domingo, 5 de fevereiro de 2012

“- Escuta…” – diz a voz dela, envolvida num tom melódico e doce.


“- O que foi, de novo?” – responde-lhe ele, sempre no mesmo tom monocórdico e distante.


“- Por que me afastas assim, quando sentes que te aproximaste demais?” – a preocupação tomava-lhe conta da voz, da mente, do espírito e até do corpo. Era fácil senti-lo nas entrelinhas daquelas palavras, entre uma ruga e outra da sua face, onde o tempo já mostrava evidências de ter passado.


“- Oh!..” – a mesma resposta, o mesmo tom, o mesmo olhar fugidio e vazio, que durava há décadas.


“- Sempre a mesma coisa. Há palavras que uso e te custam. Tens medo delas. Mas são mais fáceis, do que ficar perdida nesses “ohs” constantes, que nem sei que querem dizer. Sabes que há palavras assim, que são usadas para nos impedir de pensar, e só porque caiem no hábito” – ela sabia sempre que dizer.


“- Não te irrites… Sabes quem sou e conheces-me… Sabes bem qual é o meu “estilo”, não é só uma farda de fim-de-semana, ou de época de férias” -  os silêncios intercalavam-se nas frases que proferia. Parecia que ele nunca sabia o que ia dizer a seguir, ou o que dissera antes. A volubilidade das suas palavras era proporcional à dos seus actos.


“- E se eu agora me fosse embora?” – a firmeza da voz, que a caracterizava, tinha-se feito notar mais do que nunca; falava com certezas do que queria.


“- Era difícil. Vives aqui, lembras-te?” – diz ele, com o seu sorriso trocista. Eis o que a intrigava. Essa inequívoca sede de surpreender, mesmo nos mais ásperos momentos.


Ele ergue-se enfim, dos mesmos lençóis amarrotados e usados, pelo tempo.


“- Difícil és tu. Não entendo por que motivo te conheci, sabes? Estava numa fase apática da minha existência e vi-me esvaziada. Por algum motivo, não te amo. Gosto de ti, não daquela maneira que desconcerta as pessoas, deixa de fazê-las pensar com frieza e coerência. Mas tu foges sempre que dizes que me amas. Que raio de amor?” – ela parecia cansada.


Ele começa a ajeitar a camisa que usava nos dias de festa, em direcção ao espelho majestoso que espelhava toda a sala requintada em linhas modernas.


“- Ah..deixa-me adivinhar. Não vais responder.” – continuou ela…já de esperança totalmente perdida.


“- Não me fizeste nenhuma pergunta.” – diz ele, com olhar preso no infinito, tão focado interiormente que ela achava e pressentia que podia mesmo desaparecer.


“- Merda. Eu não te quero salvar, nem quero que me salves. Apenas quero saber por que motivo há esta corda que nos une, mesmo quando em pontas separadas e com múltiplos acidentes de percurso no caminho.” – ela olhava já para o vazio também; ele pegara-lhe essa mania…estava surpreendida como tinha verbalizado tanto.


“- És uma tagarela. Falas o que deves e o que não deves. Sabes que me apaixonei por esta, por aquela e pela de ontem, a mesma que tu me introduziste e fizeste força. Que queres que te faça? No meu interior, tenho duas almas em guerra. E queres rir-te? Nenhuma delas vai ganhar, nem tu lhes vais ganhar. Nasci com defeito.” – Ele tinha enfim terminado de arranjar o cabelo e manter a aparência, em simultâneo com o momento em que começara a abrir a alma.


“- Meses por três frases sem sentido? Dá-me vontade de te aplaudir, mas não me apetece. Já me basta que ridicularizes a minha idade, os meus cabelos brancos a nascer e as minhas rugas de expressão. Já me basta que critiques os meus hábitos. Já me basta de ti, bolas!” – o cansaço era cada vez mais evidente; ela desconhecia a sua própria clarividência quando olhava para o olhar dele.


“- Tu cresceste e eu fiquei no mesmo sítio?” – ela fazia perguntas a ela própria todos os dias; por que raio as verbalizava agora?


 “- Por favor… não dificultes tudo. Amar em abstracto é muito mais expedito do que fazê-lo em concreto” – as suas curtas palavras vedavam-lhe o acesso a ele, deixando que as palavras dela se transformassem somente numa massa fosca.


“- Sabes?” – na voz dela ecoavam-lhe coisas que não sabia como dizer.


“- Sei o quê? Eu nunca sei! Às vezes dá-me vontade de gravar as nossas conversas, as nossas partilhas, para ouvir ao final do dia…Mas há outros dias em que só me apetece evidenciar as diferenças que temos e os momentos irritantes que protagonizas… Que culpa tenho eu? Eu sou assim, mergulho na minha solidão humana e rasgo retratos e memórias que poderia guardar, ou até mesmo ter todos os dias.” – havia sempre aqueles momentos que a confundiam, em que a alma dele se abria sem pedir permissão.


“- Sabes? As coisas podem deixar de durar e isso significa que se alteraram. O simples facto de podermos deixar de ser, pode alterar-nos, mesmo que tentemos não estancar a sua manutenção… Estou velha, sabias? O tempo tem passado por mim e não fica. Amanhã, serei eu de novo, no mesmo sítio de sempre… O hábito às vezes torna-se meu amigo, torna-se bom… “ – nas palavras dela, não havia qualquer tentativa de tentar convencê-lo a ficar.


“- E é por causa disso que te pergunto o que sabes. Não sabes nada. Sou sempre eu que tenho de te dizer. Amanhã vou partir. Provavelmente, ficarei longe daqui por anos, décadas. Provavelmente voltarei com uma família e hábitos diferentes enraizados. Não fiques com a minha chave. Já não vai voltar a entrar na fechadura.” – uma lágrima desenhou-lhe o trajecto da base no rosto, com um rasto negro do rímel.


“- Compreendo. Talvez um dia saiba amar para lá da breve chama do desejo. Vai fazer-me falta alguém que não ache que é sempre tudo normal. Vais fazer-me falta.” – Ele afaga-lhe o rosto, sorri-lhe e prende-se num beijo simples e terno, no hall de entrada pintado em tons de verde seco.


Sai… Deixa atrás o rasto do seu aroma, tão velho e conhecido. Ela fica a sorrir, de olhos fechados. Quando ele já está na rua, na sua moto topo de gama, que todos invejam, ela responde-lhe, sabendo que nunca a irá ouvir.


"- Vou? Não me parece.”


E nisto, ela descobriu um cheiro que só se descobre depois.
Longe… cada vez mais longe, tão longe que ela já nem se lembraria como era.


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