terno, cor de mel, a fitar-me atenciosamente, com um ar deliciado, como se nada mais importasse…Sem que se importasse com as imperfeições, com as lacunas, com o tempo, com o espaço.

Queria sentir-te, só hoje…

Queria comemorar contigo, enquanto sorríamos e nos brindávamos intensa e carinhosamente com todo um elixir que criámos, a que muitos dão um nome específico, mas a que eu teimo em chamar simplesmente “Nós”.

Queria sentir-te, só hoje…

Imagino-te enquanto me acaricias a face e alisas os cabelos, à espera que as minhas pálpebras cedam e o nosso dia finde, de um modo tão perfeito quanto o seu início resplandecente.

Queria sentir-te, só hoje…

Imagino-nos, um ser só com duas almas, que caminham juntas, sem que mais nada interesse…Nada mais interessa, para além do sol que nos ilumina, o vento que nos chicoteia os corpos leves e a brisa de ondas suaves que nos alimenta, à medida que se desmancham numa espuma divinamente cândida.

Queria sentir-te, só hoje…

Fora, o dia vai passando, deleitado com a sua perfeição e nós continuamos a buscar o olhar um do outro, algures no horizonte perdido, do nosso dia que finda. O pôr-do-sol anuncia-nos que hoje passou e o nosso dia permaneceu na distância física limitante; todavia, amanhã será mais um dia, e fá-lo-emos nosso, tal como o dia seguinte e depois…

Por hoje, por amanhã, para sempre…Só queria sentir-nos!