O frio enregelara-a durante a noite. Procurara-o, o corpo ardente e frígido ansiava o do seu amado desencontrado. Há várias noites que dormia acompanhada da sua própria solidão, sem qualquer vestígio da presença do seu enamorado. Temia o pior, o seu desaparecimento fora macabro, ou talvez premeditado.
Naquelas desesperantes noites, Sofia não dormia, porém permanecia como que adormecida naquele estado apático e, ao mesmo tempo, comovente. A saudade, nas últimas horas, havia sido acicatada pelas memórias concebidas por todas as palavras e gestos que ambos os amantes trocavam nas longas noites que os envolviam.Sofia, repentinamente, acorda deste estado de sonambulismo prolongado. O seu estado de espírito tendia para melhorar, com um misto de raiva e esperança, contudo ela desejava progredir e esse seria o caminho, ou assim o julgava ela.
Passaram-se dias, passaram-se semanas e meses, por fim. Oito meses e trechos de um nono depois, Joel regressa. Na bagagem, para além dos seus olhos verdes acinzentados e uma expressa vontade de alcançar a jamais esquecida sua Sofia, trazia experiências fantásticas, escandalosas para os mais puritanos, escaldantes para os mais curiosos.
Joel dirigiu-se para a última morada em que se encontrara com a sua bela Sofia, o último local em que vislumbrara os belos olhos castanhos de Sofia, que conferiam ao seu rosto uma doçura dulcificada, uma expressão límpida, o último sítio em que o seu toque alcançara a pele macia daquela linda mulher que tanto o fascinava. Chegado ao palacete de amor, deparou-se com novos inquilinos, nova decoração, tudo novo, sem qualquer ínfima recordação física da paixão que ainda lhe assaltava a alma e lhe corria nas artérias.
A procura de Sofia revelava-se dura e é quando menos esperava que a fita: uma mulher bem mais segura de si, isso via-se pelo andar, mais serena, convicta dos seus ideais e valores. Foi intenso o olhar que trocaram e clarividente o turbilhão de sentimentos que emanavam, fruto de tão intensa ausência.Os dois ex-amantes sentiram-se tentados a matar aquela saudade, contudo tinham que cessar essa envolvente vontade; Sofia era agora uma mulher de outro estado, era agora casada e naquela noite tinha decidido não dar azo àquele sentimento que a unia a Joel. Confrontada agora com o amor constrangido dentro dela, não podia, o dever era respeitar o seu dedicado marido.
Joel atordoado, Sofia confusa, foram ambos obrigados a afastar-se, dado que a tentação ousava assombrá-los. Ela, como casada, não o podia permitir, ele como respeitador não a queria compelir. Entre lágrimas e dores na alma, despediram-se e não mais voltar-se-iam a ver, todavia essa certeza não a possuíam ainda. Seguiram as suas vidas e, todas as noites, eram embalados pelas recordações daquele que fora o mais puro dos amores que haviam vivido.
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