quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Um salão da vida

Este é para eles, para vocês, para nós...
Maluca, para ti também, que compreenderás e concordarás...Agora já sabes porque poucos perduram...
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O tiquetaque cáustico continuava…O relógio suspenso na parede sebenta e amarelada pelo fumo, pelas noites galantes, pelos tempos de outrora, não cessava, no entanto tardava. Divaguei durante horas a fio, imaginei tantas coisas que mergulhei num estado de enfraquecimento psicológico exorbitante, já não sabia distinguir o real do artificial.

Algures numa noite fria, em que a lua espicaçava o céu, afirmando a sua plenitude, em que as estrelas se vestiam duma cor pura e bailavam na maior imensidão conhecida, aquela sala tornara-se mais nítida, mais branca, mais actual, coberta de pessoas bem vestidas, bem pintadas, com uma música de fundo tão doce…O ar era perfumado, colorido, cheio de glamour. Num canto encontrava-me eu, sim eu! Como seria possível, eu ali naquele canto, só, num corpo que não parecia meu, numa roupa que nunca antes vestira?

Pelos meus olhos vislumbrava tudo, pelos meus outros olhos pintalgados com cores a condizer com a roupa que trajava, via o cenário daquela sala que me fazia sentir malograda. Era um simples e hediondo ser que ali se estancara sem pedir autorização, naquela cadeira de costas largas do estilo rococó. Porém, com os meus outros olhos, via um ser fantástico, apenas pouco convicto de si mesmo, com pena de si mesmo, vitimando-se a si mesmo…será que esse “si mesmo” existia, será que sempre havia existido, será que ter-se-ia tornado assim pelo acaso do destino?

Aquela figura solitária ergueu-se do estado melancólico em que se encontrava, e da cadeira requintada, deambulou por aquele vasto salão densamente ocupado, finamente decorado, viu caras, não viu corações, gozou de conversas triviais, tais como todas na nossa vida, avaliou as pessoas e concluiu que não era assim tão deprimente estar ali, naquele mundo de hipocrisia, naquele mundo de falsidade, naquele mundo maquiavélico que muito daria para vê-la tombar subita e vorazmente. Olhavam-na com o ar mais angelical, maldiziam-na entre dentes…Aclamavam-na ruidosamente, sibilavam-lhe agoiros…E ela sabia, isso fazia-a diferente, superior, ela sabia e continuava com o sorriso desenhado nos lábios carnudos, com um brilho intenso contornando os olhos cor de breu, com o ar intocável que lhe era característico...

Aquele não era definitivamente o lugar mais indicado para se movimentar, aquele não era o ambiente mais afável para respirar…Aquele era o mundo do absurdo, em que muitos se mascaravam, poucos tiravam as máscaras e outros conseguiam enganá-la, deslumbrando-a, embrenhados nas máscaras sufocantes e persistentes que raramente deixavam…Esses sim, eram os que maior confusão lhe geravam, os que maior constrangimento, mágoa e dor lhes provocavam pois eram os únicos a que se dava a conhecer e que simplesmente amarfanhavam a sua dedicação, lealdade e honestidade…sim, honestidade, naquele mundo medonho!

Deslizou para a porta de saída, sempre mais distante que a de entrada, do outro lado estava o seu lar protector, cada vez mais diminuto, o mundo em que talvez ela também tirasse a sua máscara de insensibilidade frente dos que ainda lá permaneciam…

Naquela mesma noite, antes de desertar, clamou “Este não é o meu mundo, nem nunca irá ser, mas um dia, abaterá!”…

Despertou-se daquela quimera e olhou-se, agora num mundo subjugado, vazio, solitário…teria sido uma ilusão, um presságio ou um sonho? Ignorei…Saí e, uma vez mais, passei a porta de entrada, ou saída, agora eram uma só.

6 comentários:

  1. E o mundo está repleto de máscaras que teimam em não sair... Fantástico, os meus parabéns.

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  2. muito bom como sempre. Gostei, apesar de sentir alguma mágoa nas palavras, yet so much truth.
    beijos, continua a embelezar o mundo com as tuas palavras. fica bem, boas festas**

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  3. "já não sabia distinguir o real do artificial"
    já senti isso

    gostei do texto. sei lá o pq

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  4. Esse "outro mundo" não difere mutio deste que conhecemos, excepto que neste ninguém tem 2 pares de olhos =P. Tou no gozo. Texto muito bom, reflecte bem a sociedade em que co-existimos e teimamos em chamar "nossa". Olha que os blogs "lamechas" fazem falta, se o mundo fosse só uma data de parvalhões alegres como eu, estávamos pior que estamos. Obrigado pelo comment, sabe sempre bem ter outros "bloggers" a apreciarem as nossas idéias/escrita. Beijo! Ah...já tás nos links do meu blog ;)***

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  5. Até escreves bem. Sinto é um bocado de melancolia a mais na tua escrita... talvez até algum ódio, ou pouco tolerancia, não digo racial, digo mais em termos de paciencia.

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