domingo, 17 de junho de 2012


Inverno.
Nuvens espessas, tristes e carregadas de gotas de água pesadas, geladas e infindáveis.
Fizeste tremer a janela velhinha, de estores instáveis, com o impulso dos nós dos teus dedos, que não cessou até que o meu rosto surgisse através dos vidros. Lembro-me bem. Era um daqueles dias em que o pijama polar não sai do corpo e me acomodo ao quente do lar.
Olhei para ti e sorri-te. Vinhas encharcado, triste e com a alma cheia de pesares e lamentos.
Fiz-te rir dessa amargura toda, no fundo daquele laço que começávamos a criar. Algo que ficava no meio entre uma cumplicidade fraterna e um carinho de melhor amigo.
Sentámo-nos e enrolámo-nos nas mantas de casa. Enquanto degustávamos um copo de vinho do nosso Alentejo, falámos sobre os males do mundo e os teus males. Sempre me perguntaste se os meus males não interessavam e eu sempre te respondi da mesma forma “Sabes como sou! Não gosto de falar sobre os meus males, porque eles não se resolvem”.
Ficámos assim por horas, por dias, por semanas, por meses…
Esses momentos de refúgio foram-se transformando em quase imprescindíveis (e diários) para ambos. A tua mágoa ia dando lugar à negação, depois raiva e, por fim, esquecimento…Ou assim pensávamos ambos.

Primavera.
Pólen no ar. Comichões no nariz e nos braços. As primeiras t-shirts.
Desde o café inocente, às mensagens rápidas e fugidias, pelas quais sempre detestei comunicar, passando por mais uma imperial nos primeiros dias solarengos.
Era só mais um cigarro que acendias. Deixa-te ir ficando. Sabia bem ter-nos por perto. Sabia-te a quê?
Não soube onde foste buscar aquele beijo terno. Assustou-me. Fugi.

Verão.
Quis voltar.
Mas a tua amargura, a tua fuga, todo aquele início de algo que eu já tinha presenciado, repentinamente, despoleta-se uma vez mais.
“Ela voltou”, dizias-me tu com um misto de raiva, empolgamento e esperança.
Sem perceber porquê, doeu-me o peito… doeu-me a barriga… os olhos ficaram húmidos e o coração acelerou…
Tive vontade de te abraçar e pedir desculpa por ter fugido, por me ter assustado e ter renegado tudo o que me poderia fazer sentir novamente o pulsar das artérias, o contrair dos ventrículos…
Já vou tarde.

Outono.
Não sei como serás.
Vazio, seco, áspero e sem sentimentos?
Não importa. Nada mais importa.
No dia em que aprendi a sentir já não valia a pena.

Anseio pelo Inverno.

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