Há partes de mim que doem sem que eu queira.
Um egocentrismo desmedido, talvez…
Um lado negro que grita mais alto que qualquer sorriso ou gargalhada, que qualquer gesto mais simpático ou acção mais amistosa.
Olho para dentro, na esperança de achar o que fui, o que sou e o que quero ser. Encontro-me, despida, fria, a tremer… Estou enrugada, enegrecida, desnutrida… No que me tornei? Será que sempre fui assim?
Uma desilusão enche-me as entranhas, que se revolvem sem que eu consiga impedi-lo.
Ao meu lado, vão convergindo e divergindo inúmeras linhas de comboio, que não sei para onde vão. Ao fundo, não consigo focar nada para além duma mancha nublada, onde começa a chover.
Ecoa-me na mente uma voz familiar que me diz “Nascemos para aquilo que nascemos e somos quem somos, não o podes mudar… Haverá sempre alguém melhor, em qualquer lado!”.
A perspectiva futura duma incerteza constante faz-me lembrar de como é assustador chegar a casa, ao final do dia, e não ouvir nada para além do silêncio, não ouvir nada para além da minha própria respiração, não ouvir nada para além da minha taquicardia constante.
Não entendo o porquê de toda esta estranheza e medo, já que até há meia dúzia de dias me fazia sentir tão bem, tão calma…
Tento novamente focar aquele ponto ao longe, onde a chuva já começou a desabar. É estranho aqui ainda estar tanto Sol, sem uma única nuvem a cobrir o céu. Há tanto tão estranho…
Tento, sem parar, sem que algo me consiga parar… Sempre tentei, estou habituada a perder as forças a fazê-lo. Não consigo, uma vez mais…
Só mais uma vez… É sempre só mais uma vez… Tornei-me na rainha do “só mais uma única vez”!
O coração pontapeia-me o tórax sem cessar. A cabeça lateja de dor. Os olhos, semicerrados, não param de arder. Todos os músculos estão fracos e cansados. As articulações não obedecem às ordens mais simples, de tão obstinadas e gastas estarem.
Quero deixar-me ficar aqui, perdida, sozinha e fria. Não consigo mover-me nem tentar só mais uma vez.
As minhas tentativas gastaram-se e restou-me ficar aqui, à espera que a nuvem desabe ou que o Sol persista…
Não vou conseguir continuar a correr e a tentar apanhar aquele ponto que de vez em quando consigo focar, aquela mão que parece querer entrelaçar-se na minha e fechar, aquele abraço que parece querer envolver-me e aquecer-me…
Hoje não quero continuar, não quero tentar, não quero ficar…
Hoje apenas quero sentir pena de mim, de ti, de nós e daquilo que eu gostava de ser.
Hoje não vou focar o ponto.
Hoje vou ignorar e deixar que a nuvem desabe ou o sol fique, porque nada importa… nada mais importa.
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