domingo, 21 de novembro de 2010

Lisboa, Amanhece!

Lisboa amanheceu triste, gelada e cinzenta. Não a reconheço por dentro do vento e tempestade que assolam as janelas fechadas. As noites iluminadas e encantadoras transfiguram-se nas nossas mentes errantes e distinguem-se destas manhãs solitárias e temporais.

Caminho na calma que destoa da multidão, dentro do meu casaco quente, com aromas da noite anterior, as mãos cianosadas nas algibeiras, escondidas do frio que, mesmo assim, as agride.

Corações partidos esvoaçam perdidos, enquanto caras estremunhadas abrem as janelas para constatar, com tristeza, que os sonhos da noite anterior não passaram disso; também eles terão de sair do leito quente, seja ele vazio ou com companhia, para um novo dia começar. O que resta da noite anterior são apenas as esperanças que nos movem com alguma alegria e discernimento em direcção às expectativas, na maior parte das vezes infundamentadas, que nos guiam.

Ainda me ecoa na cabeça a valsa dos amantes desconhecidos que se cruzaram uma vez só, nesta ou numa outra qualquer noite, e se entregaram, movidos pela estupidez da solidão, nos braços embriagados um do outro; são meros navegantes que se deixaram cair nas teias de um amor infeliz que foi esfaqueado numa viela suja e velha de um coração tão grande e que se unem pelo motivo que os distancia do resto do Mundo. Por entre dentes, afirmam promessas incumpridas e trocam palavras quentes e acesas, executadas num quarto impessoal, desconhecido e vazio, tal como eles, porque assim, afinal, tudo pode ser aquilo que parece ao anoitecer. Mas, quando amanhece?

E assim, fecham-se os olhos, puxam-se os lençóis e espera-se que um fortuito episódio de sono ocorra, para que a fuga seja precipitada, rápida e sem sentimentos impregnados, já que estes jazem nos corpos cansados e suados dos levianos sentimentais.

Sigo o meu caminho de olhos semi-cerrados e ar indiferente.

A chuva parou de cair.

Na minha mente vão surgindo flashes de tantas Lisboas que podiam existir nas imaginações mais férteis, mas é nesta, na minha, que eles tomam forma e, durante o dia, se escondem por entre roupas novas, sorrisos vazios e olhos despejados.

Sigo o meu quotidiano, com o cansaço no corpo. As vidraças do autocarro ainda molhadas e embaciadas deixam-me ver ao fundo o Tejo e o Sol a surgir no horizonte, timidamente.

Bom dia, Lisboa...

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