quinta-feira, 28 de abril de 2005

Fuga

Sorrateiramente abri a janela e espreitei. Ninguém se via e o barulho do silêncio deu-me um irrevogável alento. Ergui os braços e impulsionei o meu corpo, concentrando todas as minhas forças e esperanças naquele salto.

A bagagem mínima que transportava exercia em mim um peso enorme que não concordava em pleno com a quantidade de acessórios que era transportada…dentro de mim era certo que vinham todas as memórias doces que naquele momento decisivo, que mudaria a minha vida, ainda me fizeram vacilar. O abraço carinhoso e atento da minha mãe, o sorriso longo e caloroso do meu pai, o gozo descabido do meu despropositado irmão, as infindáveis refeições cobertas ora de gargalhadas ora de sérios assuntos…

As pernas começaram a fraquejar, enquanto os braços constantemente me atormentavam através do seu estado entorpecido. Duas grossas lágrimas, por fim, atraiçoaram-me e ousaram rolar pela minha face ofegante; desatei num malicioso pranto: “não vos podia deixar” dizia-me o mais sentimental dos meus lados. Todavia as pernas, apesar de doridas, maquinalmente seguiam por todas aquelas ruas e vielas adormecidas, no canto daquela noite em que perdia o coração, gelando-o.

Não me podia atrever a desfalecer de novo, não podia temer o futuro que seria a minha própria vida. Evitara as longas despedidas comoventes, porém vocês sabiam-no, sentiram com o meu coração, com a minha alma, com a minha pele, com o meu corpo o sofrimento que durante tanto tempo me agonizou, as dúvidas que insistentemente me invadiram…mas eu tinha de partir e vocês sabiam-no, não me podiam prender ali, chegara a minha hora de me assumir como pessoa e deixar de viver na vossa sombra, como que um parasita ou outro qualquer grotesco animal que vive a sua fustigante dependência de modo feliz. Por que é que eu nunca fui assim? Vocês ficariam certamente mais felizes se eu fosse, não ficariam?

O Sol ameaçava enfim romper no horizonte, tal como a minha nova vida. As lágrimas haviam secado e o meu corpo estava agora imune à dor e ao sofrimento que, ao longo da noite, me rasgara o equilíbrio e o coração. O cansaço tomou-me enquanto repousava naquele pedestal lamacento e frio e o sono venceu-me. Mergulhei no meu mundo predilecto, no qual guerreei, venci, comemorei; no qual me completei e atingi o meu auge.

Um barulho ensurdecedor despertou-me finalmente. Estava quente e aconchegada. Preguiçosamente abri os olhos, as minhas janelas, e deparei-me com o meu quarto, donde ainda não havia saído…

3 comentários:

  1. ixx..Quantas e Quantas vezes não sonhamos com essa mesma fuga?!e Quantas n temos mesmo a coragem mas dps falta.nos a verdadeira vontade..?
    Nem vale a pena dizer Q tá porreirissimo pq tu ja o sabs=)
    Adr.t miuda=)*******
    t.

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  2. É tao lido, mas tao lindo ver-te escrever desta forma amiga..!! Sabes que mais, tu tens muito talento para a escrita miuda! Falo sério..gostei muito,muito,muito do que li, mas daqui a uns anos quero estar sentado perto do mar, a ouvirgaivotas cantarem, ao som das ondas do mar, vindas do infindavél ocenao que banha toda a nossa bela costa,o atalntico, numa bela tarde de verao e a ver no horizonte,o sol esconder-se, devorando um grande romance ou outro, desta minha grande e para sempre amiga..Verdinha...!!( muito lindo hammm) Um beijo e um abraço deste teu grande amigo...Verde!!

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  3. Sonhamos com essa fuga (tal com o t. disse) mas e quando esse suposto sonhos se concretiza? Parece o inferno... sentes saudades de tudo o q viveste e de todos os q viveram esse "tudo" contigo! As lágrimas parecem não querer parar de cair pela nossa face... mas quando esse "sonho" da fuga termina... finalmente está tudo bem apesar de voltares a sentir saudades... desta vez, da fuga!
    (falo por experiência própria)
    O texto tá lindo mor!

    Mimi

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