quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O som de uma fechadura a trancar ecoa num hall de entrada de uma casa desconhecida.

Os saltos altos de passos cansados arrastam-se pelo chão brilhante de mármore branco malhado de tons acinzentados.

Os sons de uma chave a ser pousada numa mesa e de uma pasta a ser atirada para o chão soam no silêncio de um apartamento escuro.

Janelas para o exterior, com prédios a rasgar o céu, luzes cintilantes e multicoloridas antevêem-se do lado de fora, naquela rua varrida pelo movimento urbano de um dia no quotidiano de muitos.

As luzes acendem-se e, demoradamente, visualiza-se, enfim, o espaço.

Languidamente ela olha em volta e sorri. Sinto que, algures, já a vi antes e que a identifico de há muito tempo atrás. Os seus gestos parecem-me tão próximos…

Dirige-se para os copos depositados numa prateleira reaproveitada numa estante preta em linhas modernas e enche metade de um deles com um vinho rosado em tons de uva preta madura; descalça os sapatos de bico e recosta-se no sofá branco, apoiando-se em almofadas pretas; deglute um gole do vinho e liga o televisor.

Estantes cobertas de livros imponentes com numerosas páginas forram a parede. Fotografias emolduradas estão espalhadas pelas paredes e estantes; são caras familiares, essas sim, reconheço-as!

Toca o telefone. Sorri e atende.

“Sim, está tudo bem, cheguei a casa agora, querida. E vocês, como estão?”

Uma voz fala do outro lado do telefone. Reconheço-a também.

“Oh…Deve estar enorme! Não sei quando volto, tenho tido imenso trabalho, mas vou tentar ver-vos este fim-de-semana, prometo.”

Aguarda resposta com um aperto no peito.

“Sim, tenho saudades vossas… Precisam que vos leve alguma coisa daqui?”

A voz tranquiliza-a.

“Óptimo! Ok…falamos depois então. Um beijinho grande. Manda beijinho ao pai!”

Desliga o telefone e um sorriso nostálgico toma-lhe os contornos da face com rugas de expressão e covinha na bochecha esquerda, cabelo desgrenhado e com vários tons de castanho, com gradações do claro ao escuro, e alguns brancos perdidos, olhos castanhos fundos, sobrancelhas carregadas e nariz pequeno, enquanto se aninha numa manta dobrada cuidadosamente.

Tira os brincos e as pulseiras. As mãos ficaram enrugadas com o tempo e estão despidas de anéis. Tem um ar feliz e de coração cheio. Gosto dela e não consigo explicar porquê.

O telefone toca novamente…

Não sei onde estás nem quem és. Mas sinto que te reconheço.

Será que…?

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