As têmporas latejam.
Cerro os olhos.
Imagens correm sem parar, sem fazer sentido.
Concentro-me numa das partes do meu corpo cansado.
Quero parar de discorrer sobre o trivial do dia…
Sobre o parágrafo número duzentos e quarenta e sete que nunca reterei na memória…
Sobre aquele nome complicado em alemão ou em russo que eu nunca vou saber dizer…
Sobre aquela via manhosa que para mim é inatingível…
Respiro fundo, volto a cobrir-me com os lençóis, aconchego-os ao pescoço e enrolo-me em posição fetal, qual criança desprotegida e só.
E a mente não pára… Continua a deambular pelos recantos mais recônditos de dias que já passaram há muito tempo, de conversas que já foram há séculos, de momentos que parece que foram há milénios… Mas não terá sido tudo ontem? Outra memória surge sem me deixar localizar temporalmente.
De repente, surge o teu rosto. Será que adormeci? Será que estou já a sonhar? Uma gargalhada rouca e passos no andar de cima dizem-me que não… Também tu quiseste invadir os pensamentos efémeros desta noite… Como raio te fui buscar também a ti, agora, a estas horas?
A tentativa de me concentrar nos dedos dos pés esvanece-se, enfim… Tento agora os dedos das mãos.
Não, não, não… Sinto agora todo o meu corpo numa frequência cardíaca coordenada e rítmica, lenta, espaçada…
Sem pensamentos? Agora? E… aquele rosto? Eu conhecia aqueles olhos esverdeados… mas donde?
Concentro-me agora na pulsação carotídea…
Entre um turbilhão de dúvidas para o dia seguinte, a insegurança característica e pensamentos descoordenados, abro os olhos. Tenho menos duas horas para dormir… MERDA!
Levanto-me… dou um trago na água, sempre à cabeceira… O vizinho continua a rir-se. Odeio-o, também! Aposto que ele não tem pensamentos a percorrerem-lhe os vasos de todo o corpo!
Deito-me novamente, agora em decúbito dorsal.
Concentro-me na minha respiração.
Mais imagens…
Luto contra o tempo, o corpo está cada vez mais cansado mas as pálpebras agora decidiram não cerrar… Querem vislumbrar na escuridão, no meio do “tudo desfocado” e do “tudo escuro”.
Afinal, quem sou eu? De repente, ocorre-me… A ausência duma resposta imediata assusta-me. Respiro fundo… Começo a sentir o corpo a desligar da mente, mais pensamentos…cada vez mais longe… Num sítio não antes visitado naquela noite.
Um despertador irritante toca sem parar. Exige que me erga… Ai! Doem-me os membros… parece que passei as últimas horas a contraí-los.
A mente está suja e confusa… Tenho a sensação que passei a noite a sonhar acordada… ou a pensar adormecida.
Apetece-me voltar para a cama. Não posso. Mais um dia.
Olho para a roupa previamente escolhida no dia anterior. Tudo metodicamente preparado para representar quem sou e tentar mostrar que o meu raciocínio vale algo…que não vale.
Bom dia, eu!
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