quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

untitled (like my soul)

A dor, espicaçando-me a consciência, apelando-me para que agisse, acordou-me novamente sobressaltada, mais uma manhã tortuosa. Todo o meu corpo se elevou, já mecanicamente, deixando atrás de mim os consolantes lençóis quentes que amarroto ao longo da noite, durante os mais drásticos sonhos e doces pesadelos.

Caminhava por entre as pedras esporádicas do meu caminho, pensando como te iria encarar mais um dia e enfrentar a voz que me reprimia, mas não sou eu sozinha que posso lutar contra a maré, não sou eu sozinha que vou virar o nosso barco, uma vez que as minhas forças fraquejam e as minhas pernas desfalecem-se, a minha alma.

Sempre te amei sem querer o que quer que fosse, porém uma carícia, um beijo, uma atenção especial sabem tão bem. Tais carícias que alegam o respeito mútuo, não me deixam olhar-te e não to dizer, é isso que mais arde e estilhaça as ínfimas partes de mim que se unem para te alcançar e amar honesta e fielmente. O teu olhar vai-me aniquilando e aumentado esta contradição interior.

Alcancei-te mais um dia, tu, tu lá estavas expectante com a minha chegada, mais uma em que me apresentei com aquela cara constrangida. Tu sabia-lo e compreendias-me, acima de tudo amas-me, a tua capacidade de compreensão e espera deixam-me atónita, só agora conclui definitivamente o porquê de tudo, o porquê do nosso início, recordas-te? Também nessa altura foste tu quem esperou e que teve sempre de compreender; começo agora a entender que o desequilíbrio parte de mim, sou eu, a culpa é minha.

Escrevo, escrevo e limito-me a escrever, algo sem nexo, sem sentido, vai surgindo, constato que as linhas vão sendo preenchidas, porém o meu vazio interior permanece sem ser ocupado, afinal, escrevo apenas porque quero suprimir a falta de algo que se esconde de mim mas que me impinge a sua presença.

Procuro-te, sei que estás dentro de mim, sinto que ainda te tenho dentro de mim, é impossível apagar tudo e ficar somente com as recordações que faíscam, eu não quero ter só as memórias, bastar-me-ão quando envelhecer, por agora, que posso, prefiro ter-te e continuar a ter episódios dignos de memórias que um dia lembrarei com o mais puro e doce sentimento melancólico. Todavia, onde está essa minha parte que só sobressai quando estou sozinha, completamente só, sem qualquer ar humano a sobrevoar-me e me abandona, findando-se, quando os meus olhos chocam com os teus, o teu toque acaricia o meu gesto do modo mais carinhoso e cuidadoso que consegues, e, enfim, estamos nós dois hirtos rodeados por uma multidão que nos observa minuciosa mas disfarçadamente e eu desejo poder sair dali quanto antes, porque me sinto a diminuir, tornando-me uma pequena gota de chuva numa manha pluviosa.

Afinal, para onde desertou ela?

Um comentário:

  1. Que palavrinhas lindas... acho que todo este cantinho é lindo, tal como tu, pelo que ja percebi! =)

    Um beijinho do tamanho do mundo, inteirinho para ti... =)
    ************

    ... e nao deixes de passar para este pedaço de folha intocável, tudo aquilo que te corrompe a alma!

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