quarta-feira, 28 de novembro de 2012



“Não sabes se vale a pena sentir, não é?”

Fora, os vidros gelam com a brisa da madrugada mais fria do último milénio. As tuas próprias lágrimas não vertem dos olhos secos porque têm também medo de ficar perdidas num qualquer esquecimento, exactamente da mesma maneira que tu julgas que as coisas acontecem.

“Quanto tempo terei de usar esta máscara de pateta feliz? Sorrir e acenar? Cumprimentar da forma mais cordial de sempre, com vontade de o abraçar e aquecer as mãos frias?”

Não o faças, querida! Há coisas cujo significado importa imenso, mas a forma como as dirás ou o que farás são cruciais.

“Hm…” – encolho os ombros, escondo a cara enquanto olho para o chão e, repentinamente, numa gargalhada sonora, interrompes-me e disparas.

“FRASE DE ENGATE PERFEITA!!! - Já alguma vez te disseram como esse nariz torto que ridicularizas te faz parecer quase perfeito?”

Perfeito? Não.. Impossível. Sei-o bem, querida. Até porque, ainda hoje, aqui tão longe, com séculos a separarem-nos, continua a ecoar dentro da minha cabeça, perturbando todas as sinapses que poderiam ocorrer em pleno Sistema Nervoso, “QUEM ÉS?!”.

Sempre achei que o final de todas as histórias é sempre o mesmo. Chega a Primavera e depois o calor, juntamente com novas cores, e o Inverno tenebroso e mais gélido de sempre cai num esquecimento atordoante e que embriaga o pateta mais sisudo. E agora? Que devo dizer-te? Encolho os ombros, sem que me vejas, sem que sequer me oiças.

“Sabes… Eu nunca achei particular veracidade naquela parte das músicas que falam de quão repentina uma coisa é ou nasce ou surge. Nunca consegui entender o drama envolto nas lágrimas, na raiva. Apenas consigo entender o vazio, a solidão.”

“Mentira… ambas sabemos que é mentira. Por que vens agora armar-te em cavaleira de armadura de ferro, como naquela série que eu vi… com ele…” – e a lágrima cai enfim.

“Sim, tens razão… Mas isso foi noutra Era. As coisas eram diferentes, querida. Agora já não há cartas, expectativas, trocas proibidas de olhares, suspiros abafados em alpendres escondidos… O Mundo era diferente. Eu já não consigo “sentir tudo de todas as maneiras” em escassos minutos. Um dia, uma semana, um mês já não fazem diferença no meu tempo”

“Tenho pena de não te poder aquecer o coração”

“Vai… Tens de continuar, agora dorme, não penses nisso, querida.”

“Quanto tempo falta até chegarmos à minha vez?”

E ambas se evaporam no meio dum nevoeiro de pensamentos, fantasias, alucinações, ofuscados por finas frechas de luz que entram pela janela, deixando vislumbrar finas partículas de pó.

Amanhece. O seu corpo cansado repousou.

“Quem és?”

Nenhum comentário:

Postar um comentário