Peço desculpa pelo tamanho do post, mas foi fluindo.Deve ter sido por não escrever há tanto tempo
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As gravilhas soltas, no meu caminho de hoje, incomodavam mais do que nos outros dias. A expectativa duma morte anunciada persistia e o desejo dum abraço quente não passava duma quimera hedionda, quase repugnante, que me irritava e fascinava. As portas e janelas azuis e amareladas que me costumavam espreitar, sussurrando depois entre si, acenavam-me hoje; tudo era estranho hoje, até o sorriso do empregado de balcão que, todos os dias, me perguntava a mesma coisa “então, um cafezinho?”
Ergui os meus olhos pela primeira vez depois de ladrilhar as ruas e escapar-me de todas aquelas viagens, do metro ao autocarro, passando pelo táxi, todos horríveis, todos medíocres, sempre atulhados de gente transpirada, preocupada e frustrada. Vi a mesa vazia, do café de sempre. Sentei-me e aguardei a primeira lufada de ar fresco, que sempre me brindava com um bom dia, quando ali chegava; comecei, então, depois desse carinhoso gesto do vento, já tão habitual, a mexer o tal “cafezinho”, devagar e mergulhada nos meus pensamentos, e no fumo de tantos “camel”, “marlboro”, “SG” e afins…
O café já devia estar suficientemente frio, para não me queimar, e suficientemente quente, para não parecer uma qualquer substância estranha e nojenta. Engoli-o, demorada e extasiadamente, enquanto pensava em tudo o que se sucedera nos últimos meses…A vida havia-me demonstrado quão insignificante eu era, quão estupidamente perfeccionista era, quão inutilmente exigente era com tudo e todos…Constrangi-me.
Ergui os meus olhos pela primeira vez depois de ladrilhar as ruas e escapar-me de todas aquelas viagens, do metro ao autocarro, passando pelo táxi, todos horríveis, todos medíocres, sempre atulhados de gente transpirada, preocupada e frustrada. Vi a mesa vazia, do café de sempre. Sentei-me e aguardei a primeira lufada de ar fresco, que sempre me brindava com um bom dia, quando ali chegava; comecei, então, depois desse carinhoso gesto do vento, já tão habitual, a mexer o tal “cafezinho”, devagar e mergulhada nos meus pensamentos, e no fumo de tantos “camel”, “marlboro”, “SG” e afins…
O café já devia estar suficientemente frio, para não me queimar, e suficientemente quente, para não parecer uma qualquer substância estranha e nojenta. Engoli-o, demorada e extasiadamente, enquanto pensava em tudo o que se sucedera nos últimos meses…A vida havia-me demonstrado quão insignificante eu era, quão estupidamente perfeccionista era, quão inutilmente exigente era com tudo e todos…Constrangi-me.
Olhei então para o meu lado, naquela mesa ao lado, naquela mesma mesa que, todos os dias, ali estava, também com a mesma pessoa ali sentada a divagar. Todavia, hoje essa pessoa olhava-me. Era um homem, com um ar longínquo e fascinante; pela primeira vez vira os seus doces olhos penetrantes, dum verde acastanhado, a trespassarem-me a alma, como quem me despe e me quer conhecer. Sorriu-me e perguntou, timidamente, “tem lume?”. Respondi-lhe que não fumava e, prestes a voltar ao meu caderno pousado na mesa, onde escrevinhava uma qualquer idiotice sem sentido, ele ergueu-se da sua habitual mesa e pediu para me fazer companhia.
”_ Sim” - respondi desconfiada (não era todos os dias que o homem atraente se convidava a sentar-se comigo)
“_ Desculpe a indiscrição. Se estiver a incomodá-la, posso sair…”
“_ Desculpe a indiscrição. Se estiver a incomodá-la, posso sair…”
”_ Incomodada não me sinto, talvez só confusa e admirada…”
“_ Tenho reparado que vem aqui todos os dias, que se senta nessa mesa, toma o seu café e escreve incessantemente…Intriga-me. Não é normal vir-se tão cedo para um local destes, tomar um simples café e escrever…”
Não gostei do ar intrometido e começaram a irritar-me tantas perguntas.
“_ Tenho reparado que vem aqui todos os dias, que se senta nessa mesa, toma o seu café e escreve incessantemente…Intriga-me. Não é normal vir-se tão cedo para um local destes, tomar um simples café e escrever…”
Não gostei do ar intrometido e começaram a irritar-me tantas perguntas.
”_ Nem todas as pessoas têm os mesmo hábitos, de se sentarem, olharem para as notícias, conversarem ou fumarem um cigarro”
“_Tem toda a razão” - disse atrapalhadamente – “Peço desculpa. Mas, para lhe dizer a verdade, o seu ar alheado fascinou-me…Trabalha aqui perto?”
“_Tem toda a razão” - disse atrapalhadamente – “Peço desculpa. Mas, para lhe dizer a verdade, o seu ar alheado fascinou-me…Trabalha aqui perto?”
Mau…as perguntas multiplicavam-se!
”_ Sim.”
E, secamente, voltei ao meu caderno enquanto ele me observava.
Repentinamente, aquele homem que, irritando-me, me fascinou, levantou-se, pagou o meu café e saiu. Deixou-me sem sequer ter tido tempo de questioná-lo sobre o que fazia ali tão cedo, acompanhado dum calhamaço, cujas folhas estavam marcadas e dobradas, e dum mesmo cigarro chupado, duma qualquer marca que nunca antes vira.
O seu casaco negro fez com que as folhas secas, que anunciavam o final do Inverno, rodopiassem levemente sobre o chão pisado por milhares de pés, milhares de vidas, milhares de hábitos, deixando atrás de si tantas perguntas por fazer e por serem feitas. Aquele homem inquieto e inquietante deixou-me a pensar sobre o meu ignaro costume de todos os dias ali me sentar a escrever, a desabafar as amarguras que só eu sentia, que só eu compreendia e que só eu queria sentir.
Lembrei-me da solidão em que tanta gente se refugia para não ter de ser questionado; lembrei-me dos sentimentos que tanta gente esconde para poder aparentar ser feliz; lembrei-me de mim, quando era eu quem questionava; pensei em mim, um dia, acompanhada por alguém, naquela mesa de café, a rir-me do que hoje se sucedeu, e que me fez, sobretudo, lembrar.
E, secamente, voltei ao meu caderno enquanto ele me observava.
Repentinamente, aquele homem que, irritando-me, me fascinou, levantou-se, pagou o meu café e saiu. Deixou-me sem sequer ter tido tempo de questioná-lo sobre o que fazia ali tão cedo, acompanhado dum calhamaço, cujas folhas estavam marcadas e dobradas, e dum mesmo cigarro chupado, duma qualquer marca que nunca antes vira.
O seu casaco negro fez com que as folhas secas, que anunciavam o final do Inverno, rodopiassem levemente sobre o chão pisado por milhares de pés, milhares de vidas, milhares de hábitos, deixando atrás de si tantas perguntas por fazer e por serem feitas. Aquele homem inquieto e inquietante deixou-me a pensar sobre o meu ignaro costume de todos os dias ali me sentar a escrever, a desabafar as amarguras que só eu sentia, que só eu compreendia e que só eu queria sentir.
Lembrei-me da solidão em que tanta gente se refugia para não ter de ser questionado; lembrei-me dos sentimentos que tanta gente esconde para poder aparentar ser feliz; lembrei-me de mim, quando era eu quem questionava; pensei em mim, um dia, acompanhada por alguém, naquela mesa de café, a rir-me do que hoje se sucedeu, e que me fez, sobretudo, lembrar.
realidade ou ficção?!
ResponderExcluirmuitas vezes nos cruzamos com a rotina de outra pessoa, num autocarro, num café, no trabalho.. muitas vezes até já as conhecemos de vista, mas nunca damos um passo em frente para saber quem são ou o que fazem ali, mesmo podendo elas guardar uma qualquer mensagem implicita para nós.. tantos olhares, tantos lugares.. nós e o mundo e o nosso mundo.
bom texto, gostei de te ler, já tinha saudades.
***** fica bem.
A solidão de quem foge e se esconde do mundo por não se identificar com ele... brilhante mais uma vez. Parabéns!
ResponderExcluirContinuas igual a ti propria... =)
ResponderExcluirCurto ler o que escreves... faz-me lembrar certas cenas e ao mesmo tempo puxa-me pela cabeça para tentar interpretar o porkÊ do texto.
*bj
Deves tár a perguntar: "=O O q é q esta veio aqui fazer???!" =P
ResponderExcluirApeteceu.m vir aqui, tava a precisar de ler qualquer coisa com algum sentido. Deixa.m dizer.t q consegui...
Juro q desliguei completamente da musica q tava a ouvir e d tudo, parecia q tava a começar a ler um livro. =)
Concordo com o Sr. d cima... "Continuas igual a ti própria..."
=)
Amo-te, sim!
*