Sinto que cedeste.
Dentro da tua mente arquitectas planos que julgas indolores e inofensivos só para poderes voar em liberdade. Afinal, que sabes tu sobre o valor da dor? Que sabes tu sobre sentimentos reprimidos? Que sabes tu sobre palavras omitidas? Que sabes tu sobre pormenores tão significantes e que temes mudarem tudo? Que sabes tu sobre o que é a perfeição e a pureza?
Olho-te e não te reconheço. Também tu és uma quimera que se formou no meu pensamento a partir duma espessa nuvem pequena, repleta de pequenos nadas? Questiono-me se algum dia vou conhecer-te, se algum dia me vais deixar de surpreender dessa maneira mórbida e insensata que não está de acordo com esse teu casaco e camisa, que, teimosamente, combinas com umas quaisquer calças que te fazem parecer adulta, solene e séria, quase intocável.
Construíste uma imagem sem a mais ténue possibilidade de manchar o quadro a que chamavas vida; pintava-lo com uma tal imaginação e perícia que me fazias crer ser real. Afinal, quem desconfiaria que a tua vida era um mero produto da tua imaginação? Quem ousaria desconfiar de ti?
Nesse dia em que cedeste, entrei na tua sala requintadamente decorada e depressa pontapeei caixas atulhadas de promessas que nunca cumpriste, de mentiras que sempre te engrandeceram e que faziam qualquer um idolatrar-te e construir-se à tua imagem e semelhança. No meio deste cenário horrífico, que sempre julguei ser impossível logo no teu refúgio, senti que nunca te tinha conhecido; só conhecia o que todos podiam observar…Nunca havia tacteado a poeira e desarrumação que te dotava de humanidade e te debotava a perfeição.
Ergui o rosto e afastei todas as caixas, prateleiras, caixotes, gavetas, malas que haviam desmoronado. Não te encontrava, contudo só poderias estar ali. Era ali que te íamos recomeçar a construir, desta vez munida de defeitos, de fraquezas, de dor, de imperfeição. Tu própria sabias-te incapaz de seres uma vez mais a tal actriz de sucesso.
Encontrei-te, enfim, no canto mais recôndito do teu lar. Estavas enrolada numas roupas que pensei jamais poderem ser tuas; suspiraste quando me vislumbraste no meio da tua vida real, junto às prateleiras que ostentavam o nome “mentiras para viver”.
Só aí te olhei e percebi. És tu, és eu, és ele e ela, és um todo e um nada, és nós, és vós, és eles e elas, és tanto e tão pouco. Fizeste-me nesse dia reflectir…Mentir pode sempre ser cruel, mas, por vezes, pode arruinar quem mente e dar pena a quem se mentiu.
Peguei na tua mão glacial e murmurei-te:
Dentro da tua mente arquitectas planos que julgas indolores e inofensivos só para poderes voar em liberdade. Afinal, que sabes tu sobre o valor da dor? Que sabes tu sobre sentimentos reprimidos? Que sabes tu sobre palavras omitidas? Que sabes tu sobre pormenores tão significantes e que temes mudarem tudo? Que sabes tu sobre o que é a perfeição e a pureza?
Olho-te e não te reconheço. Também tu és uma quimera que se formou no meu pensamento a partir duma espessa nuvem pequena, repleta de pequenos nadas? Questiono-me se algum dia vou conhecer-te, se algum dia me vais deixar de surpreender dessa maneira mórbida e insensata que não está de acordo com esse teu casaco e camisa, que, teimosamente, combinas com umas quaisquer calças que te fazem parecer adulta, solene e séria, quase intocável.
Construíste uma imagem sem a mais ténue possibilidade de manchar o quadro a que chamavas vida; pintava-lo com uma tal imaginação e perícia que me fazias crer ser real. Afinal, quem desconfiaria que a tua vida era um mero produto da tua imaginação? Quem ousaria desconfiar de ti?
Nesse dia em que cedeste, entrei na tua sala requintadamente decorada e depressa pontapeei caixas atulhadas de promessas que nunca cumpriste, de mentiras que sempre te engrandeceram e que faziam qualquer um idolatrar-te e construir-se à tua imagem e semelhança. No meio deste cenário horrífico, que sempre julguei ser impossível logo no teu refúgio, senti que nunca te tinha conhecido; só conhecia o que todos podiam observar…Nunca havia tacteado a poeira e desarrumação que te dotava de humanidade e te debotava a perfeição.
Ergui o rosto e afastei todas as caixas, prateleiras, caixotes, gavetas, malas que haviam desmoronado. Não te encontrava, contudo só poderias estar ali. Era ali que te íamos recomeçar a construir, desta vez munida de defeitos, de fraquezas, de dor, de imperfeição. Tu própria sabias-te incapaz de seres uma vez mais a tal actriz de sucesso.
Encontrei-te, enfim, no canto mais recôndito do teu lar. Estavas enrolada numas roupas que pensei jamais poderem ser tuas; suspiraste quando me vislumbraste no meio da tua vida real, junto às prateleiras que ostentavam o nome “mentiras para viver”.
Só aí te olhei e percebi. És tu, és eu, és ele e ela, és um todo e um nada, és nós, és vós, és eles e elas, és tanto e tão pouco. Fizeste-me nesse dia reflectir…Mentir pode sempre ser cruel, mas, por vezes, pode arruinar quem mente e dar pena a quem se mentiu.
Peguei na tua mão glacial e murmurei-te:
”_ Anda, só lá fora podes recomeçar.”
Mais um belo texto... Habituas.m mal. Adoro ler os teus textos.
ResponderExcluirJá me estou mesmo a imaginar, daqui a uns bons anos, deitadinha na minha cama, a ler um livro de uma tal Ana Cinza. Isto se não usares um pseudónimo qlqr. =P
Ás vezes é mesmo preciso haver mentiras, para que se possa viver. Mas normalmente acabamos no meio delas, sem nos conseguirmos livrar desse tão grande hábito...
Vc sabe.
Txi amu.
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adorei o texto...obrigado..
ResponderExcluirtou a gostar muito de te ler...laranja maluka!! eheh =')
apanhando um pouco as palavras da dani..
as mentiras são tramadas, quando somos pequenos, ensinam-nos que mentir é feio..porém, por vezes é necessario, pork a verdade pode magoar, se bem k a mentira também....enfim, é muito complicado...é a vida...
(o meu coment ta um bocado confuso..mas coiso..)
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Há uma linha ténue que separa a mentira da verdade, mesmo o que é verdade para uns, é falso para outros. e tantas são as vezes que nos falseamos a nós mesmos, nos cobrimos com uma qualquer mentira que é tão verdade aos olhos dos outros, que quando nos descobrimos, vemos as caixas entulhadas de promessas incumpridas, dos sonhos desfeitos, de lembranças quebradas. Por vezes, tem-se a sorte de conhecer a pessoa certa, aquela que descobre por debaixo da aparente verdade a verdadeira mentira, talvez dando-nos uma oportunidade de recomeçar, nascer das cinzas, às vezes a mentiras que nos constroíem, são aquelas que nos sustentam, quando as abalam o resto cai, e aí, é preciso recomeçar, lá fora.
ResponderExcluirBem, que é que eu posso dizer mais, obrigada por escreveres tão bem e com tanta qualidade, continua a ser um prazer ler-te.
Beijinhos
O q dizer??
ResponderExcluirSou perita nelas, n sou?
Ainda bem que ha alguem a ver por tras delas.
Beijo