A chuva já não rompe as vidraças da janela do primeiro andar frio; agora, o sol penetra-a como que numa manhã de Primavera antecipada.
Os olhos brilham-lhe, como se de uma criança se tratasse, por detrás das lentes dos óculos envelhecidas com o tempo. Os estilhaços de vidro que lhe laceravam o coração desapareceram, enquanto as feridas vão sarando para darem lugar a cicatrizes perfeitas, mas que irão persistir, sem que a recordação ouse apagá-las.
O cenário de calma, ilustrado pelas árvores despidas de Outono, tranquiliza-lhe os demónios interiores que, até há bem pouco, se flagelavam mutua e continuadamente, desde há tempos que a memória já não alcança.
Parece que já foi há tanto tempo…
Suspira e acorda com um sorriso, pensando em como o sol poderá brilhar durante todo o dia…
Ah, menina… Tens saudades dos tempos em que o sorriso não era afectado por períodos de crises tempestuosas, quase insolucionáveis, batalhados com o sofrimento e angústia que sempre escondes com a máscara de pateta feliz?
Ah, menina…Quanto aprendeste, tu? Quanto cresceste, tu? Quanto te moldaste à passagem do tempo?
Ah, menina…Quanto ganhaste? Quanto amealhaste para ti, no teu recôndito espaço interior, enquanto te desenvencilhavas tão prontamente?
Ah, menina…Quando assumirás que já o não és? Quando pensarás que o que acumulas de vivenciado e experienciado marcou a tua tábua rasa inicial?
Ah, menina… Manténs o teu sorriso, intocável, inabalável, mesmo quando começa a mais grave tempestade sazonal.
E, enfim, ergues-te da cama, enches o peito de ar e caminhas com determinação, para enfrentar mais um dia, mesmo sabendo que o sol depressa poderá deixar de brilhar, quase que no manifesto de um qualquer clima tropical…
Ah, menina… Onde estás? Quero ser como tu…
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