Passos à minha volta ecoam neste hall de entrada sujo, poeirento, movimentado e solitário, enquanto com o computador aberto e uma panóplia de livros tento dissolver os pensamentos fúteis e superficiais que me impedem a concentração.
Estou aqui e não tenho medo.
É algo vago que surgiu não sei donde nem como, de repente, sem que eu entendesse ou quisesse, envolveu-me pelos braços, pelo tronco, pelos membros… Penetrou no fundo de mim, mesmo naquele lado negro e lunar escondido e horripilante.
Afagou-me o cabelo, presenteou-me com olhares, tocou-me a pele cansada no final do dia, sorrio-me e recebeu-me com segredos indizíveis, que nem as paredes ouviriam.
Fui ao fundo de mim, procurar um motivo para rejeitar este estado aparentemente efémero. Deixei que entrasse em mim com desculpas esfarrapadas de pequenos momentos de regozijo e prazer meramente esporádicos que, com o tempo, se esvaneceriam, que, como o sol, se poriam ao final do dia.
Nunca esqueço a ausência de rótulos que sabe bem nos dias úteis sem consistência, quando o vazio e a solidão deixam um travo amargo pior que o dos dias-santos.
No começo, era uma estrada com um fim à vista e um bem camuflado e semi-emancipado. Tudo sabia bem e agora sabe mais…
A estrada foi-se bifurcando, vá lá saber-se porquê… O coração vai-se afundando em águas doces e salgadas, inconstantes e tentadoras, com ondas tenebrosas intercaladas com períodos de uma acalmia desesperante.
Ter medo de sentir? Não… Sentir, sentirmos… Sentirmo-nos…
Que interessa se é o fim de tudo ou o início do que for? Nunca houve promessas e expectativas trocadas, nunca houve tentativas de percepções inexplicáveis e quimeras ridículas…
Olha bem que mereces o melhor de mim…e tratar disso.
Entre palavras em fuga e gestos apressados, não me aflige saber que, no fim de tudo, ao som de mais uma música nova, se constroem novas estradas e novos caminhos que deixam sempre um final em aberto, ao mesmo tempo que os braços abertos fogem para os braços que os recebem.
Quero partilhar os dias cansativos e os entediantes.
Quero partilhar um sorriso.
Quero partilhar um olhar cúmplice.
Quero agarrar esse beijo perdido entre palavras fugazes.
Apenas quero sentir e viver, sem medos…
Porque no fim de tudo, já nada interessa…
E de que vale passar pelo dédalo de emoções, sentimentos, partilhas e experiências que a vida nos proporciona sem ter a ousadia de sentir?
Até ao próximo beijo de boa noite…
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