Cedo, o som estridente de uma porta a ranger sobressaltou-me do leito. De dentro, do quente dos lençóis amarrotados, saíam imagens distorcidas de mais uma noite em branco, em que a mente deambulara entre a realidade e a fantasia, aprisionada em sentimentos gastos e perdidos, rasgados à pressa numa madrugada gelada.
Um aroma conhecido, abafado pelas paredes e escondido por entre a cal desgastada pelos momentos, inundou-me as fossas nasais e impregnou-me o espírito. Não sei como nem donde surgiu, mas despertou-me.
As roupas espalhadas pelo chão, o pó por entre as frestas das portas, o sol a raiar timidamente por entre as persianas mal fechadas, na pressa da noite anterior.
Na pressa em que deixei a noite entregue a si própria e saí, com as lágrimas a molharem-me o rosto cansado e sofrido, e o corpo a pedir para voltar para trás, para uma suposta eterna comodidade com que me comprometera e na qual um dia acreditei piamente. Caminhei sozinha para a escuridão daquelas paredes, que choravam comigo, enquanto a guerra para lá das janelas explodira, e cá dentro já não havia mais nada para amar.
Os sonhos tornaram-se diferentes a partir daquela noite, quando a guerra se instalou e eu te pedi para que fosses procurar sonhos ainda mais diferentes dos meus, que te assustavam e desconfortavam; pedi que fosses para onde não houvesse sons de estilhaços e tiroteios, onde a calma e a serenidade da brisa do teu mar se sobrepusesse a tudo o resto.
E hoje, continuo aqui…Na mesma cama, nos mesmos lençóis, com as mesmas paredes; nos sonhos continuo a perder-me por lugares que nunca atingiste, os mesmos que te faziam imaginar e pensar em quão estranho pode ser definir o que é certo ou errado, o que é bom ou mau, o que é fugir ou enfrentar.
Ainda não sei o que é certo ou errado, real ou imaginário, mas não o quero esconder nem negar, porém, o aroma de noites passadas, fez-me lembrar que afinal é só um sonho.
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